Apresentação

Ainda garoto, quando comecei a curtir música de forma mais abrangente, não apenas como função única de entretenimento mas também de informação, me esbaldando de todo o universo que envolve a produção musical no Brasil, tinha alguns desejos. Um deles era de gravar um álbum, não pelo fato comum de pavonear a belíssima voz que não tenho, mas de colocar dentro de um único produto todas as influências, origens e fragmentos daquela arte que eu tanto fazia (e faz) a minha cabeça. Ao passar dos anos, nessa vida entre a música e a brincadeira, entre a roda de samba e as saideiras intermináveis, entre a Serrinha e a Barra Funda, entre o torresmo e a moela, amizades, ideias, trocas de experiências, abraços, choros, gargalhadas, brigas e muita, mas muita música (e mais saideiras). Os encontros certos foram dados e um deles, entre tantos, foi com meu amigo correligionário e bamba Léo do Bandolim, que vem comigo reforçar nessa empreitada a ideia de que um álbum só é pouco para tanta madrugada, não cabe e nem carece.

Não tá mole, não, Cassião. Esse mundo louco…bala de canhão e bomba de troco. Eu era roqueiro, daquele pesado, acho que girava a cabeça pra ver se encontrava norte; tocava guitarra distorcida e nem sabia batucar. Vivia em solo empalidecido de samba e negrices. Mas os sambas, vindos da minha família da zona norte da Pauliceia, me circundavam como orixás num terreiro. Toda a musicalidade veio se formando na juventude contígua a questões em torvelinho: queria entender o Brasil, queria entender as injustiças que me cercavam, quem daria respostas a isso? Muitos porquês, sem resposta exata. Fui conhecendo os cafundós da Casa Grande, dos altares corporativos, as ruas e os brejos profundos de nosso país. Conhecer aquilo me obrigava a me posicionar politicamente. E conhecer o Brasil não é para amadores nem pra iniciantes nem pra experientes no poder –  de vários desses desconfio! Essa é minha perseguição a cada boteco, a cada roda de samba, a cada caminhada de ouvidos atentos pelas ruas. E foi numa dessas batucadas que me foi apresentado o Cássio. Parece que buscamos a música perdida, do fundo de quintal que não mais acontecerá nos condomínios e nos gourmets das megalópoles – ou virá embranquecido? -, daquele samba que nos fez chorar e nem o nome temos recordações. Talvez seja a busca da melodia sincopada que costura o nosso tecido social, cuja agulha fazem acreditar que o povo não sabe manusear. Ainda temos muito de costurar os farrapos por aí…

Assim sendo, camaradas e parceiros, viemos aqui fazer nosso zumbido, colocar pro debate as contradições brasileiras, provocando discussões e lançando olhar sobre o que circunda nossas manifestações artísticas, com enfoque no samba, relacionando nossa formação social e suas inflexões históricas. O valor não está apenas na cultura, assim como bem sabe o mercado, mas também na crítica, compreendendo outro modo de apreender o mundo, de dar sentido a ele e de se posicionar diante das injustiças sociais vividas, não só pelo discurso político, não só pelo lirismo, o qual também pode ser político, mas também num jeito de combinar reconhecimento, solidariedade, intrigas e disputas entre sujeitos, individuais e coletivos.

Em tempos difíceis, se faz necessário evocar e jogar aos quatro ventos o que sempre tentam, em vão e violentamente, acaçapar na história de nosso país; se faz necessário trazer à tona as marcas deixadas no peito que o tempo não quis remover. Sem ilusão, este Zumbido é papo reto e abre agora o seu espaço sem desacato, para reunirmos muitos Bambas e para que, de fato, seja um ZUMBIDODEBAMBA!

Abre a roda, minha gente, que o batuque é diferente!

Entre uma arte de Elifas Andreato, um samba de Wilson Moreira, um jongo da Serrinha, uma batucada de Marçal, um samba de roda, um samba rural e tantas e tantas preciosidades e brasilidades que cabem neste espaço, este zumbido vem pra confirmar que o desejo do garoto Zumbi não fica pra trás. Firmamos o pé e seguimos a sambar.

Por fim, saudamos os parceiros que estão conosco desde o início dessa quizumba: na ilustração, Vinicius Sabato, e na filmagem e edição das entrevistas, Alexandre Scritek; além, é claro, de todos os amigos que nos alimentam de boas ideias e bons papos.

Foi necessário armar um terreiro atual. Nosso tempo é hoje!

Sejam bem-vindos ao nosso pagode!

Cassio Guerreiro e Léo Pereira

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