Crônica: A várzea do Carlos Gomes

No dia do jogo, dois caminhões lotados saíram da Barra Funda logo cedo. Tinha mais porretes de todas as formas e tamanhos, pedras, tijolos e canivetes que bandeiras e fogos. Os diretores, mais velhos, não conseguiam demover os briguentos da idéia de “ir pro pau”, uma cultura arraigada no futebol varzeano à época.

Por Artur Tirone

Outro dia, no campo do Anhangüera, um coroa me pediu: “- Escreva alguma coisa sobre o Carlos Gomes!”.

Não se trata do eminente compositor, mas do time do Carlos Gomes da Barra Funda, extinto há quarenta anos, que foi a agremiação de maior torcida na região. Uma torcida fanática, desvairava e muito agressiva, ficando famosíssima na época dos irmãos Cabeleira (década de 40), que brigavam por esporte.

Teve um jogo, no ano de 1973, em que o Carlos Gomes enfrentou um time de Cotia, o Santo Antonio – um time em que todos os jogadores eram freqüentadores entusiasmados de uma paróquia de mesmo nome, recém-inaugurada na cidade. Um dos católicos de Cotia decidiu organizar uma pelada do pessoal dessa igreja contra alguma outra; seria uma espécie de confraternização católico-futebolista. Lembrou-se da Paróquia homônima de Santo Antonio, na Rua Anhangüera, Barra Funda, que conhecera havia muitos anos.

Entrou em contato com o Padre Luis, titular por décadas na igreja da Barra Funda e este firmou a partida com os diretores do Carlos Gomes, que iam sempre à missa: “- Representem nosso bairro e nossa paróquia. O povo de lá é muito religioso; soube que nessa igreja de Cotia são fanáticos!”.

No dia do jogo, dois caminhões lotados saíram da Barra Funda logo cedo. Tinha mais porretes de todas as formas e tamanhos, pedras, tijolos e canivetes que bandeiras e fogos. Os diretores, mais velhos, não conseguiam demover os briguentos da idéia de “ir pro pau”, uma cultura arraigada no futebol varzeano à época.

O campo ficava bem ao lado da igreja e o jogo seria após a missa. O time do Carlos Gomes chegou uma hora antes do horário estabelecido. Um cidadão com pose de gente importante os recebeu com extrema gentileza e fez o convite: “- A missa está começando, depois tem o jogo e o churrasco. Venham assistir conosco, fazemos questão!”. Os vagais, entre uma anfetamina e outra, se negaram a entrar na igreja e foram advertidos pelos diretores do time: “- Vai entrar todo mundo. A gente faz meia horinha e pronto.”.

O problema do Carlos Gomes é que tinha uma molecada de dezoito, vinte anos, terrível, briguenta, completamente insana. Era a “Turma do Colete”, capitaneada por Valdir, o Diabo e Barrabás. Que dupla.

Na igreja completamente abarrotada a torcida e o time da Barra Funda foi entrando. Estava tudo indo bem, até que começou uma gritaria lá fora: “- Se o Diabo não entrar, eu não entro!”. O padre, que ainda não tinha começado a rezar, foi lá pra fora, e a multidão o seguiu. Barrabás, com os olhos estalados e a boca meio torta, gritava possesso “Sem o Diabo eu não entro!”.

Diabo tinha sumido, e o Barrabás, seu parceiro inseparável, empacou na porta da igreja. O padre, perplexo, começou a gritar um discurso que ali era a casa de Deus: “- Refutamos qualquer manifestação diabólica!”. Os fiéis entraram num frenesi danado. Alguns, mais exaltados, xingavam o time da Barra Funda. Começou um empurra-empurra.

Sem conseguir conter o desatinado Ivan (era esse o nome do Barrabás), a turma do Carlos Gomes viu que ia feder, já que estavam em menor número e os religiosos de Cotia a essa altura manifestavam repúdio feroz ao “anti-cristo” que exaltava o “capeta” – incluindo as velhas, crianças e o padre.

Conseguiram pegar o endoidado que ainda gritava pelo Diabo. O pau começou a quebrar, mas ainda em focos isolados. A torcida do Carlos Gomes, percebendo que ia apanhar da cidade inteira, começou a por panos quentes. O padre pegou o Ivan pela nuca e mandou-o retirar o que havia dito. “- Olha o Diabo ali!”, apontou Ivan. Era Valdir voltando do mato, onde fora às pressas fazer necessidades.

Diabo viu aquele tumulto todo e foi chegando. Todos aguardavam. Suas palavras poderiam por fim ao fundunço. Ele mesmo percebeu que seria melhor acalmar a situação. Disse à multidão, num tom firme: “- Soltem o Barrabás!”. Foi uma frase infeliz para o momento. O time do Carlos Gomes apanhou à vera e, pela primeira vez em sua história, teve que fugir. Há quem diga na Barra Funda que o clube Carlos Gomes não se extinguiu: foi excomungado.

Sobre a ilustração: Arnaud Pallière – LAGO, Pedro Correia do. Iconografia paulistana no século XIX. São Paulo: Metalivros, 1998. (extraído do Wikipedia)
A Várzea do Carmo em 1821. Ao chegarem do Rio de Janeiro ou de Santos, e já na entrada da cidade pelos lados do Brás, os viajantes tinham o privilégio de observar esta paisagem. Primeiro local do futebol de várzea de SP. A elite, no início do século XX, decide encontrar outros lugares; as classes populares permanecem e ficam conhecidas como “varzeanas”.

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