O carnaval do Rio tem algo a nos dizer

Este ano a Sapucaí é um prato cheio para refletir o momento atual da sociedade. O claro retrocesso de algumas questões e o fascismo que ronda o Brasil. É preciso que o samba se manifeste, sim.

Por Deise Gomes

Voltar a escrever em tempos de Carnaval reúne duas paixões: jornalismo e samba enredo. Primeiramente, preciso agradecer o convite deste projeto incrível, o “Zumbidebamba”. Aproveitando também para antecipar que a escritora em questão é uma jornalista apaixonada por samba. Não sou música ou sambista. Sou apreciadora de quase tudo o que o samba produz com qualidade e verdade.

Meu amor pelo samba nasceu das fitas e discos que meu pai tocava na minha infância. Moradora da Bela Vista, por consequência o Vai-Vai fez parte da minha construção musical também, foi ali que escutar samba enredo passou a ser hábito diário. Eu não escuto apenas no carnaval. Faz parte das minhas playlists mais ouvidas.

Samba na minha concepção sempre carregou política de uma forma ou outra. Não vamos aprofundar no tema, mas indo direto ao ponto: em 2020 a Sapucaí terá coisas a dizer.

No desfile do grupo especial do Rio de Janeiro, teremos 13 escolas desfilando e, em pelo menos 11 delas, seus sambas-enredo têm recados importantes. Algumas escolas são enfáticas, em outras precisamos estar mais atentos ao que cantam seus intérpretes.

Mangueira, Grande Rio, Portela e São Clemente são claras no que querem.

A atual campeã do carnaval carioca vem com o enredo “A Verdade Vos Fará Livre”, questionando a volta de Jesus Cristo, pobre e retinto, num mundo de intolerância, violência e preconceito. O samba da Mangueira é para ser ouvido inteiro, e vem forte: “Favela, pega a visão // Não tem futuro sem partilha // Nem Messias de arma na mão”.

A Grande Rio, que na modesta opinião da autora, tem o samba mais bonito do Rio, carrega no seu principal refrão um clamor: “Pelo amor de Deus // Pelo amor que há́ na fé// Eu respeito seu amém// você̂ respeita meu axé”. Com um enredo marcante “Tata Londirá. O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias”, sobre Joãozinho da Gomeia, figura marcante do candomblé́, bate forte na intolerância religiosa.

A Portela também tem um aviso importante em seu samba: “Índio pede paz mas é de guerra //Nossa aldeia é sem partido ou facção//Não tem bispo, nem se curva a capitão”. A azul e branco de Madureira vai falar dos primeiros habitantes do Rio, e muito mais.

A São Clemente vem com a sátira de Marcelo Adnet e cia para avenida. O enredo “O conto do Vigário” traz um samba sobre golpes e seu fechamento é este: “Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu! // E o país inteiro assim sambou//Caiu na fake news!”.

Destaco também os sambas de Salgueiro e Mocidade. O primeiro fala de Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil, que se vivo estivesse, faria 150 anos em 2020. Mantendo uma linhagem de representatividade de negros importantes na história. E Padre Miguel que escolhe nada menos que Elza Soares pra ser enredo e rainha do seu desfile. Ela por si só já é representante de muitas questões discutidas hoje, como feminismo e machismo.

É preciso estar atento às composições do carnaval carioca. Outras agremiações também marcam suas obras com questionamentos e protesto. Paraíso do Tuiuti, Estácio, União da Ilha, Tijuca e Beija Flor dialogam com a sociedade atual. Acredito que os compositores do carnaval carioca assimilam cada vez mais a importância sociocultural da escola de samba em tempos controversos.

Este ano a Sapucaí é um prato cheio para refletir o momento atual da sociedade. O claro retrocesso de algumas questões e o fascismo que ronda o Brasil. É preciso que o samba se manifeste, sim. Antônio Candeia Filho mandou um recado muito claro há tempos: “Escola de samba é povo em sua manifestação mais autêntica. Quando se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo!”.

Se o povo precisa de voz, que se faça pelo samba!

Até a próxima!

  • a imagem em destaque é do pintor Pieter Bruegel, chama-se “A luta entre o Carnaval e a Quaresma”, de 1559, feita em óleo sobre madeira.

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