Crônicas: Flagrantes do carnaval

Na baixa da quarta de cinzas, memórias do carnaval vêm como notas de sopros pelo ar. Entre o baixo contínuo da tuba e os agudos de um trompete; entre guarda-sóis da Skol e pessoas perdidas pelas ruas; festa e trabalho; entre corpos sensíveis e inertes.

I

“E já tarde da noite
Volta meu elefante
Mas volta fatigado
E as patas vacilantes
Se desmancham no pó (…)”

Sábado. Certa paulistanada sai do cabresto com o orgulho de dizer que está ocupando a cidade. O centro expandido, bojudo, torna-se seu lar movimentado por Ubers. Liberdade de uns; cabresto de outros. Paga-se milho 8 reais; pipoca a 15; espuma a 20. Superinflação para superextase de uma ilusão de comunidade. O consumo dá a liga a todos.

A novidade deste ano era de que SP teria o maior carnaval do Brasil. O surto de blocos e o dinheiro investido pela Ambev não deixa de estar ligado a esse espírito de comunidade forjada pelo consumo. 19h, toque de recolher. Ano de eleição, sem turba, sem muvuca; o roteiro é lindo para seu Bruninho e seu Dória, nada criticados, imunes pelos escancaros e vômitos do carnaval intenso da família Bolsonaro. Entre lindezas e gorfos, tudo está bem regrado por sirenes e cassetetes, por acordos bem feitos na mesa do prefeito. Certamente isso não significa que parte do povo não tenha se manifestado politicamente. A esquerda mostrou o melhor de sua festividade com muita criatividade  – e a rima pobre precisa ganhar elaboração no próximo período do ano, o mais longo e mais sinistro.

De manhã fomos a um fuzuê na praça das Corujas, na Vila Madalena. Tudo estava tão bonito que parecia mentira. Chuvisco tinha parado, embora ainda frio. A praça perfeita, horta comunitária, fanfarra digna de gravação ao vivo, crianças lindamente fantasiadas nos brinquedos com seus pais desfantasiados, milhos a 8 reais, 3 skol kids por 12, pipoca a 15, espuma a 20. Foi tudo bonitinho e caro. Saímos de lá com a vontade de participar de um bloco, de verdade, mais pé no chão.

Fomos a Perdizes. “Adoro esse bairro”, disse um amigo morador da região. “É…(olhei em volta), é caro, né?…”, respondi. O Bloco Unidos Venceremos subiu e desceu as ladeiras com muito vigor. Bela bateria e belo elefante, símbolo do bloco. No embalo do samba, minha filha capotou no colo da mãe; decidimos, então, ficar num bar de esquina, bebericando e conversando com alguns amigos.

Enquanto o bloco dava sua volta pelo quarteirão e os guarda-sóis sem sol dominavam a ladeira esperando os foliões, surgiu uma matilha de rapazes com colete listrado de laranja e branco e um rojão rasgou a rua, subindo a ladeira na contramão do bloco que vinha despontando no topo do morro. Era uma menina, baixa e cascuda. Gritava para os marginais da Ambev: “ó o RAPA! O RAPA, PORRA!”. A fantasia da cambada de ratos da prefeitura logo foi percebida por quem sabe que eles poderiam acabar com o troco do dia de muitos ambulantes. Os fiscais eram jovens entre 25 e 30 anos, provavelmente fazendo um bico. Poderiam tranquilamente estar em outros lugares da cidade curtindo seu carnaval, mas precisavam ganhar seu troco em cima do troco dos outros. Uma cadeia kafkiana. Vi o jeito acanhado deles. Não queriam abordar ninguém. Talvez devessem cumprir metas. O chefe deles, sem colete, abordou um grupo de foliões o qual tinha uma geladeira térmica. Metade da rataria foi junto e, atrás do chefe, mostrava seus caninos. “O que tem aí?!”, o chefe olhou rijo para o objeto a ser confiscado. O folião, sem jeito, disse o óbvio: “Cerveja”, e continuou dançando. “E você tá vendendo?”. “Não…”. “E garrafa de vidro? Tem aí?”. “Também não…”. Era um roteiro que precisava ser encenado para alguém ver. A cena vergonhosa de confisco sem validade, sem motivos. Olhei para minha mão e eu estava com uma garrafa. Eis que, naquele momento, despontava a menina descendo a ladeira com freio de mão, sambando duro, braços balançando malandramente e com a sua Moderninha no pescoço com dezenas de recibos voando. Fantasia tão cara e tão real para muitos. Todos os fiscais a olharam com raiva. Ninguém os pegaria. Na brincadeira de polícia e ladrão, quem ganhava era quem corria mais.

Foto extraída de reportagem da UOL

Nessa brincadeira de carnaval, nenhum deles participara do conluio entre Ambev e Prefeitura, nem dos conluios dos donos de diversas barracas de cerveja, nem do monopólio dos preços de cerveja. Dei meu último gole na minha cerveja de garrafa e sem força pra subir a ladeira, despedi-me do elefante do bloco, o qual despontava no topo do morro, com o desejo de que ele tivesse patas para sambar sem medo em cima da rataria que, de fato, comanda o carnaval.
“Alheia a toda fraude / Eis meu pobre elefante / pronto pra sair / à procura de amigos / Num mundo enfastiado / Que já não crê nos bichos / E duvida das coisas / Ei-lo, massa imponente / E frágil que se abana (…) Vai meu elefante pela rua povoada / Mas não o querem ver / nem mesmo pra rir (…)” (O Elefante – Carlos Drummond de Andrade)

II

Domingo. Blocos no mesmo bairro. Um tanto de Rio em São Paulo. Pude até contar histórias da região da Vila Anglo e Ipojuca para amigos. Poucos sabiam onde estavam. Acho que nem eu…

III

Segunda-feira. Uma vela pro santo, outra pra vadiar. Minha companheira tocou na Charanga do França. Fui de manhã com nossa pequena, antes da muvuca-mor. Charanga na rua, graves batendo no topo dos prédios, força sonora que mexia qualquer corpo paulistano desengonçado. Ao ver uma aglomeração maior, saí com minha pequena para levá-la na casa de dois amigos. A estratégia foi boa pois pela primeira vez eu curtiria a Charanga no meio da muvuca e vendo meu amor passar. E acompanhar a banda ao lado da corda é uma bela experiência. Sente-se o embalo da música e como os corpos podem seguir o cortejo, sem se atropelar. Seria isso se não fosse a muralha. Vi que muitos ali no miolo queriam estar ali; o desejo, porém, represado de medo não fazia com que os corpos se soltassem. “Ninguém falou que o carnaval ia ser fácil! Se solta! É só seguir o ritmo!”, eu gritava quando via olhares de medo de algum corpo sucumbir à onda de corpos. Quando tocava “Se a canoa não virar”, soltei minha frase novamente e uma garota raivosa diz: “Não é isso! Tem o meu ritmo!”. Respondi: “mas o ritmo não vai ser atropelado, tá de boa! É só ir no ritmo da música”. E ela: “mas eu tenho o MEU ritmo”, gritou e tragou sua cachaça com cara de brava. As outras amigas confirmaram a precisão de sua contestação. E assim faz-se um verdadeiro paulistano: rima pobre e ritmo próprio.

E continuemos: se a canoa não virar…

IV

Terça. O discurso politizado do carnaval do sambódromo é um termômetro para vermos como as comunidades estão se organizando e quais interesses estão em jogo. Não sejamos ingênuos: traficantes, bicheiros, políticos e empresas estão envolvidos nessa rede. E é difícil delimitar o que é de quem nesse camarote. É possível, porém, verificar como a Globo transmite esse discurso. A verve identitária da mulher e do negro como discurso meramente do empoderamento foi o que sobressaiu. Empodera-se para dominar. Muitas escolas, porém, apresentaram muito além disso. Trouxeram a história do Brasil contada por personagens importantes, como fez Salgueiro, Viradouro, Mangueira, Portela e Vila Isabel. Ou seja, um outro olhar social, contestando o discurso dominante. A Globo, com sua âncora liberal feminista Fátima Bernardes, cumpriu bem seu papel de domesticar a contestação. Querem a inserção no jogo capitalista mais ferrenho.

V

Ao lado do camarote global, sambava um casal, sorrindo plasticamente, de mestre-sala e porta-bandeira com a estandarte do Ifood. Empodera-se para gerenciar melhor a multidão, dispersa politicamente e ativa no consumo.

(imagem: Pieter Bruegel – A luta entre a Quaresma e o Carnaval [1559])

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