Eu sinto vergonha de você. E isso é bom! (ou: Você sente vergonha de mim. E isso é bom!)

(Opinião, por Guilherme Lie)

Não sinta vergonha de se afastar, reduzir contatos, de pessoas com valores incompatíveis com os seus, sejam essas pessoas pedófilos, estupradores ou apoiadores de ditaduras.

“Estupra, mas não mata”; “Os negros são os mais racistas”; “Todo chefe/empresário é um explorador”; “Que serviço de preto”; “Chineses são sujos, comem insetos”; “Olha quem fala! O socialista de iphone”; “Não tenho nada contra viado, mas não precisa ficar beijando na rua, tem gente que não gosta”; “Você não merece ser estuprada porque é muito feia; Não achei certo estuprar…mas também, você viu a roupa que ela estava usando?”; “Você não deveria vacinar sua filha, isso prejudica a imunidade dela”; “A imprensa é de direita e quer acabar com o Lula”; “A imprensa é comunista e quer acabar com o Bolsonaro”; “A escravidão foi boa para os negros no Brasil”; “Milhares de pessoas morreram por Covid-19. E daí, não faço milagre”.

Por que sentimos “vergonha alheia”? Porque temos a habilidade natural de nos colocarmos no lugar do outro e sentir o que, provavelmente, o outro está sentido. Quando vemos alguém dar uma topada com o pé na quina da cama, sentimos (quase) a mesma dor que o outro deve estar sentido, ou quando ouvimos alguém falar uma grande besteira sentimos a vergonha que o outro deveria estar sentindo. Do ponto de vista fisiológico é uma reação natural processada pelos nossos neurônios-espelho, do ponto de vista psicológico é uma reação natural da nossa capacidade de alteridade (de nos identificarmos com o outro) e do ponto de vista social/moral é um reflexo natural de nos mantermos socialmente aceitos (e, dado a nossa alteridade, de esperarmos que nossos amigos também sejam aceitos).

Ao ouvir, ou ler, alguma das frases do primeiro parágrafo sendo dita por alguém que conhecemos seria comum sentirmos “vergonha alheia”, é como se nosso cérebro estivesse dizendo “não diga isso pois as pessoas ao seu redor vão perceber que você não tem capacidade intelectual, ou valores morais dignos de respeito”. Muitas pessoas que apresentam quadros depressivos têm como uma das raízes de sua depressão a percepção (real ou imaginária) de que não são respeitadas/aceitas pelos demais (amigos, familiares, ambiente de trabalho). A vergonha está intimamente vinculada a nossa necessidade de reconhecimento e de aceitação pela sociedade.

Ela é, portanto, fundamental para nós, elemento básico para construirmos nossos laços sociais, mantermos amizades, casamentos, relacionamentos familiares etc. Funciona como um filtro do que pensamos (consciente ou inconscientemente)  e daquilo que, de fato, faremos ou falaremos. Resumindo: ela nos indica nossos limites. A liberação da vergonha, a ausência de vergonha, é um perigo social. Valorizarmos as pessoas que “falam o que pensam” é no mínimo duvidoso, pois a ausência de filtros é uma patologia bastante comum em casos graves psiquiátricos, é uma qualidade que costumamos encontrar em neuróticos, histéricos, ou outras pessoas que precisam de ajuda psicológica para voltarem a ser socialmente aceitas. Resumindo, quem fala o que pensa é louco. E aqui, eu não estou desvalorizando a importância da transparência nas relações sociais para gerarmos confiança no outro e também confiarmos nele.

Voltando às frases do primeiro parágrafo, que nos causam aversão ao lermos, foram extraídas de conversas reais ocorridas presencialmente ou em redes sociais, fóruns de discussão na internet ou páginas que distribuem conselhos para todo gosto. Normalmente quem as usa, quando é criticado, diz que está exercendo sua liberdade de expressão, e que quem o critica não aceita outras opiniões, diferentes das próprias. E neste ponto precisamos diferenciar brevemente “opinião” e “valores”. Segundo o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis (2000):

Opinião: Maneira de opinar, modo de ver pessoal; parecer, voto emitido ou manifestado sobre certo assunto.

Valor: Caráter dos seres pelo qual são mais ou menos desejados ou estimados por uma pessoa ou grupo. Ou seja, “opinião” é o modo de ver pessoal, sem qualquer qualidade exterior. Já “valor” tem relação direta com o caráter, com a estima que os grupos sociais têm sobre nós dado nosso caráter. Portanto discordar do teor dos exemplos acima está acima de divergências de opiniões, não é o mesmo que discordar sobre um pênalti no jogo de domingo, se as ciclofaixas são boas para a cidade, se deveríamos flexibilizar leis trabalhistas, se a política econômica tem que ter maior ou menor participação do Estado, ou se é melhor usar salsinha em vez de coentro.

Divergência de opinião é importante para aprendermos continuamente e revisitarmos posições que tínhamos através de novos conhecimentos; divergências de valores, porém, impossibilitam a manutenção de bons relacionamentos. Valores arraigados nas sociedades são utilizados o tempo todo para nos aproximar ou distanciar dos demais. Pedófilos e estupradores são marginalizados dentro de presídios, não são aceitos mesmo dentro de um ambiente em que todos estão marginalizados do restante da sociedade. Não porque eles têm opiniões diferentes dos demais presos sobre a sexualidade, mas porque eles se comportaram de uma forma que não é aceita nos valores deste grupo social. Nos afastarmos de pessoas com valores diferentes dos nossos é comum e o fazemos, inconsciente ou conscientemente, o tempo todo.

Mais uma vez, valores e opiniões são coisas diferentes e divergência de opinião é importante, é a base da democracia. E aqui chego onde queria, trazendo esta discussão para o campo prático e contemporâneo (maio/2020). Estamos vendo constantemente líderes nacionais e cidadãos comuns criticando e tentando destruir nossas democracias com argumentos de que elas se tornaram ineficientes para melhorar nossas vidas. Contudo, ao analisarmos os últimos dois séculos não conseguimos chegar a esta conclusão por meio de dados históricos e científicos. A quantidade de países que adotam a democracia como sistema de governo vem crescendo continuamente desde o século XIX, especialmente após os anos 70 do último século, e aliada à liberdade individual e empresarial, às garantias de direitos básicos humanos e o domínio da ciência na tomada de decisão nos fez evoluir e muito neste período.

Indicadores desta evolução no mundo todo são por exemplo:

  • O aumento: da expectativa de vida; do acesso à saúde; do consumo de calorias diárias por pessoa; da renda per capita; da alfabetização; entre outros.
  • A redução: da mortalidade infantil; da mortalidade de mulheres no parto; das horas trabalhadas semanais por trabalhador; das mortes por fome; da subnutrição; das taxas de homicídio; das mortes por guerra; entre outros. (todos os dados podem ser encontrados em O Novo Iluminismo, Steven Pinker, 2018).

Apesar disto temos visto diariamente ataques às instituições da democracia. Hoje em dia essas agressões não são mais feitas por repentinos golpes de estado, são, sim, executadas cotidianamente, repetidamente, contra três vítimas principais: as instituições jurídicas e legislativas, a imprensa e a ciência. Estes ataques não são divergências de opinião, são invectivas contra valores democráticos e contra valores de pessoas democráticas.

Quando ouvimos e lemos nossos amigos, conhecidos, familiares “opinando” contra conhecimentos científicos, contra os jornais e meios de comunicação profissionais, ou contra o “STF” e “Câmara de deputados” (como se fossem, cada um, um corpo único e que querem o pior de todos sempre) devemos, sim, sentir vergonha, por termos pessoas com estes valores em nosso convívio. E se notarmos que a vontade de encontrar , conversar, se relacionar com estas pessoas diminuiu, isso é normal, não precisamos nos sentir culpados por isto, e mais que normal, isso é bom. Mostra que ainda temos filtros morais. E um possível distanciamento que tenhamos destas pessoas pode ser benéfico inclusive para elas, pois a necessidade de aceitação social é um imperativo psíquico presente em todas as pessoas (psicologicamente saudáveis, é claro), assim a percepção de não aceitação pode ajudá-las a rever seus próprios valores.

Portanto, não sintam vergonha em deixar bem claro para a Tia Zefa do Zap que ela deveria sentir vergonha por apoiar golpes ditatoriais (de esquerda ou de direita), que o Tio João do Treisoitão passa vergonha quando compartilha aquela fake news sobre os laboratórios chineses terem criado o Novo Coronavírus para destruir as economias do EUA e derrubar o Bolsonaro, e que o amigo que você sempre considerou inteligente (e que provavelmente se vê desta forma) não é tão inteligente assim quando diz que a imprensa é toda de esquerda (ou de direita) e que fabrica notícias para prejudicar o Bolsonaro (ou o PT).

E se a vergonha for um sentimento impossível para estas pessoas, questione-se se os valores morais deles e seus são compatíveis. Não sinta vergonha de se afastar, reduzir contatos, de pessoas com valores incompatíveis com os seus, sejam essas pessoas pedófilos, estupradores ou apoiadores de ditaduras.

Guilherme Lie, 20/05/2020

créditos da foto: ‘Smoke trails’ from Jules D. (@varietou)

Leituras recomendadas pelo autor:

O novo iluminismo, Steven Pinker, 2018. Para uma visão global e regional sobre a evolução da nossa sociedade nos últimos dois séculos, graças ao domínio da ciência na tomada de decisão e à democracia.

Como as democracias morrem, Levitsky e Ziblatt, 2018. Para entender de forma resumida as táticas autoritárias atuais e como a ideia de estarmos regredindo socialmente (ao contrário do que mostra Steven Pinker) é usada como arma.

Técnicas da propagando comunista, John Lewis, 1964. Para lembrar que a técnica de acusar (sem provas) um inimigo de criar uma epidemia de saúde foi usada há 70 anos atrás pelos estrategistas comunistas chineses e russos ao acusarem os EUA de criarem vírus e bactérias em laboratório e espalhar na Ásia (qualquer semelhança com a estratégia do Trump e Bolsonaro de acusar a China não é mera coincidência).

As origens da vergonha, Vincent de Gaulejac, 2006. Para entender a importância deste afeto na nossa saúde psicológica e interação social.

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