Sexta crônica: “Crisma”(Aldir Blanc)

Crisma

O buteco é o último reduto das palavras. Entre um copo e outro, em meio às cusparadas na serragem, as palavras ainda tem valor no buteco. Um palavrão dirigido ao goleiro do Vasco ou a mãe de alguém, ainda é uma ofensa. Uma história, mesmo que seja mentirosa (quase todas), tem sabor, ao contrário das declarações de ministros, publicação de faxes e outras desmoralizações. Aviltada por Inocêncios, Sarneys, Fiúzas, Mirandas, pastiches de Jeffersons, simulacros de Andrades; coagida por juristas sempre na contramão do copo e das leis; totalmente avacalhada por pregadores, padres, bispos, profetas, conservadores e revolucionários – a palavra resiste na boca sem dentes, na saliva do bêbado, na anedota e no apelido.

Quero contar a vocês a história de um apelido.

O cara chegou no bar da Maria sem espalhafato, fez um leve aceno de cabeça pro pessoal que é sócio- atleta, pediu uma lourinha e um conhaque. Grisalho, cara de boa-praça, levíssimo tique nervoso no olho esquerdo. No momento em que sentiu alguém falando sobre o jogador Edmundo, e olhando, rápido, pra ele, aquela pontezinha ainda pela metade, devolveu de voleio:

– Se o animal se regenerar lá em São Paulo, pode acontecer outro milagre e a diretoria do Banespa vir a ser formada só por homens honestos…

Aprovado em primeira instância com louvor. Queijinho, limão da casa e outros rituais, tudo certo, mais uma figura para integrar o estranho sindicato de sócios da mesma dor, como no samba-canção.

Um porém: no ar sufocante do verão, pairava um bodum, um bafio, uma atmosfera de jaula de leão. Quando foi embora, Sérgio Touro comentou:

-Não sei se o elemento é corrupto, mas já tem o cheiro.

Desse dia em diante foi barra pesada. Simpático e bem informado, o neobode ia conquistando a galera, mas a catinga era difícil de aturar.

Uma tarde em que o magnífico bloco Nem Muda Nem Sai de Cima ensaiava em frente ao buteco, um baixinho esbarrou no odor. Arregalou os olhos, tomou fôlego e todos nós tivemos uma surpresa:

– Ué, Você por aqui? E a Penha? – Pigarreando muito, olhos como holofotes no campo de concentração do passado recente, a resposta chocou os que estavam por perto:

– Na Penha só se salva a nossa senhora, e não por sua santidade, mas por ter sido inteligente o bastante para ficar no alto da escada…

Meia hora depois, Tupiara disfarçou, deu uns gritos com a bateria e imprensou o baixinho contra o orelhão.  Os leitores sabem que baixinho quando começa a falar não perde nem pra baiano.

– Ele tem um pobrema: não toma banho. Ninguém sabe por causa de quê. Pior que gato. Recebia um Pena Branca muito respeitado no centro espírita Amor e Caridade Emmanuel, na rua conde de Agrolongo, lá onde tem curtume. Morava na Ibiapina e saiu na porrada, não sei direito o motivo, parece que não gostou de um apelido. Eu acho que…

O baixinho sentiu uma espécie de fogo lambendo a nuca, se virou e deu de cara com a fera comendo ele com os olhos. Apavorado saiu correndo pela Maracanã. Tupiara tentou botar panos quentes, mas os gritos do injuriado fizeram a bateria silenciar:

– Eu não sou sujo, tá legal? Eu tenho uma doença. Vivo coberto de talco, perfume, desodorante, o escambau porque não consigo tomar banho. Parece que eu vou morrer na hora. Me dá um negócio subindo, pipocando, como se meu corpo estivesse se dissolvendo  e aí…

Caiu duro. Pintou a solidariedade do buteco, a ultima trincheira da gentileza,. Abana daqui, passa vinagre nos pulsos, levanta a cabeça dele, abaixa a cabeça dele. Célio derramou no cantinho da boca roxa algumas gotas da mistura milagrosa Tertúlia em Niterói. O coitado espirrou várias vezes, teve uma crise de choro e murmurou:

– Um dia o real vai ser tão respeitado quanto o guarani.

Aplausos. Ainda bambo, o convalescente grudou naqueles que o rodeavam uma expressão de crucificado:

– Por favor, gostei de vocês desde o primeiro momento. Eu aguento tudo, menos apelido que mexa com a minha desgraça.

Risos e tapinhas nas costas. Walter Hack deu o tiro de misericórdia e a noite se fechou como um leque.

– Fica relax! Tu é um dos nossos. Dona Maria, traz outro copo aqui pro Redoxon Efervescente!

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