Sexta Crônica: “Origens, genealogias e outras mumunhas” (Aldir Blanc)

Eu estava tomando uma cervejinha com o Mello. Entre um e outro copo, ele caprichava no churrasco, repleto de gestos rituais, sem faltar sequer o tradicional abanador de palha, em minha sala, perto da mesa de sinuca. Escrito assim, parece brincadeira. Só que é verdade. De vez em quando, o Mello aparece com uma pequena churrasqueira, isopor, maracas etc., e ficamos ali, conversando e tostando uma costelinha na brasa, em plena sala do apartamento onde moro, no quarto andar de um prédio discreto situado numa ruazinha tijucana. Podem confirmar com os vizinhos que aturam a fumaça e as risadas. Isso, na melhor das hipóteses: tem noite que degenera em jogatina, bate-boca sobre futebol, violão até altas horas, esses deslizes naturais da convivência pacífica. Numa dessas noites de loucura mansa, Mello perguntou:

 – E o Blanc?

Como me acho meio esquizo, respondi com toda tranquilidade:

– Sei lá. Não tenho visto ultimamente. Acho que vai bem.

– Não é isso, palhaço. Tô falando do teu sobrenome. De onde vem esse Blanc? É francês?

Movido a álcool, comecei a inventar uma história sobre antepassados contrabandistas, naturais de Marselha, especializados em esmeraldas, mas achei a lorota meio parecida com aquela outra do Abi-Ackel e mudei o roteiro:

– Os Blanc eram banqueiros de Lyon que se arruinaram jogando com o dinheiro alheio e fugiram para o Rio pensando que aqui era um desses lugares tipo paraíso fiscal.


Mello não refrescou:

– Teu sobrenome é Blanc ou Calmon de Sá?


Puxa, como é difícil inventar mentirinha inofensiva no Brasil. Já usaram todo o material disponível em escândalos mais cabeludos.

Depois de uma raiovaque de maracujá, Mello resolveu apelar para os préstimos de outro amigo nosso, o Baiano, animador cultural e vendedor de carros. O fato indiscutível do Baiano ser meu amigo íntimo não quer dizer que eu compre um carro na mão dele, está claro? Isso posto, vamos em frente. Baiano apareceu, dias depois, com um nipo-alagoano chamado Kung Bento, detetive particular e estudioso diletante de árvores, ramos, raízes, caules e parasitas genealógicos. Levantaria minhas origens por três garrafas de Underberg. Baixei pra duas, tomamos uma e apertamos as mãos. Passo aos leitores as informações colhidas pelo Bentinho (depois de umas doses, todo Bento vira Bentinho) e checadas com familiares idosos que sempre mantiveram, se me permitem a expressão, a coisa na encolha:

  • Minha tataravó paterna, Jeanne, conhecida no bas-fond parisiense como A Madrinha, era mulher de grande caráter. Tinha família numerosíssima e sustentava todo mundo exercendo a brava atividade de gerente-executiva de um bordel. Sem perder o sorriso, cumpria suas obrigações com charme e eficiência. Em dias de casa cheia, ajudava a segurar a barra, ao lado das meninas, palmeando em alta a tradição do prostíbulo, frequentado por políticos, artistas, bicões – a nata, o creme, o podre de chique da época. Pagava religiosamente as propinas de praxe para a polícia, administradores regionais e quejandos. Tinha orgulho de não fugir do batente, fosse no comando de caixa registradora ou suprindo, sobre os lençóis de linho, a necessidade de exotismo dos fregueses. Em suma: uma cidadã exemplar.
  • As origens de meu avô paterno se perdem numa senzala ao lado da casa-grande de fazendeiros de cacau e usineiros, essa corja, onde meus tataravôs, negros trazidos da África nos tumbeiros, sofreram os horrores da escravidão.
  • O avô materno, português de Póvoa do Varzim, veio sozinho, com nove anos, de navio para os tristes trópicos. Trazia um casaco e um boné. Foi do cais direto para o trabalho, onde carregava enormes sacos de batata para ter direito à sopa e enxerga no fundo de um galpão. Sua família em Portugal era pobre de passar fome e havia história de pescadores de bacalhau perdidos no mar.
  • De minha avó materna, suburbana e sempre muito fechada, foi difícil obter informações seguras, mas o padrasto dela teria adoecido precocemente por lidar, também desde menino, com elevadas temperaturas em fornos, coisas desse tipo.

Agora já sei: quando um desses metidos a bosta me olha com ar superior é porque seus nobres antepassados pegaram doença venérea com minha tataravó, torturaram meus ancestrais no tronco, mandaram minha gente morrer no mar em condições miseráveis etc. Por isso é que os idiotas têm aquele narizinho empinado, pô!

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