Seção “Prosas de batuques e cachaças”: “Memórias póstumas de um homem quase vivo” (por Yuri Moura)

Cheguei em casa decidido: aquele seria o dia do meu eterno repouso. Algum doutor da academia – talvez Sartre – disse certa vez que existir é beber-se sem ter sede. Pois bem, decidi quebrar o copo. Já havia broxado com a vida há algum tempo, me sentia cansado e oco. Cansado dos problemas, das contas, dos banhos quentes, das desgraças, da sensação de barriga cheia depois do almoço, do trabalho e dos orgasmos – mecânicos – como as articulações e a filosofia. Por uns dias andei pensando como seria interessante conseguir me suicidar prendendo a respiração. Tentei – em vão, ora ora – algumas vezes antes de dormir e, após acumular mais esses insucessos, resolvi parar com essa mania de grandeza. Depois alguém me disse, ao me ouvir relatar minha brilhante ideia e meus insucessos, que mesmo que eu conseguisse prender a respiração por muito tempo, eu desmaiaria antes de morrer, e desmaiado, respiraria involuntariamente. Um gênio. Até pouco tempo atrás eu desprezava os suicidas, os considerava piegas, arrogantes. Então me peguei matutando sobre essa questão e uma provocação-cheiro-de-percevejo me assaltou as ideias: será que eu vou muito além da pieguice e da arrogância? Quanto? Como? Não me deixava. Gás de cozinha. Era isso. Abria o gás, enfiava a cabeça lá dentro e ia embora, sem bilhete suicida, sem mania de grandeza nem sangue derramado pelo chão. Antes do empreendimento, resolvi ir ao mercado e fazer um jantar digno. Morrer bem alimentado. Já que ia morrer frustrado e oco, que estivesse preenchido de carne moída de filé com batatinha cozida. Porra. Carne moída de filé mignon, essa ideia de filho da puta nunca teria me ocorrido se não fosse o suicídio. O açougueiro me olhou como se risse quando eu pedi pra moer, é sério? Voltei pra casa com água na boca. Carne moída com batata, cerveja preta e nada de trabalho nos dias seguintes. Chegando em casa, tomei um banho quente bem demorado, daqueles que te deixam mais carinhoso. No final do banho, uma punheta: prestes a gozar, resolvi enfiar o dedo no cu pra ver se era bom mesmo . Um amigo da faculdade tinha falado isso uma vez, mas simplesmente ignorei: ele era viado, já gostava da coisa e eu não, ele ria. Já que tava de partida, fui lá e fiz. Gozei tanto que quase caí, tremendo, escorrendo pela parede do banheiro até o chão do box. Na certa era meu corpo tentando aproveitar as últimas horas antes da pá de cal, querendo me fazer ponderar. Saí do banho, botei uma calça de moletom e uma camisa velha de algodão, dessas que te deixam mais confortável do que quando você está nu. Tava decidido, eu ia morrer gostoso. Liguei o computador e botei pra tocar “O melhor de Rachmaninoff”, mas antes da segunda música resolvi parar com essa mania de grandeza: voltei lá e botei uma playlist de Zeca Baleiro. “Dias vão, dias vem, uns em vão, outros nem …” Abri minha cerveja, acendi um cigarro e fui cortar os temperos. Cebola, alho e pimentão. Acabei de fazer minha comida, abri outra cerveja e fiz meu prato. Delícia, quase resolvi deixar a morte pra outro dia. Mesmo assim comi pouco, não queria morrer empanzinado. Escondi bem no fundo do lixo a bandejinha da carne moída, pra ninguém sair espalhando por aí que o finado era um escroto que comia carne moída de filé. Lavei a louça, acendi um cigarro e me sentei. Parei com mania de grandeza, fui lá e botei Rachmaninoff pra tocar de novo. A terceira cerveja estava no começo. Não deixaria as três cervejas secas, não queria ninguém falando que o finado era um alcoólatra. Essa preocupação com o que falariam de mim mesmo depois de morto fez com que eu me sentisse um pouco mais bosta. Fiquei um tempo pensando que era tão ator ao ponto de ficar ajeitando as coisas para que as pessoas não ficassem falando de mim, mesmo quase morto – o mundo só quer ver minhas tripas penduradas num varal, como um macacão infantil, pois que as aceite de bom grado. Acendi outro cigarro, botei uma água pra ferver e abri as janelas da casa. Passei um café bem forte, tomei sem açúcar mesmo. Já tinha abusado dos prazeres do paladar. Açúcar não. Abri o forno e coloquei uma cadeira em frente. Fui lá e troquei a música, Cambalache: que el mundo fue y será una porqueria, ya lo sé… Liguei o gás no mínimo e arrastei uma cadeira pra frente do forno, mas quando ia me sentar, fui assaltado pela ideia de escrever um bilhete, mania de grandeza. Peguei um guardanapo e deixei minha mensagem. Voltei então ao forno, me sentei e enfiei a cabeça lá dentro. O cheiro de gás estava forte mas não me era desagradável. Rapidamente comecei a me sentir tonto, então veio a asfixia.. Não teve filme da vida passando na cabeça nem memórias da infância. Falta de ar, tontura, um enjôozinho de leve. Desmaiei antes que os pensamentos começassem a incomodar. Tenho pra mim que não foi o gás que me apagou, mas meu corpo, me impedindo de matutar demais: era como se ele já houvesse se resignado com o suicídio e não estivesse mais disposto a discutir a questão com a cabeça. Perdi a consciência.

Como num piscar de olhos, acordei na manhã seguinte, o despertador do celular tocava, os galos berravam e pela rua passava um caminhão tocando Beethoven, em sua belíssima e famigerada “musiquinha do gás”, menos conhecida como Für Elise. Sentei na cadeira, tonto, com dor de cabeça e o gosto de bile na boca, percebi que o gás estava aberto e não havia cheiro algum de gás. Tentei acender uma das bocas do fogão. A porra do gás tinha acabado. O caminhão do gás repetia a sinfonia. Caí da cadeira em uma crise de riso. Ria de forma idiota e exagerada enquanto pensava: Deus é mesmo um sacana. O Deus no qual eu nunca acreditei estava dando provas cabais de sua existência. Aquele caminhão com a musiquinha do gás era demais até pra um ateu. Lembrei do bilhete mas não me recordava do que estava escrito. Lá estava ele, num guardanapo em cima da: “Escrevi, saí morrendo, pau no cu de quem tá lendo”.

Segui meu próprio conselho, servi um pouco de carne moída com arroz, fria mesmo. Comi tomando cerveja preta, quente mesmo. A segunda chamada do despertador interrompeu minha refeição, eu estava meia hora atrasado. Engoli tudo, tomei um banho e fui trabalhar.

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