Seção “Um lero pelas esquinas (entrevista)”: Zé Katimba

(Entrevista realizada por Fernanda Guimarães em 09/05/2009)

“Sou vitorioso, graças a Deus, ao samba e à mulher.”
“Minha primeira escola é a Imperatriz, e a minha segunda escola de paixão é a Portela.”

Na vida, você vale pelo que você tem ou pelo que você é. Eu sou. Não abro mão da minha dignidade, da minha verdade, daquilo que percebo nas pessoas. Eu acredito muito no ser humano, e quero ter vida longa pra continuar acreditando que logo, logo, vai começar uma mudança, vamos ter um mundo melhor, porque a juventude de hoje tem uma oportunidade muito grande. É apertar um botão e falar com o mundo, ter informações, estudar, às vezes a facilidade desvia um pouco, mas também faz parte do ser humano amadurecer. Tenho certeza de que as próximas gerações vão ter um mundo melhor.

Sou um cara de 76 anos com muita garra, disposição e vontade. Tenho certeza de que o tempo que eu durar, até o último instante, terei essa garra, essa vontade de passar informações e, principalmente, de aprender. Minha verdade pode não ser a de outras pessoas, mas cada um tendo informação pode agir à sua maneira. Quero aprender muito com as pessoas – crianças, velhos, adultos, até quem não teve oportunidade de freqüentar uma escola nem nada, às vezes com eles se aprende muito. Tenho essa vontade de realizar, de cantar, de compor, de amar, ser amado, respeitar, ser respeitado. Não abro mão do meu caráter. Acho que isso talvez seja um pouco de sabedoria de Deus.

Não me acho nem carioca nem paraibano, sou um brasileiro. É uma mistura: a Paraíba me deu a vida que tive com os meus pais na infância, o sofrimento, que foi uma base que me ensinou muito. Mesmo miudinho, eu aprendi muito. O Rio de Janeiro, a cidade grande, me deu também dificuldades, exatamente por não saber muita coisa, não ter informações. Hoje eu tenho condições de viver no Rio de Janeiro, em São Paulo, em qualquer estado do Brasil, porque a Paraíba e o Rio de Janeiro me deram essa moral.

O samba e a mulher têm me dado as maiores alegrias da minha vida: através do samba conheci pessoas que me deram filhos, e filhos que fazem samba, que são da música também. Sou uma pessoa muito feliz. Quando fico um pouco triste, vou fazer um samba. Começo a cantarolar e aí a tristeza vai embora, às vezes até aparece um amor. Não sei se eu suportaria as coisas todas que suportei – doença, câncer, disritmia, diabete – se eu trabalhasse em outro ramo. Talvez a atividade mais próxima do meu trabalho seja a Comunicação, também uma coisa divina. No mundo as coisas só mudam através da arte, da comunicação. Acho que só se eu trabalhasse na comunicação, ou até na educação, que infelizmente não é uma profissão reconhecida financeiramente, eu estaria realizado. E a mulher, que é um ser especial, maior, forte – eu sou fã da mulher; é a mulher que me deu tudo. Nas minhas letras não há nenhuma palavra de desafeto à mulher: tudo que eu possa fazer para exaltá-la ainda é menor que a minha dívida. É uma admiração imensa que sinto pela sabedoria, a sensibilidade, a luz da mulher, da recém-nascida à mais velha.

Gosto de lembrar tudo, até das coisas mais difíceis, das coisas mais sofridas. Assim eu vejo como eu consegui sair das situações de uma forma, que hoje poderia ser outra, mas transmito para os meus filhos, ou para as pessoas mais jovens, uma saída alternativa. Acho que as coisas boas são ótimas de lembrar, mas as coisas difíceis, como dividir a água com o gado, a seca, a fome, a desgraça, a escravidão dos senhores donos de terra no Norte e Nordeste, coisas pelas quais eu passei muito miúdo, desde que eu comecei a andar até os 10 anos, quando saí da minha terra, são importantes também. Eu vi muita coisa triste, e ainda existe muita coisa triste por lá: falta de emprego, falta de vergonha, falta de reconhecimento das pessoas, isso tudo é terrível. Mas acho que se eu consegui, junto com as pessoas do bem, como a Nely, minha amiga, a Simone, minha assessora de imprensa, o meu livro, a minha biografia, acho que isso vai ser uma contribuição para a sociedade paraibana, talvez do Brasil, sem pretensão. Precisamos recordar, mas ficar sempre atentos para que as experiências sirvam como lição e não como um sofrimento, criando outro problema que pode nos fazer perder um pouco da sensibilidade para as coisas boas que podem vir. Eu gosto de falar de tudo, eu gosto de ler tudo, de ver, e principalmente sentir.

Meu pai fazia literatura de cordel, então a minha herança musical com certeza é do meu pai. Era para eu fazer forró, mas tive contato com o samba. Descendo o morro para pegar água na lata, carregando a lata d’água na cabeça, feito a Maria – “lá vai Maria…” – a gente, a molecada, ia batucando na lata, cantando samba – esse foi meu primeiro contato e a partir daí nunca mais eu me afastei do samba, nem o samba de mim.

Só fiz um samba que fala da mãe, da mulher, de modo geral. Além da minha mãe, a professora é uma figura que me marcou e me ajudou muito. Era uma menina de 17 anos, que não era professora, não era formada, ensinava numa parede, num pedaço de madeira pendurado na fazenda, em Guarabira. Ela ensinava sem ter muita base, mas foi ali que eu aprendi, a partir dali é que eu comecei a ler, aos 9 anos, mesmo sem entender direito o que estava lendo. Nunca sentei num banco de escola, nunca tive escola nenhuma, nada, nunca tive um professor diante de mim. Essa menina foi muito importante, ela e minha mãe, que me deu a vida, que me gerou.

Minha mãe morreu cedo, morreu rápido, o câncer veio e a levou embora muito rápido. Eu vi a minha mãe… Apodrecer. Foi muito triste, não tinha nenhuma condição de tratar, não tinha o avanço de hoje, nem tinha condições financeiras. Minha mãe morreu no hospital em Laranjeiras, foi operada e não cicatrizou, porque era diabética. Eu era muito… Muito pequeno. Meu pai morreu logo depois da minha mãe, também de câncer. O do meu pai foi no pescoço, o da minha mãe foi no intestino e na coxa. Morreram muito rápido. Não tenho muita lembrança de datas, porque eu fiquei um pouco doente, um pouco maluco. Filho único, perdi as duas famílias, meu pai e minha mãe, e fiquei sozinho, sem nenhuma referência, sem nada. Não foi legal. Venci essa tristeza porque encontrei força, uma luz, que digo que é Deus. É uma luz que me protege, me guia. Consegui uma grana e fiz um tratamento, aí fiquei legal, mas esqueci tudo que eu tinha aprendido, não sabia mais escrever nem ler, e comecei a batalhar tudo de novo. Ainda era um menino.

O amor dos meus pais era imenso. Foi uma coisa muito linda que eu vi, esse amor, o dengo, o chamego, aquele carinho, aquela conquista de todos os dias, todas as horas. Meu pai foi um grande amante e minha mãe também, e se amaram muito.

Quando eles morreram, eu tinha amigos de rua, fui menino de rua. Depois eu fiquei descacetado, dormia no trem, vendia bala, engraxava sapato… Às vezes eu ia para a zona, fiz uma amizade com Pildes Pereira, dona do mangue da Avenida Presidente Vargas, que chegou a ser presidente da escola de samba Vila Isabel. Eu era querido por todos e era o único moleque que entrava lá. Acho que eu tinha uns 12 anos, e limpava os quartos para arrumar mais um dinheiro. Mas eu era muito miudinho – sou pequeno até hoje! Às vezes eu dormia lá e amanhecia com muita dor de cabeça, porque tinha muita creolina. As mulheres tinham relações e se lavavam com água e creolina, enxugavam e iam ter relações de novo. Aquele cheiro era forte, porque eram muitas, e muitos quartos.

Depois eu fui trabalhar com artefatos de couro, na Artefatos de Couro Beija-Flor, na Praça da República, número 46, que não existe mais. Aprendi lá com o Rodolfo, que era o dono, e depois trabalhei em todas as casas de artigo fino. Lancei em 1958 essa bolsa tira-colo, para a Seleção Brasileira – se tivesse registrado estaria trilionário. Trabalhei em todas as casas de artigo fino, na época em que se usava muito couro de crocodilo – eu cortava e emendava sem deixar marca. Foi um período muito legal, mas quando acabava o Natal, acabava o emprego, porque mandavam todo mundo embora. Depois veio o courvin: outros fabricantes compravam aquelas coisas que desenhávamos no artigo fino, desmanchavam e cortavam o courvin. Com isso, uma bolsa que custaria hoje R$ 200,00 a R$ 500,00 eles vendiam por R$ 5,00 a R$ 10,00, do mesmo modelo. Aquilo desempregou muita gente, então eu desgostei e fui cuidar só da música. Eu já fazia música, mas larguei tudo e fui viver só da música, mesmo sem estar gravando. Levei muito tempo, uns dez anos, para gravar minha primeira música. Fui para São Paulo, corri atrás das coisas, ficava de um lado para o outro, até que um dia eu consegui.

Tem duas coisas que eu não lembro muito: de data e de telefone. Mas isso foi há muitos anos. Limpei caixa de gordura, fossa, fiz faxina, lavei carro, fiz o diabo. Teve uma época em que eu tinha vergonha de pedir dinheiro, então eu pedia ficha de telefone, dizendo que era para telefonar para arrumar um emprego, e aí todo mundo dava… Às vezes me davam um dinheiro também. Aí eu chegava na padaria e trocava a ficha de telefone por pão. Mas essa coisa da dificuldade dá uma base de vida, e você não pode desistir, não é? E nem achar que o caminho fácil é melhor, porque você não tem um final feliz – não vai ficar velho para contar a história.

Hoje, então, com a velocidade que a vida tem… Eu lembro que quando eu era garoto, acontecia alguma coisa nos Estados Unidos e levava seis meses, quando andava muito bem levava três, quatro meses, para chegar uma notícia aqui. Hoje a coisa está acontecendo, você vê na hora, tem uma reunião fechada e sai um cara ali, aperta um botão e joga na internet. A coisa ainda está sendo decidida e já está no mundo, todo mundo vendo, todo mundo sabendo daquilo. Então a gente precisa é de união, de acreditar mais no ser humano, porque toda essa coisa da evolução, da internet que é uma coisa fantástica, pode por outro lado ser uma coisa maligna. Mas tem o homem que programa, é o homem que faz, é o homem que decide. Eu acredito no ser humano.

Foi na Imperatriz Leopoldinense que eu gravei a minha primeira música, que era um samba de terreiro. Sou um dos fundadores da Imperatriz, em março de 1959, e ali as coisas foram acontecendo, os sambas foram surgindo, sambas de enredo, sambas de quadra. Um acontecimento marcante foi a novela Bandeira 2, já em 1972, escrita por Dias Gomes e que contava a minha vida, com Grande Otelo no papel de Zé Catimba (nessa época era com “c”) e Jacira Silva no papel da minha mulher. Ela era a porta-bandeira da escola e Grande Otelo era o compositor principal. Depois as coisas foram acontecendo, as portas foram se abrindo e comecei a gravar mais, veio uma parceria com Martinho da Vila que dura até hoje – ele é o meu parceiro mais constante e sou o parceiro mais constante dele. Martinho foi fazendo projetos e lançando nos países que falam a língua portuguesa. Estive em Angola e foi um sucesso – quando eu começava a cantar, as pessoas cantavam junto, porque as músicas já eram tocadas, já eram conhecidas. E isso foi se alastrando pelo mundo, hoje eu tenho a minha obra espalhada no mundo todo, por volta de 800 músicas gravadas por muitas estrelas daqui, do Brasil, e no exterior também.

Lembro da Imperatriz com muita alegria, porque tudo que começa é difícil, mas você vai com todo o gás, cheio de tesão, coloca a sua energia numa coisa que começa pequena, para que ela cresça. Eu deixei a minha vida, a minha mocidade na Imperatriz, porque comecei puxando corda e fui passista, mestre-sala, presidente de ala, empurrador de carro, fiz alegoria, fiz samba… Depois teve a novela, ganhei alguns sambas-enredo, sucessos que deram campeonato à escola. Fui também vice-presidente numa chapa, depois o Luizinho Drummond, que era o presidente, se afastou e fiquei sendo presidente da escola. Então eu fui de fundador a presidente, passando por todas as funções, e isso também é está no livro, é uma história única não pelo mérito, mas pela sorte, o destino. Sou o único sambista que tem essa trajetória: da fundação de uma escola chegar até a presidência, e com o maior número de sambas-enredos ganhos, com toda uma carreira de sucesso, mestre-sala sempre com nota 10, passista reconhecido, presidente da ala de compositores. Sou um vitorioso, graças a Deus.

Continuo apaixonado, até hoje, mas a escola vai crescendo muito e vai mudando. Tudo na vida é assim, se você quer montar um negócio pra ter um lucro pequeno, o risco é pequeno. Se você monta uma empresa para ter muito lucro, você pode ter muito lucro, mas o risco também é muito grande. Com um grande amor, o risco também é muito grande. E a Imperatriz cresceu, ela também tinha muitos problemas e com algumas coisas eu não concordava. Como eu não poderia dar jeito e não queria me indispor com as pessoas, que ainda são meus amigos, eu me afastei um tempo, fiquei de 1999 até 2009 afastado da escola. Inclusive em 2008 eu desfilei na Portela, a convite do Monarco e da Velha Guarda da Portela, saí num carro na Portela, e no ano seguinte fui homenageado pela Imperatriz, na avenida, foi legal. Aí voltei, estou lá, mas a Imperatriz sempre foi um pedaço da minha vida, porque a minha história musical toda está na Imperatriz, a minha história de vida está toda ligada à Imperatriz. E o meu livro é isso, é minha vida, e conta os 50 anos de fundação da Imperatriz. Eu não posso desvincular, é como boca e batom, peixe e mar, não é? Não posso desvincular, porque uma coisa está ligada à outra.

No início, antes da fundação da Imperatriz, era uma coisa muito forte, as pessoas não podiam freqüentar outra escola, era barra-pesada. Mas depois não, já na fundação da Imperatriz, ser parceiro de alguém da Portela, o compositor da Mangueira fazer samba com o da Imperatriz, o do Império Serrano com o do Salgueiro, isso já tinha passado a ser uma coisa quase normal. Só na hora do desfile, cada um vai defendendo a sua bandeira; acabou o desfile, depois de divulgarem o resultado, começa tudo de novo, o que vale mesmo é o samba, a amizade. Até porque, sem união, nada feito. A gente precisa, cada vez mais, de muita união, de muita compreensão, ceder um pouco para tentar melhorar esse mundo.

Também ajudei com um movimento grande de valorização da Leopoldina. As pessoas se orgulhavam de morar em Madureira, da Portela pra cima, se orgulhavam de morar na Tijuca, em Copacabana, no Leblon, em Ipanema, mas na zona da Leopoldina nem pensar. As pessoas tinham vergonha, às vezes negavam que morassem lá. Mas com esse trabalho que eu fiz, político, social e musical, que foi se alastrando pelo mundo, eu fiz com que hoje o pessoal tenha um orgulho muito grande de morar no subúrbio da Leopoldina, porque ela ficou badalada, conhecida, a novela deu um empurrão muito grande, já que era gravada em Ramos. Outro dia eu encontrei com Ângela, mulher de Wilson Moreira, compositor de muito sucesso. Ela me abraçou emocionada, dizendo:

– Você é nosso orgulho, você fez com que o povo da Leopoldina se sentisse orgulhoso de morar na Leopoldina, através do teu trabalho, da tua contribuição.

E eu venho assim, fazendo a minha vida, não sou mais honesto nem mais sincero que ninguém, mas procuro fazer as coisas com verdade. Porque sem verdade não há tesão, não tem garra. É basicamente essa a minha vida.

Um dia eu falava com Martinho da Vila por telefone e ele disse:

– É, meu compadre, o nosso tempo passou.

Antigamente o samba não dava dinheiro, e era feito tudo na base do amor. Quando não tem dinheiro, a coisa fica um pouco mais… Controlada. Mas quando entra o dinheiro, o poder, descamba tudo. Para fazer um samba, ficou mais ou menos assim: dois compositores se juntam e fazem o samba. Aí entra um sujeito para pagar a carne e a bebida, para fazer festa nas comunidades, nos bares, para juntar uma torcida e levar para a quadra. Entra outro para pagar os prospectos e o aluguel dos ônibus; outro que paga o ingresso, a entrada do pessoal na quadra e a cerveja lá dentro. E todo mundo entra na composição. Então hoje é normal você pegar um samba e ter seis, oito compositores, porque aqueles que entram, entram pra aparecer. Quem tem grana, os donos de empresa, que têm uma situação boa, querem aparecer como compositores. Depois largam aquele compositor, quando não ganha mais, e se juntam com outras pessoas. As escolas de samba têm que prestar atenção nisso.

Agora o carnaval passa e uma semana depois você não lembra mais de nada. Do quê que você poderia lembrar? Do samba, porque a escola não é Grêmio Recreativo Escola de Alegoria, não é Grêmio Recreativo Escola de Carnavalesco, nem de Diretoria. É de samba. Grêmio Recreativo Escola de Samba. Então você canta samba de quando você nem era nascida, e você canta o samba inteiro, com alegria, é um samba bonito, porque ele foi feito dessa forma, com amor, com inspiração, com carinho, e foi escolhido pelo povo, pela comunidade. Agora não existe mais isso, exatamente porque o samba que tem mais torcida, mesmo aquele que não é nem legal, ganha. Você entra com um samba teu, você e mais um parceiro, mas você vai cantar e não tem um puxador oficial, você mesmo canta ou um amigo vai ajudar, e na quadra não tem ninguém cantando, a quadra está vazia. Aí chega um outro samba que é uma merda, um samba ruim para cacete, mas tem quinhentas, seiscentas pessoas cantando o samba de trás pra frente, de frente pra trás, numa alegria. Com isso você até fica iludido, achando que é aquilo, e não é. Eu poderia até fazer um samba, com essa idéia de mais uma vez dar a minha contribuição, pelo prestígio que tenho no mundo do samba, de a minha palavra ter eco, e reclamar, poder falar, sabendo até que vou perder, mas reclamar; mostrar, mais uma vez, dar a minha contribuição pra tentar mudar isso. Até faria, mas se fosse apenas para fazer mais um samba, não faria. Se fizesse, seria na Imperatriz.

A Portela é a minha segunda escola. Ali eles me deram carinho, me deram apoio. Não que as outras não tenham dado, mas ali foi que me colocaram no carro, foi que me premiaram, me prestaram homenagem, enfim, tenho grandes recordações, fui tratado com muito carinho, com sinceridade. Minha primeira escola é a Imperatriz, e a minha segunda escola de paixão é a Portela. De portelense, compus com o João Nogueira, com o Monarco, não lembro se cheguei a fazer samba com outro portelense, mas samba-enredo não. Só na Imperatriz e, quando estava afastado, fiz um samba para a Viradouro. Estava me recuperando do câncer e me deu saudade de fazer um samba. Estava afastado da Imperatriz e, como a Viradouro é aqui perto… Moro em Icaraí e a Viradouro é pertinho, em 15 minutos estou na quadra, então foi uma questão de estar perto e matar saudade de fazer um samba-enredo, de escutar um samba.

No samba todo mundo me conhece, em todas as escolas, em qualquer lugar que eu chegue, me tratam bem… Sou considerado. Considero todo mundo também.

Vou agora gravar um CD de que Martinho da Vila vai participar cantando e produzindo, só com músicas minhas e dele, pelo selo do Candongueiro (casa de samba de Niterói), que está começando. Vamos chamar Beth Carvalho e Paulinho da Viola para fazer participações e o disco deve ser gravado em um show de três dias, de sexta a domingo, depois voltaremos para o estúdio, para os ajustes finais. Acho que vai ser um grande acontecimento. Mais uma vez, o samba me coloca numa posição maravilhosa, vou dando minha contribuição ao Candongueiro, que é uma casa de resistência do samba, no Brasil e no mundo. Estou fazendo parte dessa história, inclusive dediquei um capítulo do meu livro ao Candongueiro.

A parceria com o Martinho começou há muitos anos, quando fui assistir a um show dele, que tinha estado doente e ao sair do hospital fez esse show no teatro João Caetano. A gente já se conhecia de jornal, de revista, mas não tínhamos intimidade. A essa altura eu já tinha ganhado dinheiro e jogado o dinheiro fora, por não saber aplicar. Eu estava sem grana e – ironia do destino – cheguei no show e a Russa, ex-mulher de Martinho, me pediu pra ajudá-lo. Naquela época ele era o maior vendedor de disco do país. Eu fui para a casa da Russa no dia seguinte, feliz da vida, porque era fã do Martinho e nunca tinha gravado nada com ele.

Primeiro, ficamos quinze dias em silêncio absoluto, nenhum dos dois falava nada. Depois de duas semanas começamos a trocar palavras e acabamos fazendo um samba, e estamos até hoje. Há bem pouco tempo, em abril, fizemos dois sambas: um em homenagem a Dona Ivone Lara e outro que Simone encomendou para seu próximo disco. Agora vamos fazer esse trabalho, do CD, e tem também um DVD a ser gravado no Morro da Urca, com as estrelas todas que gravam Zé Katimba: Simone, Alcione, Beth Carvalho, Fundo de Quintal, Diogo Nogueira, meu filho Inácio Rios, Almir Guineto, Lecy Brandão, Jair Rodrigues, Elza Soares, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, além dos sambas-enredo pelos puxadores, mestre-sala, porta-bandeira. Isso e o lançamento do livro formam um grande projeto, que vai ser muito legal e deve acontecer, porque tem uma empresa interessada em financiar.

Hoje eu estou aí com o livro na rua, um livro bonito, escrito pelo Fernando Paulino, com um texto maravilhoso e um acabamento que, dentre os de samba, acho que é dos mais bem apresentados. E é uma história boa, uma história única, porque eu, por destino, por sorte, fui construindo uma carreira, uma história interessante. Fui o primeiro compositor de samba a ter um samba em novela, o primeiro a diminuir o tamanho do samba, que tinha 60 a 65 e eu diminuí para 18 a 20 linhas (coisa que depois passou a ser o padrão), fui o primeiro a gravar com uma ala de tamborins dentro do estúdio, enfim.

Tenho um trabalho que é reconhecido no mundo. Isso já é uma coisa boa, pra mim. E eu acho que o meu livro, essa minha biografia, vai dar um suporte maior, vai divulgar esse trabalho, dar a minha contribuição para os próximos sambistas. Não que vá dar dinheiro, pode até dar algum dinheiro, mas não é assim, coisa de fortuna. Vai dar mais prestígio que outra coisa, porque nós vamos lançar nos países que falam a língua portuguesa, o Martinho já faz esse projeto de todo ano lançar disco na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, então a biografia vai me dar um prestígio maior, as pessoas vão conhecer, saber mais da minha vida. Pode abrir outras portas, pode surgir um filme desse livro, pode surgir um documentário, um curta, pode sair um especial para uma novela, enfim… Vamos deixar por conta de Deus.

Se Deus quiser, em breve voltarei para Guarabira, minha terra, para ser homenageado. Quando saí de lá, aos 10 anos, eram umas poucas casinhas, barracos, e hoje já é uma cidade grande, com 60 a 70 mil habitantes. O Governo da Paraíba quer me homenagear, então estamos negociando para colocar o livro, minha biografia, no Ensino Médio. Acho que vai ser uma contribuição para que as pessoas batalhem, nunca desistam, porque as coisas são difíceis, mas valem a pena.

Nunca faço uma música pensando que ela vai ser sucesso, ou que vai me dar dinheiro. Eu basicamente faço as canções pensando numa coisa legal, numa mulher, num amor. Eu vou mais para a sensualidade da mulher, para a grandeza da mulher. Não tem como, enquanto existir um coração batendo num peito, vai existir esse retorno, é certo. Vai sempre bater na cabeça de alguém, porque tanto faz o sem informação nenhuma, sem escola, sem nada, como o intelectual, bem informado, ele tem o mesmo sentimento, não é? Todo mundo tem o mesmo sentimento. O amor, quando atinge, o sujeito fica burro. Quer dizer, ele fica mais sensível, mais aberto e se mostra melhor. Às vezes ele fica naquele pedestal, mas aí quando está amando, se mostra por inteiro. É essa coisa do amor, a força, o poder da mulher.

Eu queria viver de música, eu queria ouvir a minha música tocando no rádio, eu não tinha nem noção se dava muito dinheiro, se dava pouco dinheiro: meu desejo maior era ouvir alguém cantando a minha música, tocando no rádio. É assim até hoje. Se me dá dinheiro ou não… Normalmente dá, não é? Quando a música é gravada por uma estrela, a divisão do dinheiro da venda é igual, porque é dividido por faixa, mas a música que está tocando ganha 10, 12 vezes mais, porque ganha como execução, você tem condições de ser homenageado, de cantar, de se apresentar, enfim… Tem um retorno financeiro maior. Pela quantidade de obra, e pela quantidade de obra no mundo, pelo reconhecimento da obra, eu deveria ser milionário, mas está dando para viver… Sobreviver. Mas eu não estou ligado nisso, estou ligado em fazer uma música de que eu goste. Como tem dado certo, eu fico feliz… Você quer ouvir a mais recente, que eu fiz com Martinho, para encerrar?

Eu já tinha a música. E aí eu fiz uma primeira, e depois… Eu nem escrevo nem sei tocar, nem conheço, não sei uma nota musical. Às vezes eu gravo a melodia; às vezes ela fica gravada na cabeça. Quando ela vem e fica, tenho quase certeza que ela é sucesso. Essa letra é mais uma coisa que a gente diz, não é? A maioria das pessoas, dos apaixonados ou não, às vezes numa transa dizem:

– Minha puta…

Quer dizer, tem o mangue, tem a flor do mangue, tem o lodo, o engodo. A Simone encomendou para o próximo CD e DVD, e meu filho Inácio vai tocar[1]. Em primeira mão pra você:

Eu quero você na minha veia
Porque você é o meu sangue
Desejo ser seu sem engodo,
Ser o vegetal do seu lodo
E você, a flor do meu mangue

Você é uma lua cheia
Que lá no meu céu se descamba
Porém não é só minha musa
Na minha cabeça cafuza
Você é o meu próprio samba

Riqueza da minha rima
O verso da poesia
Gostosa gastronomia
A minha ideologia
E de Olorum, obra-prima

Meu Deus como eu quero você
Eu quero você na minha veia
Porque você é o meu sangue
Desejo ser seu sem engodo,
Ser o vegetal do seu lodo
Você, a flor do meu mangue

Riqueza da minha rima
O verso da poesia
Gostosa gastronomia
A minha ideologia
E de Olorum, obra-prima

Meu Deus como eu quero você…


[1] Na minha veia (Zé Katimba e Martinho da Vila) é a faixa 4 do CD Na veia, lançado por Simone em 2009.

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