Seção “Um lero pelas esquinas (entrevista)”: Monarco

(entrevista realizada por Fernanda Guimarães em 29/01/2010 / foto: Leo Martins / Agência O Globo)

“O meu samba não tem agrotóxico, é um samba tirado do coração”

Meu nome é Hildemar Diniz. O apelido de Monarco veio da minha infância, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, mas era Monaco, sem o “r”. Foi um dia em Nova Iguaçu, um camarada lendo um gibi de super-herói, que tinha uns negócios… Não sei o quê do monaco, aí eu achei gozado e comecei a rir. Aí ele:

– Tá rindo por que, seu monaco?

Aquilo bateu, ficou. Todo mundo vinha, os garotos batiam nas minhas costas: “Monaco!”, pegou. Meu irmão me chamava de Naco, mas depois, em Oswaldo Cruz, entrou o “r” e me tornei Monarco.

Nasci em Cavalcante, fui para Nova Iguaçu bem menino e fiquei lá até os 12 anos de idade. Depois vim morar em Oswaldo Cruz. Em Nova Iguaçu eu já fazia umas brincadeirinhas, umas paródiazinhas sobre samba, de brincadeira, com os meus colegas… Mas bobagem, coisas mal-acabadas.

Creio que essa parte da rima eu devo ter herdado do meu velho pai, que fazia versos. Era mineiro de Ubá e tinha o dom de fazer poesias, com rimas ricas. Algumas chegaram a ser publicadas no Jornal das Moças, que na verdade era uma revista, não um jornal. Ficava ali perto da Praça Mauá, as pessoas mandavam e a revista peneirava e publicava, e colocaram até um retrato dele junto. Então a parte poética eu herdei do meu velho pai, e em menino já fazia, de brincadeira.

Depois fui morar em Oswaldo Cruz e as coisas se encaixaram melhor, porque ali pertinho tinha a Portela. Eu já ouvia falar de Oswaldo Cruz através do samba do Noel Rosa, da Aracy de Almeida, já rolava alguma coisa com o nome do Paulo da Portela, então, quando eu cheguei em Oswaldo Cruz, eu me senti, assim, como se tivesse chegado… Num lugar certo. Aí eu fui me aperfeiçoando ali, menino, mas tinha que me aperfeiçoar mais, vendo aqueles bambas fazendo aquelas coisas lindas, na roda, cantando, então eu ficava de longe, olhando, sonhando, armazenando na minha cabeça o desejo de um dia fazer um samba para a Portela. Isso veio acontecer aos meus 17 anos, quando fiz o meu primeiro samba, e fui aprovado pelos bam-bam-bãs, que disseram:

– Esse garoto aí, vamos aproveitar, nós temos que aproveitar essa garotada… Esse aí… Tá bom, canta de novo. Ó, tá vendo, que coisa bonita?

Eu vi, em 1950, a Portela desfilando na cidade com um samba meu, Retumbante vitória, um samba-exaltação a ela. Aquilo pra mim foi uma alegria muito grande, eu ficar atrás de um poste assim, vendo as baianas rodando e cantando meu samba na Praça Onze. Dali é que as coisas foram começando, aí eu fui me tornando parceiro daqueles antigos… Aqueles grandes sambistas dali, grandes compositores, foram me dando primeiras partes pra botar a segunda, eu botava direitinho, fui me tornando parceiro dos que eu olhava assim de longe, e admirava, então o sonho foi virando realidade e, graças a Deus, se hoje eu tenho alguma coisa, na vida artística, o meu aprendizado foi com eles.

Devo muito à Portela, porque foi nela que eu iniciei meus primeiros passos, e… Em 1970, quando formaram a Velha Guarda, eu era bem novo ainda, tinha 37 anos… Inclusive um jornal publicou uma vez: “Monarco, o mais jovem dos patriarcas”. Isso causou até polêmica, teve gente que questionou:

– Mas o Monarco, aí?

E alguém defendia:

– Não, mas ele sempre gostou de compor com os mais velhos, as coisas que ele faz são boas, deixa ele aí com a gente.

O Paulinho da Viola fez aquele disco Passado de Glória e escolheram um samba meu, e o samba inclusive deu nome ao disco. O nome do meu samba era Passado de Glória, o do disco era Portela, Passado de Glória:

Portela, eu às vezes meditando
Acabo até chorando
E não posso me lembrar
Teu livro tem
Tanta página bela
Se eu for falar da Portela
Hoje não vou terminar

A Mangueira é de Cartola, velhos tempos de apogeu
O Estácio de Ismael, dizendo que o samba era seu
Em Oswaldo Cruz
Bem perto de Madureira
Todos só falavam Paulo Benjamim de Oliveira…

Esse samba foi o que entrou no disco… Então, a Velha Guarda se agrupou aí, a partir de 1970, e foi formado um grupo Velha Guarda. Porque a velha guarda do samba sempre existiu, os mais velhos já eram chamados pela gente de “velha guarda”. Quando passava um velho, como Seu Antonio Caetano ou Seu Antonio Rufino, que foram fundadores da escola:

– Ih, ó lá, aquele é da velha guarda, aquele é velha guarda…

Mas o grupo musical não existia. A Portela foi uma das primeiras, depois todas as outras escolas copiaram, no que fizeram muito bem, porque a Velha Guarda é sentinela de tudo. É na Velha Guarda que você ainda ouve um samba que era cantado na comunidade, sem ser sucesso de rádio nem nada, mas uma coisa pura… Inclusive o sonho do Paulinho era registrar essas coisas, que estavam se perdendo, muita coisa bonita estava morrendo com os autores. Ele, preocupado com isso, fez esse disco, pra poder registrar essas coisas bonitas, que se faziam espontaneamente, sem pensar em gravar, sem pensar em sucesso, sem pensar em nada, em levantar a galera. Nada disso. Fazia-se com o coração, cantava-se na comunidade e, depois, por ali mesmo morria… Então o sonho do Paulinho era registrar aquelas coisas do Paulo da Portela, do Heitor dos Prazeres, do Manacéa…

Dizia Juarez Barroso, um jornalista que já faleceu: “os sacerdotes do samba de Oswaldo Cruz, que estão vigilantes, contra os perigosos desvios”, e não sei o quê, e tal. Ele gostava de falar isso. Eu achava bonito, essas palavras. Apesar de que já desviaram muita coisa aí… É o poder do vil metal, se rouba muita coisa. Mas o papel da Velha Guarda é um papel bonito, de manter acesa essa chama. Desse samba que não é cantado no rádio, é cantando por aí, mas são coisas lindíssimas, que eram feitas lá por aqueles compositores, pessoas modestas, mas que eles tiravam do coração aquelas coisas bonitas… Que muitas até foram para o disco, aí, se comportaram maravilhosamente bem e hoje até virou sucesso por aí. É uma coisa bonita, ela sair dali pra ir pro estrelato. Não é vir de lá de fora pra dentro. Não, não, não. É bonito ela sair dali e as pessoas depois ouvirem:

– Ih, esse samba é lá da Portela, aí, foi gravado pelo Paulinho da Viola, o Zeca Pagodinho tá cantando no rádio.

Mas saiu dali, do ventre da Portela. Não é pegar as coisas lá do rádio, que já são de outra cultura, e trazer pra dentro do nosso, que é onde a nossa cultura já é de raiz, ali, de nascença. Teve uma época em que andaram deturpando muita coisa, teve diretores lá chamando pessoas do rádio pra fazer samba na Portela. Eles não vão fazer igual ao sambista, o humilde ali. De maneira nenhuma, não vão fazer igual! Podem fazer coisas lindíssimas aqui, no universo deles, que nós também não vamos fazer, compreendeu? Mas eles não vão fazer igual a um compositor ali que pouco freqüentou bancos escolares, mas que tem aquela linha, que parece que é uma dádiva divina, ajudada por Deus. Fazer aquelas coisas lindíssimas, que muitas até vieram pro disco, se tornaram sucesso… Você vê o Passarinho[1]:

Quero viver como um passarinho
Cantar, voar sem direção
Quando quiser construir o ninho
Hei de encontrar um coração

Por enquanto eu quero viver
Com toda a liberdade
Cantando aqui
Pousando ali
Essa é a minha vontade

Uma coisa pura, do compositor dali do nosso meio, compreendeu? Que, como eu acabei de dizer, pouco freqüentou bancos escolares, mas tem… Uma coisa própria, sei lá… Cartola, que pouco estudou, pra fazer “as rosas não falam, simplesmente exalam” – olha que rima rica – “o perfume que roubam de ti”, uma coisa linda. Isso aí é a vantagem que o pessoal do morro teve, a ponto de ser reverenciado, idolatrado, pelo povo, que quis correr para a Praça Onze pra ver essa gente humilde, modesta, desfilar, cantando aquele samba tirado do coração.

Foram surgindo as escolas de samba, encantando a cidade, encantando os olhos do povo, tornando-se uma alegria de graça, sem precisar pagar nada. Naquela época, as pessoas se acotovelavam pra ver as escolas de samba passar, era a alegria do povo, e hoje está aí também, muito embora hoje seja um espetáculo riquíssimo, mas está aí uma festa mundialmente falada, que o carnaval brasileiro não tem igual, os hotéis já começam a superlotar, os barracões cheios de pessoas trabalhando…

Essa é a escola de samba que foi perseguida pela polícia. Eu, garoto, eu ouvia os velhos falar, eu nem cheguei a pegar. Quando eu cheguei na Portela em 1946 as coisas já estavam se acomodando, o Pedro Ernesto já tinha dado subvenção, parece que foi o primeiro Prefeito a dar. As escolas já passaram a ter uma subvenção, uma ajuda, mas que não era grande. Faziam do bolso, pagavam do bolso, aquelas pessoas trabalhadoras, que trabalhavam a semana toda e, quando chegava domingo, o lazer era uma rodada de samba. E a polícia chegava, dissolvia aquilo, a porradas e tudo, e metia dentro do camburão, porque aquilo era negócio de vagabundo.

– Eu vou ali e voltar, se encontrar essa vagabundagem aqui, essa bagunça, já sabe como é que vai ser!

Não era bagunça nenhuma, estavam assim, cantando e brincando, batucando ali, e as moças sambando, aquela coisa toda. Então, eles achavam que aquilo era coisa de vagabundo. Aí a sociedade, as autoridades, começaram a acordar, vendo que aquilo era uma cultura popular, bonita, que não dava nem despesa, uma coisa pura, começaram a chegar ali perto para pesquisar, pra ver de perto, como na Portela teve o Edison Carneiro, que era o irmão do senador, que era… Folclorista, e foi lá para a Portela. Eu era menino quando Natal mandou buscar o cavaquinho:

– Tem um doutor, aí, que vai vim, aí…

Fazer não sei o quê, não me lembro.

– Tá bem.

Até quem foi junto com ele foi o Lan, o cartunista, que passou em várias escolas, mas quando chegou ali, escolheu a Portela, pela disciplina que ele encontrou lá, pela maneira como foram recebidos. Ele tinha passado no Salgueiro, já tinha passado na Mangueira, ali ele escolheu:

– Não, eu gostei daqui, vou ser Portela.

Aí escolheu a Portela. O Lan é nosso convidado, da Velha Guarda: sai todo ano com a gente. Então a escola de samba passou a ter um “GRES” na frente, Grêmio Recreativo Escola de Samba. Passou a ser um grêmio recreativo, com isso as pessoas já começam a ver no fundo do túnel uma luz:

– Pô, isso aqui é bonito…

O gringo nem tem isso, não tem. Veio uma duquesa da Inglaterra. Quando chegaram aqui, o Itamaraty queria dar balé pra ela, e não sei mais o quê, mas ela disse:

– Não, não quero isso. Eu queria que vocês me trouxessem –

Aí o intérprete:

– Ela quer samba! A gringa quer samba, ela quer sair no samba!

E tiveram que levar a escola de samba lá, a Portela foi lá. O Itamaraty era aqui no Centro, na rua larga, agora é um prédio pequeninho, ainda está lá até hoje. Foi ali que a nêga Pelé sambou, lá, o pessoal sambou para a gringa. Pra você ver o que o nosso samba faz!

E o papel da Velha Guarda é esse, é manter acesa essa chama desse samba humilde, o samba ingênuo, que não é comercial, não é nada disso, não pensa em comercial, nem fazer pra vender. A pessoa tira de dentro do coração… Tem alguma desilusão amorosa, ou uma coisa que ele viu, ali, acontecer, como se fosse um repórter da noite. O Geraldo Pereira:

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso…

Isso Geraldo viu acontecer mesmo, o camarada chegar com uma mulher no baile e ela se engraçar com o outro cara, só dançava com o cara, e o cara:

– Porra, o que é que há? Vamo dançar…

– Não, peraí, peraí, deixa eu dançar com ele aqui..

– Pô!

– Mas é sem compromisso…

E quando parava pedia bis:

– Mais uma vez!

Aí o cara, pô, perdeu, ela pediu… Aí o Geraldo, no dia seguinte, fez esse samba, uma coisa bonita, verdadeira. Então o papel da velha guarda é manter acesa essa chama. Com velha guarda você não vê correr de escola em escola. Dificilmente você vê um velha guarda sair da Portela pra ir para a Mangueira, ou da Mangueira para a Portela, como acontece com os puxadores, mestre-sala e porta-bandeira, que trocam de camisa, de escola, não têm aquele amor que tem um velha guarda, de terninho, direitinho… Aquela disciplina, todos bem vestidos. Na escola de samba, a Diretoria tem respeito por eles, que sabe que eles ali representam os que começaram tudo, não é? Os coroas da antiga aí que, muitos correram de polícia, e tudo, pra hoje a escola de samba estar aí. Portela é uma, Mangueira é outra, as outras não chegaram a pegar isso, pegaram já o filé mignon, mas a Portela já teve ocasião de eles cantarem lá, o tintureiro – a viatura – chegar e:

– Quem é que tá cantando samba? Entra aqui, um por um…

O Alvaiade, por exemplo, correu. Alvaiade era um escurinho de cabelo esticado, Alvaiade correu e aí disseram para ele:

– Ih, Alvaiade, tão procurando um crioulinho de cabelo esticado!

Ele aí raspou a cabeça, para confundir… Tudo isso aconteceu na Portela. Teve outra vez que o Cartola foi reclamar que Mangueira não tinha desfilado, porque o delegado tinha mandado arrancar as bandeirinhas todas, que depois de meia-noite acabava tudo. Carnaval era até meia-noite, hoje vai até de manhã, mas na Praça Onze, tudo embandeirado…

– Acaba com isso! Arranca aquelas ali!

Foram arrancando as bandeirinhas, aí Cartola foi reclamar com o delegado de polícia:

– Mas a Mangueira ainda não desfilou…

E rasgaram a roupa do Cartola, ele saiu triste… Tudo isso contado pelo Carlos Cachaça, um velho que morreu com uma dignidade, aos 97 anos, com um passado limpo, com uma conduta, idolatrado até por Carlos Drummond de Andrade, que disse uma vez que gostaria de fazer um verso que fez o Carlos Cachaça. Heitor Villa-Lobos! Idolatrava essa gente, a Carlos, a Cartola, Paulo da Portela… Algum valor tem que ter, não é? Senão, não ia ter Villa-Lobos idolatrando.

Veio um maestro polonês, não sei quem, sei que era polonês, que veio fazer um disco no Brasil de folclore, teve chorinho, teve samba, o samba foi o do Cartola, Quem me vê sorrindo, dele e do Carlos Cachaça. Eles gravaram num navio uruguaio, em 1940, por indicação do Villa-Lobos. Ele morava aqui na Graça Aranha e em 1947 eu trabalhava aqui atrás, na ABI – Associação Brasileira de Imprensa. Villa-Lobos jogava bilhar francês ali, um jogo de carambola, sem caçapa, numa mesa, e eu escovava a mesa. Ele tinha o taco dele guardado lá. Todo dia ele estava lá, Nássara também não saía dali, o Barão de Itararé, Aparício Torelly, que é o homem do “entre sem bater”… Essa história é boa: a polícia entrava empastelando o jornal comunista, ali perto da Praça Tiradentes, numa ruazinha que tinha ali. Era o Tribuna Popular, parece, do Pedro Motta Lima, de uma família de comunistas, que a polícia perseguia, e o Barão de Itararé pôs isso: “entre sem bater”. Compreendeu? Mas era sem bater, sem dar porrada. Hoje você vê em consultório médico, mas aquilo era pra não bater mesmo, que eles andavam acabando com tudo.

O Barão de Itararé andava com a perna meio presa, parrudão, gostava muito de ler. Ele sentava, ficava lendo, não jogava sinuca, nem ia lá perto da sinuca, só ficava lá na parte do jornal. A ABI era alegre. Eu conheci ali pessoas… O Abdias do Nascimento, que é um líder negro, não saía de lá, Austregésilo de Athayde, que foi presidente da Academia Brasileira de Letras. Eram pessoas que depois é que eu fui vendo que eram homens importantes, quando eu era garoto não sabia da importância deles. O pai do Collor, Arnon de Mello, gordinho, baixo, Governador de Alagoas; Vivaldo Palma Lima, falei isso em Alagoas um dia desses, e um sujeito falou:

– Ih, tem um estádio ali, Monarco, o Vivaldão, é em homenagem ao velhinhozinho…

Raul Pederneiras, era do Jornal do Brasil… Pessoas importantíssimas do nosso jornalismo. Eu, garoto, não sabia onde estava entrando. O Villa-Lobos, para mim, era um homem qualquer, depois é que eu fui entender, tem gente que não acredita, mas estava lá na ABI, eu levo lá no décimo andar, e aponto:

– É essa mesa aqui, ó.

Tinha uma mesa de sinuca aqui, o bilhar francês no meio, e outra mesa de sinuca aqui; a dele ficava no meio… Charuto, cansei de buscar charuto pra ele, Havana, do bom, contava baralho pra eles jogarem pôquer ou buraco, sei lá, aqui no Jóquei Clube. Teve um jornalista que disse:

– Olha, eu vou te ensinar um truque pra tu ganhar um dinheiro: tu compra esse baralho, vai no Jóquei Clube….

Que ali eles jogavam uma vez só, e trocavam de baralho, ficava aquele baralho novinho. Aí, custava oito pratas, eles me davam dez, eu ficava com dois mil réis, uma coisa lícita. Eles mesmos falavam pra mim, mandavam comprar:

– Não compra, não! Vai lá no Jóquei Clube, você ainda vai ganhar duas pratas.

Aí eu ganhava, comprava três baralhos e ganhava seis mil réis… Seis mil réis é muito dinheiro, o bonde era duzentos réis, por aí, ainda me sobrava um dinheirinho pra almoçar e jantar, às vezes ainda levar um pãozinho pra ajudar a minha velhinha.

Então aí, voltando à escola de samba: o papel da Velha Guarda é esse: é um papel honesto, sincero, de manter a tradição da escola. Foram eles que começaram tudo na época da maré braba, quando ninguém queria saber de escola de samba. Hoje, você vê a escola de samba, todo mundo querendo aparecer… Mas antigamente, se namorasse uma moça e fosse de escola de samba, o pai já entrava:

– Cuidado, hein? Esse cara anda metido em escola de samba…

Então a escola de samba, pra eles, era uma coisa do mal. Você cantava um samba, no meio da gozação, samba de morro:

– Ih, esse cara anda metido com negócio de samba, cuidado!

Tocador de cavaquinho, essas coisas, não tinha. O samba sofreu muito. Hoje é o patrimônio cultural do nosso país, mas a gente sofreu horrores. Estou feliz, hoje eu tenho um certo reconhecimento, já me chamam pra fazer show em Alagoas, agora vim de São Luiz, me chamam para Fortaleza, aí para fora… Já estou com 76 anos. A caminhada foi longa, mas estão me dando um reconhecimento. Não sei se é pela minha obra que tem aí… Porque eles escutam o meu samba, mas não sabem que é meu. Quando eu canto:

– Mas isso é dele? Isso também é dele? Isso também é dele?! Pô!

Aí passam a acreditar mais no taco, porque tudo precisa de qualidade. Não adianta, o camarada compra este copo aqui:

– Ah, ele pagou 50 merréis naquele copo, pra quê? Esse foi cinco mil réis, quase a mesma coisa!

Depois quando ele vai pegar o copo… Opa! Quebrou todinho. Alguma coisa tem aquele, é a qualidade. O meu samba não tem agrotóxico, é um samba tirado do coração, e eu me preocupo, ao compor. Vulgarizar a minha obra, não gosto; ir pro modismo, também não vamos, a nossa Velha Guarda se preocupa em manter a nossa linha. Cantamos as coisas de nossos ancestrais. Coisas lindíssimas que ficaram. E deixa quem quiser falar! Deixa quem quiser falar. A rádio não quer tocar? A gente canta na esquina! Traz os pandeiros, o violão, vamos ali para a esquina e começamos a cantar, a brincar, daqui a pouco está todo mundo brincando. Às vezes o rádio faz sucesso numa mentira, mas tem um prazo de validade, que de repente você procura – e quedê? E o nosso está aí. Eu faço show aí, canto samba de 1930, 1940, Paulo da Portela:

Serei teu ioiô
Tu serás minha Iaiá…

Isso é de 1932.

Quitandeiro
Leva cheiro e tomate
Na casa do Chocolate
Que hoje vai ter macarrão

Isso também o Paulo fez idolatrando um amigo que pediu a ele pra levar uma turma lá pra fazer uma roda de samba na casa dele, e ele fez isso como reverência, como brincadeira, para chegar lá cantando isso. É uma coisa verdadeira, uma coisa bonita:

Prepara a barriga macacada
Que a bóia tá enfezada…
Chega só trinta litros de uca
Pra fechar a butuca
Desses negro beberrão…

Coisas assim, feitas com o coração. Então o nosso samba, graças a Deus, está aí, não é? Está no caminho dele, e está bom.

Os discos da Velha Guarda da Portela? Todos os dois, o disco de 1970 e o de 2000, são bons. O Paulinho teve o cuidado na garimpagem, de gravar aquelas coisas bem antigas. O Paulinho é um… cabeça. Ele ouviu e escolheu, ele mesmo escolheu o repertório, e todos os compositores cantaram no disco: Alcides, João da Gente, que já se foram, Ventura, que foi o primeiro responsável pela Velha Guarda, que dizia:

– Olha, vamos, mas é com o blusão de bolinha, hein?

Depois do Ventura, passou para a mão do Manacéa, do Manacéa passou para a minha mão. Eles foram se indo… Foi o Alvaiade, que foi o diretor de harmonia da Portela, Alcides, João da Gente, Ventura, Alberto Lonato, todos já se foram… Vicentina, que era a única pastora nossa, papai do céu levou. Então, está difícil, o grupo musical da Velha Guarda está diminuindo, nós perdemos agora cinco baluartes. Perdemos a Doca, perdemos o Casemiro da Cuíca, perdemos Jair do Cavaquinho, perdemos Argemiro Patrocínio… E Casquinha está no estaleiro, Cabelinho está no estaleiro, Eunice está no estaleiro. Então nós estamos aí com 10 pessoas. Botar no lugar, nós só podemos botar pessoas que tenham um passado glorioso, não é qualquer um. A renovação é difícil. Era mais fácil antigamente. Porque agora estão morrendo as pessoas, e a gente tem que ter cuidado com os que estão lá, porque o camarada não pode chegar lá pra cantar coisa que não tem nada a ver com a gente. Vai descaracterizar, e nós temos uma identidade, tem que estar com muito cuidado. Para não chegar amanhã:

– Pô, mas isso é que é a Velha Guarda? Poxa!

Nós cantamos aquilo que a gente sente que deve cantar, que faz bem à gente. Quando chega alguém querendo mudar, a gente fala logo:

– Não, num vai cantar isso aqui não. Aqui não. Canta pra lá.

Então não se mistura com a gente, não pode se misturar.

Mulher ingrata? Ah, sim, tem muita mulher ingrata nos sambas da Velha Guarda.Tem, mas como tem. Não é tudo real. A gente inventa bastante. Tem coisa que é história. Algumas coisas são verídicas, mas a maioria também é história, porque muita coisa a gente faz, assim, que não aconteceu. Ou se retrata, às vezes uma pessoa também está passando por aquilo, você faz como se estivesse acontecendo contigo, compreendeu? Então a gente tem que estar sempre criando, realmente. E são mais as desilusões amorosas… O Juarez Barroso falava isso:

– Monarco é gozado: a mulher vai embora, ele faz um samba; vem outra, ele enaltece a chegada daquele novo amor.

E… Então eu gosto de falar essas coisas, que o samba é lamento, a gente lamenta, tem aquela dor de cotovelo. Também de enaltecer a Portela. A gente inventa, tem que criar, com organização, direitinho, para que as pessoas gostem. A gente fazia aquilo para poder cantar e as pessoas gostarem, e a gente levar aquilo à frente. E o samba, quando é bom, a música quando é boa, ela vai caminhando sozinha, um escuta aqui, fala pro outro ali, fala pro outro ali, o outro fala pro outro lá, quando vê:

– Pô, como é aquele samba que tu cantou? Me falaram que tu tava com um samba bonito, canta… Ih, rapaz, que bonito!

Então é assim, o artista, alguém fala, ele aí já quer ouvir, aí você passa pro artista, o artista gostou, canta, vai pro disco. É um processo bonito, vai pro disco, se comporta bem ali, vai pro ouvido das pessoas, que aprendem. E às vezes mexe com a sensibilidade de uma pessoa que está passando por aquilo, eu às vezes estou parado aí na cidade, e alguém diz:

– Poxa, Monarco, a tua música, eu vou te dizer uma coisa. Você tem um samba que parece que você fez pra mim…

Eu digo:

– Ah, muito obrigado!

A gente tem o cuidado, de fazer direito, fazer… A melodia forte… Num momento inspirado, quando dá sorte de vir uma inspiração, nascer, é muito bom, muito gratificante, você fazer um samba e mostrar pra uma pessoa, e aquela pessoa gostar:

– Pô, gostei, tá bonito, hein?

E aquilo vai andando, vai andando, e quando vê… Aí você começa a cantar, as pessoas vão aprendendo, aí chega até no disco, vira sucesso nacional. Já aconteceu comigo, de músicas minhas serem tocadas, assim. Antes a gente fazia lá na Portela, fazia por ali, guardava por ali mesmo. Quando o samba começou a ter uma vêzinha, uma colher de chá, aí eu comecei a meter a mão no baú, tirando aquelas coisas. Que a música não envelhece. Uma música, quando é bonita, ela não envelhece. Você pondo uma roupagem nela assim, um jeitinho ali, bota um arranjozinho aqui, e ela vai pro disco de novo e ela continua a ser aceita pelos ouvidos, pelas pessoas, e assim sucessivamente. Que a música é uma coisa bonita. É divina, não é? E o lamento nosso, a queixa, é através de um samba:

Perdi meu grande amor
Não sei o que será de mim

Quando é aquela coisa que a gente faz, se lamentando…

Numa estrada dessa vida
Eu te conheci, oh flor
Vinhas tão desiludida
Mal-sucedida
Por um falso amor
Dei afeto e carinho
Como retribuição
Procuraste um outro ninho

Em desalinho
Ficou meu coração
Meu peito é só paixão
Meu peito agora é só paixão…

Essa eu fiz com Ratinho. Isso aí, o que é? O camarada encontra uma criatura tristonha, da vida, ele pega, ajeita, dá tudo, apoio, e ela amanhã se vai com outro, e aquele fica triste, diz:

– Poxa, chegou aí, num tinha nada, eu fiz, eu pus lá…

Aí ele se queixa, através do samba. Ah, isso aí acontece muito, na vida da gente. Como também às vezes uma ingratidão da parte nossa, também, acontece. Depois cai e lamenta:

– Eu não devia ter feito assim, ela num merecia!

Aí… Tem uma canção que eu gosto muito:

Se Deus um dia olhasse a Terra
E visse o meu estado
Na certa compreenderia
O meu trilhar desesperado[2]

As coisas bonitas que foram feitas pelo pessoal do rádio, aquelas canções, aqueles sambas-canção que Orlando Silva cantava, daquela turma boa que tinha aí, Mário Lago, Custódio Mesquita, sem falar nos bem antigos mesmo, de lá de trás, Cândido das Neves, que minha mãe cantava aquelas coisas. Eu ficava assim, vendo minha mãe cantar aquilo, lavando roupa, tadinha, ali, cantando:

Eu ontem rasguei teu retrato
Ajoelhado aos pés de outra mulher

Achava aquilo bonito…

Eu sei também ser ingrato
Meu coração também já não te quer
Eu ontem rasguei o teu retrato
Ajoelhado aos pés de outra mulher

Eu achava aquilo bonito. E uma vez papai quis bater nela, porque ela cantou, até fui saber mais tarde que era do Custódio Mesquita, mamãe estava sofrendo muito com meu velho pai, que Deus ilumine os dois onde eles estiverem. Aí ela cantou… Porque a mulher, também, não é mole, quando ela quer machucar o coração, com o jeitinho dela… Ela está sofrendo daqui, mas quando chega a vez de ela espezinhar o homem… Hahn! Para mulher não tem malandro, não tem nada disso, não. Aí mamãe cantou lá no tanque de roupa, e ele estava lá na plaina dele fazendo a marcenaria dele. No que ele escutou, ele parou tudo, quis bater nela, que ela cantou…

Junte tudo que é teu
Teu amor, teus trapinhos

Teus trapinhos, olha!

Junte tudo que é teu
E saia do meu caminho
La lá la la

Aí…

– Pô, você tá cantando isso pra quem? Cê tá cantando isso pra mim!

– Não… José, tô cantando porque toca no rádio!

Mentira! Ela estava cantando era pra ele mesmo, mas aproveitou o ensejo. E ele ficou agoniado, quis bater nela e tudo, eu era pequeno, ela contava pra gente depois. Ela cantou isso, mas ela cantou pra alfinetar. A mulher sabe machucar.

Às vezes um tem uma desilusão com a escola, mas o sambista é democrático. O samba tem um negócio muito bonito. Zé Katimba? É meu amigo, saiu com a gente num carro. O sambista de uma escola se dá com o sambista de outra, aí quando chega um momento desses, às vezes uma escola acolhe mesmo outra. Chegou:

– Ah, sofri uma desilusão lá, tô chateado..

– Fica aqui com a gente, rapaz. Cê quer sair com a gente?

Então é como se fosse uma guarida, num momento difícil, um ombro amigo, uma coisa qualquer.

– Fica aqui com a gente.

Aí ele pegou e disse: – Ah, Monarco, eu aceito sim, eu vou sair com vocês.

Depois voltou à Imperatriz Leopoldinense. Eu falei mesmo pra ele:

– Katimba, fica à tua vontade. As portas aqui estão abertas, mas se você quiser voltar pra tua casa, volta que aquilo ali é teu também. Cê tem um quinhão ali, de luta, já é da fundação, esquece algumas coisas, faz vista grossa pra alguma coisa e volta novamente.

E ele voltou, diz o ditado, “o bom filho à casa torna”. Voltou, mas ele encontrou na Portela um apoio num momento difícil da vida dele, compreendeu? Como outros foram para a Mangueira, muitos mangueirenses foram para a Portela. Por uma questão, às vezes, de se aborrecer, de não aceitar certas coisas. Mas não é atrás de dinheiro, não tem passe. É por uma questão de aborrecimento. E aí, depois ele aparece na cidade, com uma roupa daquela outra escola, alguém vê e vai dizer lá:

– Poxa, fulano saiu na Portela..

Então, na volta dele, já foi recebido com mais respeito. Ele reclamava muito da Imperatriz, que estavam tratando ele mal lá. Aí eu peguei e ofereci apoio. A Beth Carvalho, quando aconteceu aquele negócio do carro, que o camarada expulsou ela no desfile da Mangueira, eu lá no barracão falei com o presidente. E o presidente:

– Você tem o telefone da Beth aí, Monarco?

Eu digo: – Tenho.

– Liga pra ela, convida ela pra sair na Portela.

Aí eu liguei.

– Não, Monarco, agora não, deixa isso pra mais tarde. Eu ainda tô de cabeça quente, mas muito obrigada, eu agradeço de coração.

Convidamos ela pra sair na Portela com a gente, que ela gravou muito a gente. Gravou mais a Velha Guarda da Portela do que a Mangueira, a Beth. Ela gosta da Portela.

Os sambistas se dão muito, muito embora sejam de outras escolas. Ontem mesmo fui lá no barracão da Grande Rio, com Zeca Pagodinho. Fui recebido com o maior carinho, pelo Helinho, presidente lá, e o Jarbas. Me trataram com muito carinho, almocei com eles lá, depois vim-me embora. Não vou sair lá porque eu sou Portela, mas eles sabem que minha intenção também não é maligna, de ir bater no barracão deles pra fazer nada errado, nem comentar nada contra, nem sair por aí falando. Eles sabem do meu procedimento no samba, graças a Deus, todos eles me respeitam. E tive parceiro, por exemplo, na Mocidade Independente de Padre Miguel, o Toco, e no Império Serrano, o Hélio.

O sambista tem isso, ele é de uma escola, mas ele tem música com o de outra. Acaba o desfile, uns se abraçam, vamos beber juntos e tudo. Só na hora, cada um luta pela sua, mas acabou ali, não tem briga. Tem uma coisa pura, uma coisa bonita, que não existe no futebol. No futebol estão se matando. Escola de samba, não. Uma escola visita a outra, sabe? Mangueira vai à Portela, Portela vai à Mangueira, isso já vem, essa relação já vem do Paulo com o Cartola. Eu cheguei a fazer Velhas Companheiras inspirado nisso. Eu passei em frente à Mangueira mesmo, olhei para a quadra da Mangueira, aí bateu a ideia na minha cabeça e eu fiz:

Quando passo em frente à Estação Primeira
Me lembro da velha Mangueira
Lindos sambas, tudo enfim
Me lembro dos meus tempos de menino
Quando o Paulo e o Rufino, Marcelino e Gradim
Trocavam toda a cordialidade
Estreitando os nossos laços de amizade fraternal
Por isso que Portela e Mangueira são as grandes pioneiras
Das escolas no Carnaval
Em noitadas lindas, já presenciei
Os sambistas com emoção
Como já dizia o bom Cartola
Ponto alto da escola, “sala de recepção”
Tremulavam juntas nossas bandeiras
Velhas companheiras semeando a paz
Por isso que Portela e Mangueira
Sempre foram as primeiras
Dos idos Carnavais

De ver a amizade da Portela com a Mangueira, eu faço um samba. É uma coisa bonita, não é? Eu uso aí uma palavra do Cartola, mas cito que foi ele que disse. Eu não uso aquilo pra mim, não: “como já dizia o bom Cartola, ponto alto da escola, sala de recepção”. “Mangueira é uma sala de recepção, aqui abraça-se o inimigo como se fosse o irmão”, compreendeu? O Cartola fez, quando o Paulo esteve por lá. Paulo se aborreceu na Portela, foi para a Mangueira, ficou lá com o Cartola, uns dias, mas o Cartola insistia que ele devia voltar, que a Portela era dele, ele quem criou, foi ele quem deu tudo, que embalou a Portela. Então o Cartola insistia, mas o Paulo estava muito chateado e não voltou mesmo não… É, ele fez:

O meu nome já caiu no esquecimento

É verdade, é lindo. E para não ser esquecido, justamente, foi uma maneira. Ele fez:

O meu nome já caiu no esquecimento…
A velhice vem chegando
Já me olham com desdém

Olha: desdém!

Ai, quanta saudade
De um passado que se vai lá no além
Chora cavaquinho, chora
Chora violão também
O Paulo no esquecimento não interessa a mais ninguém
Chora Portela, minha Portela querida
Eu que te fundei, serás minha toda a vida

Aí eu faço:

O teu nome não caiu no esquecimento, nem cairá
Fiz esse samba dolente pra te adorar
Paulo seja sempre iluminado por nosso Senhor
Aqui na Terra te adoramos com fervor
E lá no reino da glória descansa em paz
Que a tua Portela não te esquecerá jamais

Não gravei isso, não. Está no meu baú guardado. Esse eu cheguei a botar num festival, mas fui classificado com outra música e esse ficou de lado. Mas quando eu canto todos gostam… Tem a segunda parte, mas isso aí eu vou botar numa fita direitinho. E guardar pra mim, pro meu baú.

Deu pra fazer alguma coisa?


[1] Composição de Chatim.

[2] Caprichos do destino, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz.

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