Seção “Um lero pelas esquinas” (entrevista): Lindomar

(entrevista e foto de capa: Fernanda Guimarães – 27/07/2010)

Gosto de cantar, mas não penso em cantar sozinha. Só com a Velha Guarda, penso em cantar sempre junto com eles, e continuar com minha vida (…) Eu faço parte de um grupo. E todo grupo tem que ter consciência de que aquilo ali é um elo. Aquela rodinha, fora do elo, não é nada. A não ser que a pessoa se proponha alguma coisa.

Meu nome é Lindomar Ferreira Fraga, nasci em 17 de fevereiro de 1941, em Recife, Pernambuco. Sempre fui costureira, modelista, estilista, idealista… Sempre estive na costura, desde os 6 anos de idade. Minha infância foi ótima: eu era muito mimada por toda a minha família. Minha avó, meu pai, minha mãe, todos me mimavam, porque eu era uma criança que não tinha muita saúde, o médico dizia que eu não ia passar dos 10 anos. Agora, aos 70, eu acho que ele esqueceu um zero.

Ah, porque minha família toda achava que eu não ia sobreviver, que o médico me desenganou. Eu tinha um problema de sinusite. E sei que foi passando, passando, e eu estou aqui até hoje, e a sinusite também não me atrapalha mais. Minha sobrinha, que é bem mais nova que eu, filha da minha irmã, nasceu também com sinusite e já operou duas vezes, mas graças a Deus eu nunca precisei operar, e vou vivendo.

Graças a Deus, tenho saúde. Quero continuar fazendo o que eu sempre fiz, a minha vida toda: brincando, rindo, cantando, com bons amigos, curtindo a minha mãe, que está com 92 anos… Curtindo muito a minha mãe, que todos os dias de manhã eu dou o remedinho dela, antes de sair, e qualquer lugar que eu vá, primeiro a minha mãe, porque essa é única. Eu acho que quem tem sua mãe tem que fazer tudo, até se puder carregar no colo, carregar. Ela mora aqui, na casa de baixo. Sou a segunda de sete irmãos, mas uma se foi, porque chegou a hora… Agora, comigo são seis.

E tenho meu companheiro, que agora está meio adoentadinho, também não me proíbe de nada… Eu viajo, eu vou ao samba, eu vou para o Império, vou fazer show, é só avisar.

– Que horas que você vai chegar?

– Olha, eu só sei a hora que eu estou saindo, hora de chegar…

E vamos vivendo. E tem também meu trabalho, que é a minha vida inteira, desde os 11 anos. Comecei a costurar com 6 anos; com 11 anos eu me formei em Corte e Costura, lá na Paróquia São Mateus de Oswaldo Cruz, na escola que tinha lá, na Rua Pinto Campos. De lá para cá não parei mais, até hoje, e vamos vivendo a vida. Quando tem uma chancezinha, eu vou dar um passeio, arejar a cabeça, que faz parte.

Eu vim de Recife em 1951 para 1952, e logo depois morreu o Chico Viola, Francisco Alves. Quando ele morreu, eu já estava morando em Oswaldo Cruz. Eu cheguei aqui no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio. Aí, logo depois, em setembro, aconteceu aquele acidente com ele… Freqüentei muito a Rádio Nacional, a Rádio Tupi, era macaca de auditório, daqueles meninos todos, do Luiz Vieira, Paulo Bob, eu gostava muito da Marlene, e as minhas primas gostavam da Emilinha. Não brigávamos, não.

Então tinha o Cine Madureira, o Cine Alfa, o Cine Coliseu, nós íamos muito ao cinema, onde eles vinham fazer show, na matinê, pela manhã. Até o meio-dia, eles vinham para ali cantar, então aquilo ali ficava com aquela garotada, que hoje eu vejo esses negócios de funk, e me lembro muito… Cada um tem a sua idade, não é? E no nosso tempo era isso. Teve uma vez, quando eu morava em Oswaldo Cruz, tinha um circo, até quase em frente a onde o Zé Luiz mora, eu morava na Rua Pinto Campos e pedi à minha mãe para assistir ao show do Circo. E chegou quem? Paulo Bob, Nora Ney, Jorge Goulart… Nós éramos muito amigos do Paulo Bob. Ele, quando chegou:

– Não, vamos entrar, vamos entrar…

– Não, nós viemos só ver a sua chegada.

– Não, entra, entra!

Nós entramos. Ah, pra quê. Assistimos ao show; quando chegamos em casa, minha mãe já sabia que nós estávamos lá dentro do circo. Eu e minhas duas irmãs levamos uma surra! E o nosso colega, que foi nos acompanhando, que morava na rua:

– Eu vou ficar sentado aqui, para escutar vocês gritando.

E eu não gritei! Minhas duas irmãs gritaram e eu não gritei, fiquei chorando, assim, baixinho, prendendo o choro, para ele não escutar.

Estava com 12 para 13 anos. Depois continuei freqüentando, até hoje eu escuto a Rádio Nacional, Rádio Tupi. O Império também estava na fita, mas era só quando minha tia me levava. Assim que eu cheguei de Recife, com 11 anos, fui para o Império. Era lá em cima. Lembro que era numa casa na Serrinha, a casa da Tia Eulália. Aí, às vezes, quando minha tia ia pra lá, eu ia junto. Era um terreno grande, chovia, e a gente subindo aquele morro e a água descendo.

Naquela época, no desfile, só tinha aquela corda cercando, então minha tia fazia uma ala para a gente, umas roupas verde e branco, que nós vínhamos encerrando a escola, ali no final. Depois foi lá para a Presidente Vargas, era aquele tablado, desfilava ali, depois descia. Depois foi para a Candelária, na Avenida Presidente Antonio Carlos. Eu lembro que teve um ano que o enredo era Dona Santa, rainha do maracatu, que foi ali, e teve outro ano na Antonio Carlos e nós ficamos todos sujos, porque tinha aqueles banheiros que não eram bem banheiros químicos, porque os negócios saíam pela rua… Olha, mas sujava todo mundo! Teve outro ano, isso já foi bem para cá, o ano do Oscarito, carnaval e samba, uma chanchada no asfalto que nós desfilamos ali no Catumbi, e a nossa concentração foi dentro do Túnel Martins de Sá. 1978 foi o ano em que Oscarito nos enterrou, também, quando o Império desceu, e na nossa frente, quem veio? A Ilha do Governador. Depois disso eu me casei e me afastei um pouco da escola.

Não tive filhos. Fiquei grávida três vezes, todas as três vezes foi de gêmeos, então engravidei de seis filhos, mas Deus não quis. A última que eu perdi foi um casal, eu estava com cinco meses. Até hoje eu tenho as roupinhas deles guardadas. Eu estava enorme, baixinha, bem gordinha, parecia uma bolinha. E continuo vivendo, enquanto Deus permitir, freqüentando o Império, freqüentando a nossa Velha Guarda. Porque chega a hora e Ele fala assim:

– Chega, tu já curtiu muito.

É, curti o Império bastante tempo, só dei uma parada quando me casei, porque com o meu primeiro marido não podia nem olhar pro lado: eu tinha 19 anos e ele 34. Esse agora já é o segundo casamento, que eu sou viúva. Mas com o primeiro não podia nem falar em samba, não! Porque a mulher, naquela época em que eu casei, em 1961, a mulher não usava calça comprida, não raspava a sobrancelha, tinha que ser do lar. Mulher não podia trabalhar fora e eu já trabalhava na Avenida Marechal Floriano, no Centro, depois fui trabalhar na Rua do Rosário.

Sempre trabalhei em costura. Eu tomava conta de toda a fábrica. Depois fui trabalhar em Copacabana, quando a firma mudou para lá, mas sempre freqüentando o Império também. Não podia deixar meu Império. Depois, aí, eu fui trabalhar na Rua Antunes Maciel, em São Cristóvão, quando já estava morando em São Cristóvão. Ali eu trabalhei bastante tempo, tomava conta de 148 empregados, entre passadeiras, overloquistas, costureiras, acabadeiras… Porque tem a marcadeira e tem acabadeira. As pessoas acham que é a mesma coisa, mas não é: a acabadeira faz bainha, prega botão; a arrematadeira corta linhas, tira todo aquele apare, entendeu? Então eu tomava conta de toda a parte de corte, cortador, modelista… Nessa época eu não desenhava, eu costurava na minha casa, mas lá eu tomava conta, só. Como dizem que chefe é de índio, não é? Eu fazia parte da chefia, mas era muito bom. Os patrões gostavam muito de mim, me davam todo o apoio, o que eu dissesse ali dentro da firma era lei. Muito bom mesmo.

Mas eu já participava de ala, desde o início. Lembro do tempo do Fernando Pinto, em que nós saímos de índio, o enredo era Viagem encantada Pindorama adentro, várias coisas. Eu era baixinha, gordinha, bonitinha, ah, quando eu me lembro daquele corpinho, ha-ha! Que saudades… E teve também o de 1975, que era Zaquia Jorge, vedete do subúrbio, estrela de madureira e a nossa ala foi a ala do Palco Iluminado, então para as mulheres era biquíni, bustiezinho, e uma capa cheia de estrelas presa nos dedos, que fui eu que fiz, também, nessa época. No desfile de Pindorama adentro, em 1973, minha sobrinha foi a primeira porta-bandeira mirim, que muita gente não lembra, diz que não é verdade, mas tem a prova aí, que eu fiz a roupa dela e do mestre-sala. Foi toda de folhagem. Aquelas folhas recortadas, bordadas de paetê e aplicadas, a roupa todinha da porta-bandeira e a calça do mestre-sala – uma calça até abaixo do joelho, o meião e aquela casaca. Quer dizer, eu tento fazer, e tento curtir a minha vida, trabalhando, porque acho que isso faz parte da vida, não é?

Teve uma época em que meu irmão, Genival, era presidente da ala Mocidade Imperial. Aí depois ele casou e, por ciúmes da esposa, deixou a ala. Eu então peguei a ala e continuei, e fiquei com a ala Mocidade Imperial por mais de 10 anos. Teve O mundo dos sonhos de Beto Carrero, teve Lampião e Maria Bonita… E eu fazia as roupas, também. Tinha componentes, eu organizava as reuniões, tinha que participar de ensaios, ter as camisetas para a hora do ensaio, tudo bonitinho, organizado. Eram 150 componentes. Depois a Neide dividiu a ala por dois, daria 75 componentes para cada presidente, que era o que se dizia ala grupada. E eu continuei com a ala.

Para a Velha Guarda eu entrei no ano de 1999 para 2000, quando o mestre Campolino me convidou. E eu dizendo que não, que não tinha tempo, mas ele:

– Não, você vai! Se você não for, mais a Nina, então não vai ter Velha Guarda.

Aí eu fui, convidada também pela Neide, que naquela época já era presidente, e o Valdeci, que era lá da diretoria da Neide.

– Ah, vamos.

Aí fomos, eu e tia Nina. Nós íamos muito a ensaio, à Rádio Nacional. Era muito engraçado, quando nós começamos… Para tirar carteira da Ordem dos Músicos, saía correndo Campolino, com as pernas compridas! Ia na frente, eu no meio, correndo atrás dele, porque as outras duas – tia Nina e Nini – andavam mais devagar, e eu tinha que saber por onde é que ele ia entrar, qual era a rua onde ele ia. Eu dava uma parada, chamava, olhava para trás…

Depois que a Nini se afastou, aí foi que veio a Balbina. Ela não está desde o início, mas é neta da Tia Eulália, então a Neide achou que ela devia entrar, porque ela viveu a vida toda – toda não, porque ela foi do colégio interno, conforme ela diz, que eu também nem sabia, e não ficava direto na escola, depois que ela saiu do colégio interno que ela participou mais. Então ficou muito conhecida, porque ela é muito assim, muito alegre, uma pessoa assim… Então Portela, Império, todo mundo conhece ela. Tanto que as pessoas acham que ninguém me conhece, eu também… Porque eu fico, você vê, na minha casa, aqui dentro. Vou ao Império, fui no domingo, que teve eleição, quer dizer, as pessoas não me vêem muito. Quem me conhece há muitos anos sabe quem eu sou, mas não que eu viva dentro do Império. Mas fiquei na Velha Guarda, e sempre que tem reunião estou, nunca faltei, a não ser em caso de doença. Quando tem apresentação, show, ensaio, eu estou, não falto, não posso faltar… Fecho tudo, digo às minhas meninas:

– Olha, amanhã você não vem.

Para não ficarem sozinhas, que eu não gosto. Atualmente, tem duas trabalhando aqui, mas eu já tive mais de dez aqui dentro de casa. Agora eu estou trabalhando menos, a gente vai ficando mais velha, aí eu acho que vai perdendo a vontade. Você chegava aqui em casa com uma bolsa de tecido; quando saía, já saía com a roupa toda pronta. Era, eu tinha uma amiga que dizia que era minha afilhada, a Meire, ela ia à loja de tecido, trazia a bolsa:

– Ai, minha madrinha, eu quero essas roupas para hoje, que eu vou viajar amanhã.

Ela chegava assim, mais ou menos uma hora, uma e meia, que ela sabe que meio-dia eu paro para almoçar, pego uma hora. Aí nós ficávamos até meia-noite, uma hora da manhã, ela levava toda a roupa! E não era assim, um conjunto, não. Era blazer com saia, blazer com calça, era muita roupa. Hoje eu fico imaginando como eu fazia aquilo tudo, e sozinha. Porque nesse caso, as meninas não me ajudavam. Com roupa de freguês eu não gosto que me ajudem, porque eu boto defeito em tudo. Sou muito perfeccionista, aí eu já sentava na máquina desmanchando alguma coisinha que não tinha me agradado.

Quando eu era criança, eu adorava cantar. Cantava no circo, cantava no parque, porque tinha aquelas garotas:

– Ah, vamos cantar?

E eu estava sempre cantando. Cantava, deixa eu ver, assim:

Hoje não te quero mais
Eu preciso de paz
Já cansei de sofrer
Vives na rua jogado

És um fósforo queimado
Atirado no chão
Tu para mim és ninguém
Procure um outro alguém

Que te ajude a viver
Pouco importa
Se sofres assim
zombaste de mim

Precisas sofrer
Em vez de tentares a sorte
Procuras a morte
És a gorjeta deixada

Em um botequim
Foste cruel para mim
Não te lembras agora
Hoje não me interessa
Se sofres assim

Ah, muitas coisas! Isso já era aqui no Rio. Eu gostava muito da música da Nora Ney, Ângela Maria, Alcione, sempre cantava, assim, mas não era profissional. Aí depois nós fomos lá, para a Ordem dos Músicos, fizemos um ensaio, isso já na Velha Guarda musical, porque para tirar a carteira tem que fazer o teste, se não, não tira. Aí eu fiz o teste, passei e me deram a carteirinha. No Império eu cantava, assim, no meio do povão; no palco não.

Tenho a carteira da Ordem dos Músicos e também… Passaporte. O samba me ajudou muito, não só na Velha Guarda, porque no samba nós temos muitas oportunidades de conhecer lugares onde o pessoal comum não vai. Por exemplo, fui a teatros, fui a shows, convidada, assim… Porque o pobre mesmo não anda em determinados lugares, a não ser que seja convidado. Então com o samba, a gente vai, determinadas pessoas, se separa aquele grupo, então vai.

Estou indo sempre a São Paulo, no SESC, que eu adoro. Fui ao SESC Pinheiros, logo depois que houve aquele acidente com o metrô, e quando nós estávamos cantando, terminamos de cantar, entrou a Dona Ivone Lara e foi uma falta de sorte nossa, que naquele momento um carro – guindaste, parece – bateu no fio de alta tensão e teve um apagão em São Paulo. Nós estávamos lá embaixo, não sei quantos andares abaixo do solo, que é o teatro do SESC Pinheiros… Estivemos umas três ou quatro vezes no SESC Pompéia, em vários. Onde mais? Três Rios, eu acho que já fui umas três vezes, ou quatro, e outros lugares também. E se eu estivesse em casa, não teria ido a lugar nenhum, ia daqui lá para o mercado… Vida de dona de casa, a pessoa diz que nunca tem tempo para nada, mas nós é que fazemos o nosso tempo. E eu quero ter tempo para curtir mais a vida, com 70 anos, mas estou achando que ainda não curti nem metade do que eu tenho direito.

Gosto de cantar, mas não penso em cantar sozinha. Só com a Velha Guarda, penso em cantar sempre junto com eles, e continuar com minha vida, porque eu estou com a carteira da Ordem dos Músicos, mas não sou uma artista. Eu faço parte de um grupo. E todo grupo tem que ter consciência de que aquilo ali é um elo. Aquela rodinha, fora do elo, não é nada. A não ser que a pessoa se proponha alguma coisa. Se a pessoa não tiver outra vida, outra situação. Porque a minha vida é aqui, é a costura. Como o Zé Luiz que é compositor, cantor, ele agora está fazendo a carreira dele solo, que eu acho lindo isso, o Wilson das Neves também, quem mais? Aluizio Machado, Ivan Milanez. Mas eu não tenho essa… Só se Deus permitir. A nossa vida muda, assim, de uma hora para outra, então quem sabe?

Ah, o que eu mais gosto é a convivência com os companheiros, aquelas horas que a gente passa na van, aquela coisa, aquela ansiedade:

– Ah, vamos encontrar tal hora, tal dia.

– Olha, você não chega atrasado!

Quando chega atrasado, um abre o braço:

– Por que é que está abrindo o braço?

Não temos lugar certo para ensaiar. O primeiro ensaio, de fotos e de canto, foi na casa do Cizinho, em Vaz Lobo. Tem umas fotos muito bonitas, não sei se o Zé Luiz tem. Foi muito bonito, com Mestre Campolino, que ainda estava vivo… Ele ainda durou um pouquinho. Chegou a participar, quando nos apresentamos no Espaço Cultural Sérgio Porto, na Rádio Nacional, na casa do Cizinho e outros lugares em que nós passamos. Ele ficou um ano e pouco, não deu nem dois anos, que o moço maior, lá de cima… Chegou a hora dele e ele foi chamado. Então eu gosto mais dessa parte assim, do ensaio, aquela parte do encontro, e vamos com que roupa, aquela música:

Com que roupa eu vou
Ao samba que você me convidou…

É isso, na Velha Guarda tem que estar todo mundo impecável, chega todo mundo desarrumado, e aí é o que eu chamo que chegou a hora do transformista. Chega todo mundo de qualquer maneira; daqui a pouco, está todo mundo impecável, para se apresentar. Eu acho isso muito bacana.

Eu gosto muito de cantar samba-enredo. Gosto de cantar aquela música:

Vem, vem ouvir!
O Império tocou, reunir
Vem, vem ouvir!
O Império tocou, reunir
(Não fique assim)
Não fique assim desanimada
Seu amor vai dizer
Que você é uma louca apaixonada…

Muito linda. Tem aquela, que nós não botamos no disco, Baleiro-bala.

Baleiro-bala
Grita o menino assim
Da Central a Madureira
É pregão até o fim
Baleiro-bala…

Acho bonito isso também. Aquela Zaquia Jorge, acho linda, também, e as músicas do Roberto Ribeiro, que são uma coisa espetacular. Tem essa, Menino de 47, que é linda, maravilhosa. Olha, o Império teve – não tem, mas teve – uma safra de sambas muito bons, quer dizer, era uma das escolas que tinha os sambas mais bonitos. Não é porque eu sou imperiana que eu falo; isso é dito por várias e várias pessoas, que agora eles não fazem mais daqueles sambas tão lindos, conforme se fizeram.

Eu acho que o jovem hoje tem outra cabeça. Porque os sambas, a maioria dos sambas do Império Serrano, eles reviviam muito a História do Brasil. Conforme mesmo a Balbina cita, muitas vezes ela ganhou 10 na escola porque ela começava a lembrar dos sambas do Império, porque contava a História do Brasil… Tem um samba do Aluizio Machado, não sei se eu vou lembrar dele agora…

Até as estações do ano
Já perderam seu valor
Primavera no outono
E faz frio no calor

Até as estações do ano
Já perderam seu valor
Primavera no outono
E faz frio no calor

Tem muito mais
Basta querer raciocinar
Imagine, minha gente
Explodindo a bomba H

Se o mar recuperasse
Seu verdadeiro lugar
Eu, na minha ignorância
Não consigo ignorar

De que vale a inteligência
Quando a tendência é má
Vejo a Dona Ciência
De braços dados com a evolução…
…para a exterminação…
…vejo a guerra se alastrar…
…sinto a poluição…

Ah, errei.

E de tanto analisar
Cheguei a esta conclusão
Se o Cristo aqui voltar…
…será preso e algemado…

É mais ou menos isso. Então, esse samba, ele já fez tem muito tempo, e é o que está acontecendo hoje. Nós não sabemos quando é inverno, quando é verão; não sabemos quando é outono, não sabemos quando é primavera. Está uma confusão… Não é isso que está acontecendo? E esse samba vem falando disso tudo.

Eu não fazia parte da velha guarda da escola, apesar de que eu me dou com todos eles, porque eu conheço, do Império Serrano; não conheço de conviver na casa. Mas Campolino me convidou, porque eu fazia parte do Departamento Feminino, Departamento Social, mas não do departamento musical, que não tinha, entendeu? Só tinha velha guarda do Império, que as pessoas que estão fora dizem que Império é a única escola que tem três velhas guardas: velha guarda da escola, ala dos Cabelos Brancos e ala musical. Mas no fim é uma coisa só, é Império Serrano.

A velha guarda tem presidente, secretários, tudo ali dentro do grupo deles. Promovem atividades, eles visitam muito as escolas, se reúnem, tem a Associação das Velhas Guardas. E eles se encontram, todo domingo tem evento. É impressionante, porque inclusive eu trabalhei para a velha guarda do Império e atualmente estou trabalhando para a da Renascer de Jacarepaguá. Então elas chegam aqui correndo, querem roupa, porque tem uma saída para ir à escola tal, mas é todo domingo e sábado. Eu digo:

– Gente, não sei como é que vocês agüentam tanta cerveja!

Mas bebem muito. É bom, porque é uma idade em que as pessoas pensam que a pessoa está no final e realmente não está. A pessoa está continuando, vivendo, é como agora, que eu escutei falar que é a melhor idade, e realmente. É uma idade que não tem compromisso de casa, de marido, tudo aquilo. É um compromisso com ela mesma, com o samba, e não é só mulher, tem homem e mulher. Às vezes é o casal que vai, estão casados, ou vivem juntos há muitos anos, e estão juntinhos ali, vivendo a vida. E eu acho isso muito bonito.

Olha, eu acho que as pessoas discriminam muito o Império Serrano. É uma escola que, quem é Império, é Império mesmo. E quem não é, gosta de outra escola, tem o Império como segunda escola. Então nós temos consciência disso, todos os imperianos têm consciência disso. Tem pessoas que gostam do Império, porque o Império Serrano é uma família. Se você chegar lá, você vai se juntar, vai se reunir com a gente, parece que você já conhece todo mundo ali há muitos anos, ao passo que você chega em outra escola de samba, você fica, assim, reservada, e passa. Ali você está dentro de casa, você chega e está à vontade, vai para cá, vai para lá, aí uma te conhece, apresenta. Eu, quando levo alguém, todo mundo que passa:

– Ah, essa aqui é fulana, é minha colega, é minha amiga…

E fica, para se unir, para juntar ali, que é para a pessoa gostar. Eu faço sempre assim, não só eu, como outras pessoas também.

E vou ainda, domingo mesmo eu fui votar… Essa eleição agora, do Império, foi assim, tapa-buraco. Porque o que é que aconteceu? O Presidente renunciou. Nós estamos em cima do carnaval, temos que fazer tudo correndo. Quando eu digo “nós”, são eles, que eu posso ajudar em alguma coisa, mas eu não vivo lá dentro do Império. Então teve essa eleição tapa-buraco e, dependendo do que esse presidente agora fizer… Porque em junho ou julho vai ter outra eleição, depois do carnaval. Aí virão outros candidatos e esse candidato vai poder se reeleger.

O outro candidato era o neto da Tia Eulália, o Helton. Eu votei e saí, mas soube que a contagem de votos foi pau a pau. Eles encerraram com 204 votos cada um, todos os dois. Quer dizer, foi uma zebra… Aí o que é que aconteceu? A Vera, que o esposo dela já foi presidente do Império, há muitos anos – não estou lembrada o nome dele – e ela freqüenta também, há muitos anos, ela foi eleita, por quê? Porque ela era mais antiga que o neto da Tia Eulália, que é um rapaz novo. Mas ele tinha boas pessoas por trás dele também, carnavalesco e tudo, mas ficou a Vera, que como é mulher, vamos dar um voto de confiança, porque o importante nisso tudo é o Império. Mas eles também fizeram um acordo: quem ganhasse ia ajudar o outro. Entendeu?

Porque o quê que se quer ali dentro, agora? Que o Império volte para o Grupo Especial. Eu estou achando um pouquinho difícil, mas estou rezando para que aconteça, ele volte para o lugar dele. Olha, eu acho que a escola desceu porque as pessoas, ali, no Império, não querem se juntar, porque a Serrinha, o Cajueiro, o Cais do Porto, o pessoal dali, da Resistência, não aceita ninguém de fora. Eu acho que a pessoa para ter uma ajuda tem que ter alguém de fora, com força, com dinheiro, que o que manda agora é o dinheiro. Aí as pessoas dizem que nem é tanto dinheiro, que a Vila Isabel ganhou o Carnaval, com aquele carnaval bem pobre, não é? E o Império veio muito bem este ano, muito bem. Agora, para ficar em 6º lugar no Grupo de Acesso, isso não foi justo. Nós entramos na avenida com garra, estávamos muito bem. Tinha defeito? Tinha, quem que não tem? Mas acontece que, como é Império Serrano, eles botam defeito maior. Isso entristece, eu acho que foi por isso que o Presidente se cansou. Ele estava há seis para sete anos, já estava na segunda gestão. Fez quatro, depois entrou com mais quatro, porque ganhou, foi reeleito.

A desavença entre escola de samba? Império, Portela, Salgueiro, Mangueira, as Velhas Guardas que trabalham juntas – que às vezes nós fazemos show todas juntas – é abraço, é beijo, aquela amizade, sabe? O negócio é lá na avenida, ha-ha! Na avenida é que é a disputa mesmo, mas mesmo assim, se encontra, se fala, freqüenta uma a casa da outra, eu é que não tenho tempo. Só assim, coisa muito… Aí eu saio, mas fazer visitinha é difícil. Trabalho o dia inteiro, dia e noite. Faço desde a capa do colchão até o vestido de noiva. O que chegar aqui para eu fazer, eu faço. Agora eu trabalho para uma clínica, que vai ser inaugurada em Botafogo, trabalhava para a Ordem dos Advogados, trabalhei muitos anos, fazendo toda a roupa do CAARJ (Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro), centro médico, administração, tudo. Não só daqui, do Rio, como de fora – Petrópolis, São Paulo, Brasília, Recife, esses lugares todos. Vinham as medidas e algumas meninas vinham para a sede, que é no Castelo, nós íamos, meu irmão tira medida delas, e nós confeccionamos e mandamos. Isso é terno de segurança, terno dos meninos que trabalham lá na Secretaria, faço tudo, calça social, camisa social, paletó, o que vier, o negócio é trabalhar.

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