Seção “Um lero pelas esquinas” (entrevista): Balbina

Acervo pessoal

(entrevista por Fernanda Guimarães – 27/07/2010; foto de capa: Carnaval de 1975 – Acervo pessoal – Balbina)

“Viver, você dá o teu exemplo. Se eles não quiserem, o problema é deles”

Eu sou Balbina de Oliveira Thomé e estou com 73 anos. Tenho orgulho de dizer a minha idade, porque chegar a 73 anos trabalhando, como eu trabalhei, é uma glória. Minha mãe não chegou, ela não passou dos 30 e poucos; meu pai também morreu cedo.

Fui criada no Asilo Infantil Nossa Senhora de Pompéia, um colégio de freiras, na Rua Cirne Maia, no Méier, um bairro que eu adoro, porque ali foi a minha infância. Nasci em Madureira, mas fui para o Méier com 5 anos de idade, que meu pai tinha falecido, e meu avô, como era uma pessoa conhecida na sociedade carioca, no Distrito Federal… Era próximo das famílias do Desembargador Mário Piragibe e Peixoto de Castro, famílias ilustres, que eram. Eu era afilhada da neta do doutor Peixoto de Castro, e esse colégio de freiras, de que eles eram os benfeitores, era para as crianças necessitadas, que não tinham seus pais, ou que não tinham possibilidades. Senti tristeza, porque eu queria estar com meus primos, mas foi bom. Hoje, tenho a responsabilidade que as freiras me deram; minha mãe tinha que trabalhar, então foi ali que eu aprendi. Mas a minha família, aqui fora também, me dava assistência – uns, não é? – e ia visitar.

Eu fui mandada para o colégio das freiras junto com minhas irmãs Gina – Higina – e Marina, que mora em São Paulo. Eu digo sempre que São Paulo, pra minha irmã Marina, foi uma grande coisa. Quando ela saiu do colégio das freiras, foi para a mansão da minha madrinha na Praça da Bandeira, na Rua Santa Amélia, e estudou mais um bocadinho… Depois foi para São Paulo, Guarulhos, com uma amiga. Aqui no Rio ela não tinha dado sorte, mas ela era muito inteligente, então fez prova para a Justiça do Estado de São Paulo e passou. Ficou trabalhando lá, se casou, comprou casa, fez a vida dela lá, se aposentou. Eu gosto de São Paulo, eu vou sempre fazer show lá, com a Velha Guarda show, e eles morrem de rir:

– Olha ela com a bengala!

E eu fiquei no colégio interno, junto com a minha outra irmã. Nós estudamos bastante, porque no colégio de freira, você só passava se soubesse! O nosso primário foi muito bom. Ah, mas eu ficava doida quando se falava no Império Serrano, lá no colégio… Mas a gente não podia nem olhar, negócio de samba, porque era religioso, católico, não é? Eu ainda novinha, com 10 anos, não podia desfilar, porque antigamente criança não desfilava. Os pais levavam para ver os desfiles, levavam farofa, botava colchão, esperando a escola de samba desfilar, e as crianças comendo farofa. Os farofeiros, chamavam. Os pais, os mais velhos, segurando as crianças, e as crianças querendo ir. Só depois é que veio a autorização do Juizado de Menores, mas tinha que ter documento, tudo direitinho. Quando eu fiz 14 anos é que eu pude sair, quando saí do colégio interno, com o primário completo. Ah, eu disse:

– Eu vou sair!

Aí minha tia:

– Não, vai sair juntinho com elas, com as mais velhas!

Não saía como mocinha, sem juízo, não. Minhas tias mais velhas arrumaram minha roupa, e saí. Meu primeiro desfile foi em 1952, que eu saí do colégio e já era carnaval. O enredo homenageava Ana Néri. Estava toda feliz, nunca tinha saído! Mas era aquele temporal desesperado! Nós não desfilávamos assim, como hoje; era no tablado, uma passarela de madeira, que ficava ali perto da Praça XV, na Presidente Vargas, por ali. Era de madeira, não era esse carnaval não, os jovens têm que saber disso, respeitar as pessoas mais velhas que sofreram. Não tinha corda, aí o povo invadia as escolas de samba – a polícia vinha com aqueles cavalos, era a polícia cavalariça. Os policiais metiam o cavalo e o pessoal corria pra trás! E quando a polícia saía, o pessoal, pra ver a escola, corria na frente! A gente sofria, no carnaval, sofria! E o tablado assim, a gente subindo, cantando, e lembro de umas casinholas onde a comissão julgadora ficava.

O Império Serrano é filho do Prazer da Serrinha, que era a primeira escola de samba da Serrinha, em Madureira. Houve uma desavença no Prazer da Serrinha, que era uma boa escola, e a família Oliveira, que é a minha, foi uma das primeiras, com a família Santos e outras, de estivadores do Sindicato do Cais do Porto, que se reuniram e fundaram o Império Serrano. O primeiro presidente, João de Oliveira, João Gradim, era meu tio, irmão do meu pai. Eulália Nascimento de Oliveira, a Tia Eulália que faleceu, que todos conheceram, era minha tia. Antonio Fuleiro, mestre Fuleiro, era da família Santos. Essas, mais a família Feliciano, se juntaram ali na Serrinha. Eu tinha 10 anos, ainda estava no colégio de freiras.

Mas antigamente… Uma coisa que as pessoas jovens têm que saber é que o Brasil ainda não era desenvolvido quando eu nasci. O Brasil estava ainda se encaminhando pra o desenvolvimento, com Getúlio Vargas. Eu nasci na década de Getúlio Vargas, aquele grande presidente, que até hoje eu honro esse nome. No colégio interno eu estudava bem, porque antigamente não existia escola pública. Quem estudava, na época, eram pessoas de famílias que tinham um poder aquisitivo mais ou menos. O pobrezinho, como nós, que nascemos no morro, lá na Serrinha, não tinha escola pública, era só escola paga, e tinha muita em Madureira.

Nós estudávamos no que eu falo fundo de quintal, que tinha aquelas professoras, pobrezinhas, que davam aula para a gente na casa delas. Na Serrinha teve muita. Na Rua Itaúba, que hoje se chama Rua Mano Décio da Viola, tinha Dona Dulce, várias professoras de fundo de quintal, que davam aula para a gente aprender a ler. Mas na década de Getúlio Vargas, de 1930 para cá, foi que apareceram as escolas públicas, que todo pobre passou a estudar. Só não estudavam se não quisessem, ou se os pais não tivessem essa sabedoria.

No colégio a gente cantava muitas coisas, na igreja, e tinha que cantar bem, com órgão. O Império, em 1952, quando eu comecei a desfilar, eu novinha, com 14 pra 15 anos, magrinha – eu ainda sou magra, não é? E era mais ainda! – a gente subindo, cantando – e eu sempre gostei de cantar, por isso que eu sou da Velha Guarda show do Império. Eu sei que a gente ia subindo, cantando:

Ana Néri, corajosa enfermeira

A heroína brasileira

O ilustre professor

Doutor Oswaldo Cruz

Grande pesquisador

Carlos Chagas e Miguel Couto

Vulto de glórias mil

Na medicina do Brasil

Laureano, Caiado de Castro

Miguel Couto e outros mais

Ana Néri, corajosa enfermeira

A heroína brasileira…[1]

E eu toda de Ana Néri, aquela cruzinha vermelha. Mas o temporal! O temporal que caía – relâmpago, raio, trovoada! A gente na chuva, mas a gente cantando. O que é que houve? Anulou o Carnaval, foi anulado. Aí a guerra! Porque antigamente, as escolas de samba brigavam. Não era briga de pau. Entravam no tablado com amor, com gana de a escola ganhar. Não tinha nada que ninguém ganhasse dinheiro, não, não tinha dinheiro. Pra quê, que anulou o Carnaval? Portela e Império, eram as duas que tinham a quizumba! Mas a gente é amiga… É como futebol, a quizumba de Flamengo e Vasco – não brigava, mas ah, era aquilo! Portela desfilava em Madureira, a gente desfilava em Madureira, uma queria fazer melhor que a outra. Mas era bom, era um incentivo! Porque, se não tiver incentivo? Ih, você deixa tudo correr frouxo, como se diz na gíria. As duas eram boas. Quando o Império ganhava, a Portela fazia samba de deboche. Ha, ha! Era! Aí anulou o Carnaval e na Portela fizeram um samba pro Império!

Não foi Portela
Que anulou
Não foi Mangueira
Também não foi, não senhor
Esta escola
Para mim, é um mistério
Não digo o nome, deixo isso a seu critério…

Depois repetia:

Não foi Portela
Que anulou
Não foi Mangueira
Também não foi, não senhor
Esta escola fica perto de Madureira…[2]

Que a gente era entre Madureira e Vaz Lobo.

Saiu representando, em 52

Ana Néri

Ha, ha!

A corajosa enfermeira…

Aí o Império fez um samba. Noel Canelinha, que faleceu, era um dos melhores mestres-salas das escolas de samba. Ele e Joel, de Vaz Lobo, fizeram o samba. Eu:

– Como é que é que vocês vão fazer?

Eu mocinha, danadinha… Eles não debocharam, foram com potência, com educação. A Portela fez de deboche, mas o Império, Noel, fez naquela, devagar… Na moral. Ele fez aquele assim:

Nós não somos Jequitibá
Nem Peroba, nem Jacarandá
Nós podemos provar
Venha no Império Serrano e verás, vem apreciar
Vem apreciar, e vais ver
O samba é com perfeição, podes crer

E cada uma fazia o samba para a outra! E depois, quando se encontravam… Então tinha aquela vontade, era amor, as escolas eram com amor… Agora não! Não me leve a mal, pode botar o que eu estou dizendo! Eu estava falando para a minha filha, estou ficando cansada disso. Porque você, para uma escola de samba desfilar, você já está bem sabendo quem é que vai ganhar, quais são as escolas que vão ganhar, que são as dos banqueiros de bicho! Eles se meteram, mas não existia banqueiro de bicho!

O samba era bom quando eles não existiam, essa briga que eles têm! E as pessoas que vão julgar, às vezes já estão sabendo. Se uma tira 5, elas já vão com aquele papel para tirar os décimos. Isso não adianta, não dá prazer de você ir para a avenida, brincar, sabendo que a escola que vai ganhar é a dos banqueiros de bicho.

Depois, no outro ano, foi O último baile da Corte imperial, na Ilha Fiscal, ali na Marinha, na Praça XV. Tem gente que não sabe nem o que é Ilha Fiscal, eu sabia, que eu ia lá com a minha tia, ver, para fazer o enredo, de vez em quando passeava. Foi o segundo ano que eu saí no Império.

Foi o último baile
Do Brasil Imperial
Foi realizado

Na antiga Ilha Fiscal
Os ilustres visitantes homenageados
Partiram para seu país distante
Com êxito brilhante, emocionados

Sua Majestade, o Imperador
Ao lado da Imperatriz
Diante de tanto esplendor
Sentia-se alegre e feliz

Jamais acreditaria
Que o seu reinado terminaria
Que mesmo a Corte não pensando assim
A monarquia chegava ao fim

O pessoal dos Fuzileiros Navais, da Marinha, ficava… Aplaudia o Império, o Império era muito bonito! O Império foi a escola que veio para moralizar as escolas de samba, porque elas eram discriminadas. Foi a primeira escola de samba em que um presidente subiu, que foi Lutero Vargas, filho de Getúlio. Ouviu a gente cantando lá em cima, no alto do morro, aquilo bonito, ele subiu as escadas para ver, na Serrinha, na Rua Balaiada, onde eu nasci. Para ver. Porque era organizado, o Império era uma coisa muito organizada. Mulher, na quadra, ficava de um lado, homem de outro. Não tinha mistura. E minha tia gostava de ver a gente toda bem vestida. Se fosse com lencinho na cabeça, Mestre Fuleiro não deixava entrar na quadra. As mulheres todas bem calçadas.

O Império foi a gente que fez! Quando houve a união dos banqueiros de bicho todos, nas escolas de samba, isso era lavação de dinheiro! Foi na Ditadura, quando eles foram presos na Ilha Grande. Eu não sei como esse povo não se manca! Eles juntaram, aí botou uma tal de Liga, eu digo: eu?! Carnaval era muito bom nas escolas de samba, muito bom mesmo, mas eles acabaram com a graça das escolas de samba. A Portela também era boa, agora a gente fica aí, hã! Vai desfilar no Carnaval, já sabe quem vai ganhar: Beija-Flor. Eu conheci aquilo laranjal, aquilo tudo era granja. Em Nilópolis, a Beija-Flor ensaiava numa casa perto da linha do trem, de cerca, assim.

No ano em que morreu… Olha aqui, eu marco tanto, a minha mente, ela foge e não foge, eu tenho uma coisa assim, que a doutora disse:

– Quando ela fugir, você não aceita!

Lá, em Nilópolis, quando Francisco Alves morreu, em 1950 e poucos, não foi? Chico Viola, o rei da voz. Beija-Flor era nova, era escolinha. Eles não sabem, esses de agora, mas eu sei. Naquele tempo, que eu ia no trem, para lá, só tinha laranjal, boi… Beija-Flor não tinha nada, ainda era aquilo, assim, como Madureira também, tinha boi na linha do trem, laranjal, e eu ia lá para Nilópolis.

Eu tinha um avô de criação, português, dono daqueles gados todos. Era marido da minha avó, mãe da minha mãe, que era negra, uma cabocla, muito bonita, índia misturada com negro. Saiu aquela cabocla bonita. O português adorava a minha avó, Seu João. Seu João era dono daqueles gados, daquelas plantações todas, e a gente ia, minha irmã mais velha ia mais. Eu fui num grupo, com o Império, na minha ala, a ala das Caçulas, que foi a primeira em que eu saí – Helena e Ester eram as diretoras… E Liette, que ainda está viva, duas estão vivas. Nós fomos a convite dos compositores, para jogar o samba. Nem existia banqueiro, essa gente! Eu? Isso é com vocês, agora!

Ih, o trem era ruim, naquela época! Aquele trem ruim, aquela estação com uma casa antiga. Nilópolis. Nós fomos – a gente moça quer andar, não é? A gente gosta de andar. Chegamos lá, esse compositor que convidou a gente, era para a gente cantar o samba dele: eles convidam para cantar o samba na quadra para ajudar, para vencer o samba, mas a gente não era da escola. Aprendia e jogava o samba deles na quadra. E fomos, aquele trem que não vinha nunca! Ha-ha! Eu me lembro, nós chegando na quadra… Não esqueci o samba, não. Para você ver, coisa antiga eu não esqueço. A velhice, coisa antiga tu não esquece não, tu esquece a presente, a coisa mais presente. A velhice não esquece o passado não. Eu não esqueci nada. O samba deles era assim, porque quando o Francisco Alves morreu, ih, parou tudo, era uma novidade, flores. Aí o samba deles era assim:

Flores e mais flores
Gente em quantidade
Lágrimas sentidas
Eu vi derramar

Foi um quadro triste
Nunca visto outro igual
A terra cobria o corpo de Francisco Alves
O rei da voz , que chegava ao seu ponto final

A terra cobria o corpo de Francisco Alves
O rei da voz, que chegava ao seu ponto final

Ave Maria
Ave Maria
La-ra…

Esse pedacinho eu esqueci. Acho que foi em 1954, homenageando Francisco Alves.

A cidade inteira emudeceu
Que da terra desaparecia

Eu ia ter cabeça para fazer um samba desses? Estou mentindo? Mas é, foi assim. E o Império era muito bonito. As alas no Império não deixavam ninguém ver as roupas, só via no dia, para ninguém copiar. Ih, nós ficávamos assim, todo mundo ficava esperando passar um de cada ala, para a gente ver a ala que era mais bonita, que elas caprichavam. O Império Serrano foi a primeira escola a botar prato e agogô. O prato era o falecido Calixto, João Calixto, que era Polícia Federal, marido da Olegária, que foi a primeira destaque, que mora na Ilha do Governador, ainda está aí, viva. O meu irmão veio, Caobi, que faleceu há muitos anos, mais velho… Ele veio como destaque de Peri e a Olegária de sinhazinha Ceci, por quem o Peri se apaixonou… O Guarani, me lembro bem, homenageando Peri e Ceci. Eu me lembro que o maestro Peruzzi, quando viu a gente, o Império com essa beleza, o samba bonito, um tipo de valsa, ele botou em valsa, ficou bonito à beça. Como era?

Homenageando
Ao derrotado Peri
Tendo lutado com a onça enfurecida
Pra ofertar a seu amor

Com risco da própria vida
Amor que nasceu sem vaidade
E seria levado pela tempestade
Procuramos homenagear

Olha a história!

A José de Alencar
Evocando seu passado de escritor
De ricas obras foi autor
Exaltamos o Guarani

Que é inspirado no amor de Peri
Pela fidalga Ceci
Que é inspirado no amor de Peri
Pela fidalga Ceci

Lá-lá-lalaiá
Lá-lalaiá
Lalaiá-laiáraiá

Assim Carlos Gomes, célebre maestro
Musicou O Guarani
Homenageando ao devotado Peri

Tendo lutado com a onça enfurecida
Pra ofertar a seu amo
Com risco da própria vida

E a gente dançando valsa.

Amor que nasceu sem vaidade
E seria levado pela tempestade…

Depois chegou Silas de Oliveira, que já era, também, fundador. O pai de Silas de Oliveira, Seu Assumpção, foi um dos primeiros professores de fundo de quintal na Serrinha, ele dava aula para as crianças, ensinava a aprender e a ler. Silas veio, naquele ano, 1964, com a… Que eu canto, que o pessoal pede:

– Balbina, canta!

Aquarela brasileira. Antigamente não tinha gravadora para escola de samba, não tinha nada disso, a gente que cantava mesmo, no meio, eles traziam o papel para a gente ler. A gente, que tinha voz, que era conhecida deles, ficava com eles, no meio da quadra, jogando o samba para eles aprenderem. Era a falecida Elaine[3], minha prima, mulher do Silas de Oliveira, que a minha família, as mulheres quase todas cantam, têm voz. A Elaine, esposa dele, eu, tia Eulália – ela era mais de idade, mas sempre teve harmonia na voz, ela tinha aquela voz boa, bonita –, a gente ficava cantando, com eles, a bateria baixinha para as pessoas aprenderem o samba, primeiro. Depois é que a bateria subia. Eu me lembro, Aquarela brasileira, era um samba grande, não é? Então era com papel. Como é? Está vendo a minha cabeça? A doutora manda puxar. É assim… Passeando, vastos seringais… Timbó…

Estava no Ceará, terra de Irapuã
De Iracema e Tupã

Fiquei radiante de alegria
Quando eu cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia do candomblé

Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
À festa do frevo e do maracatu

Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura

Olha que cabeça!

Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do Leste, por todo o Centro-Oeste

Era eu, e a mulher dele, e minha tia!

Tudo é belo e tem lindo matiz
O Rio dos sambas e batucadas
Dos malandros e mulatas
De requebros febris

Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul anil

Emolduram em aquarela o meu Brasil
Lá-lalalaiá / lá-lalalaiá
Vejam, esta maravilha de cenário

Ele bebia…

É um episódio relicário

Mas tinha cabeça!

Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este Carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela

Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
E no Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó…

Ah, bonito pra caramba! E ele bebia cachaça! Ele com a caixinha de fósforo, era ele e Mano Décio, mas aí já tinha polêmica, também. Porque os compositores, se são bons, querem um fazer melhor que o outro. Silas sempre foi humilde, muito humilde. Por isso, Deus deu essa grandeza a ele. E os outros que ficavam, era aquele despeito!

– Hmm, professor…

E eu:

– Professor mesmo!

Eu discutia.

– Professor mesmo, ele é o melhor!

Ha-ha! Tanto ala como compositor, tinha disputa. Porta-bandeira era Jacira, minha prima também, filha da minha tia Conceição. E essa não gostava de samba, minha tia Conceição nunca gostou, nunca foi. Era Jacira, Josélia, filha da tia Eulália, Irani, filha da prima da minha avó. Eram as três porta-bandeiras. Everaldo foi o primeiro mestre-sala, com Culinho, e o outro terceiro eu não lembro. Ih, o Império era muito bom, escola de samba era muito bom! E a gente lá, toda arrumada, bonitinha. Ah, e eu gostava:

Não foi Portela quem anulou…

Ha-ha! O Império foi bom, foi a escola que limpou, e aqueles estrangeiros que vinham para ver, subiam… E foi melhorando. Porque era uma bagunça, escola de samba! Eu tinha 10 anos, e o pessoal falava, os maridos não deixavam as mulheres saírem, não. Os maridos casados, as mulheres não saíam, eles não gostavam, só se saísse com eles. Assim mesmo, era aquilo. Porque antigamente a mulher não trabalhava fora, a mulher casada, o homem tirava logo, não podia trabalhar. Só quando elas tinham peito, mesmo. Mas o homem era assim. Agora não, que a mulher agora é “liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”! Ha-ha! Mas é, menina, e o Império está aí, nós estamos aí na luta, para ver o que é que vai dar, não é?

Fui trabalhar na Companhia Fiação do Rio de Janeiro, na Borborema, aos 14 anos, com carteira assinada, quando eu morava com meu tio, que foi quem me tirou do colégio interno. Mais tarde fui para o SENAI, na São Francisco Xavier, para o curso de Artes e Ofícios. Dali eu saí, me casei com 20 anos, Jussara nasceu. Casei, vim morar com minha sogra em Irajá, meus dois filhos já tinham nascido. Depois meu tio comprou uma casa, lá na Ministro Edgard Romero, na escadinha, em frente à Serrinha, descendo. Quando eu fui embora daqui, separada, meu marido morreu do coração. Jussara tinha 7, Jucemar, meu filho, tinha 5 pra 6. Enquanto eu estava lá, eu já não estava com as crianças, trabalhava em casa de família.  Na casa da professora, em Ipanema. Aí fiz minha casa no alto do morro, na Serrinha mesmo, onde eu nasci. Fiz minha casa onde o Império Serrano tinha a quadra, no nosso terreno, da minha avó e do meu pai. A quadra do Império caiu, minhas tias fizeram a casa lá, para alugar, eu apanhei o pedaço que era do meu pai, fiz a minha casa.

Ali foi que eu fiz a prova para a Prefeitura, passei, fui trabalhar na Secretaria Municipal de Saúde. Graças ao colégio de freiras, eu e minhas irmãs aprendemos muito. Está aí: sou funcionária pública do município, fiz concurso, não entrei pela janela com vereador nenhum! Eu fui pro Maracanãzinho, sentei lá, na época que passou a ser Estado da Guanabara, com Carlos Lacerda, primeiro Governador, quando o Distrito Federal, capital da República, foi embora. Muita gente era federal, aqui, e foi para Brasília. Aqui ficou sem funcionário, então eles abriram o concurso, a inscrição. Eu fiz. Também, minha filha, corri atrás, que eu sou danada! Passei com nota boa, e tinha gente à beça com nota menor do que eu entrando. Mas eu falei:

– Tem gente aí, que tirou uma notinha, ó aqui quanto eu tirei.

Era 9 vírgula não sei quanto.

Ah, e quase esqueci da santinha. Pensão antigamente era difícil, levava anos, custava. Era IAPI, IAPTEC, IAPC… Meu marido era IAPC, comércio. Custava a sair, e eu trabalhava em casa de família. Um dia, lá na Serrinha, tinha um moço que tinha Nossa Senhora de Fátima, um rosário de Fátima, ele fazia a procissão… Era na Rua Operário Sadock de Sá, em Madureira, mas ele passava pelo bairro todo. Naquele dia eu tinha feito a prova, tinha passado, mas não me chamavam, tinha gente entrando com menos nota do que eu.. O pessoal com a procissão, eu com aquela fé, eu falei, eu cantava também, porque eu sei as músicas da igreja, da época do colégio. Nossa Senhora passando, ele tocando aquela música bonita, aquela banda de música, aquele pessoal, a procissão, eu falei

– Minha Nossa Senhora, eu preciso de um emprego seguro! Eu tenho minha filha, meu filho, eu preciso desse emprego!

Eu trabalhava em casa de família, depois que eu tive os dois, que o casamento acabou… Sempre eu pensei nos meus filhos. Comecei a cantar, a banda de música tocando, me deu aquela coisa, ele tocando:

Virgem mãe, Aparecida

Nossa vida e nossa luz

Dai-nos sempre nesta vida

Paz e amor

Oh, paz e amor no bom Jesus…

Eu ainda soltei a voz – agora estou com problema na garganta. Eu cantando com aquela fé, rezando: “Ai, minha Nossa Senhora, me ajuda, amanhã eu vou lá, para ver isso!” De manhã, quando eu acordei, que me deu aquela coisa, pensei “Vou lá!”. Me arrumei e fui. Menina, tudo foi aberto para mim! Eu trabalhava em Copacabana, falei a história para a minha patroa, para sair cedo, ela:

– Vai, Balbina, vai!

Eu saí de Copacabana para ir para lá. Tudo se abriu, as portas, até o contínuo:

– Não entra aí, fica aí, faz de conta que você já estava…

O expediente já estava acabando, só quem estava dentro seria atendido. Eu entrei, falei com a chefe. Contei, conversei com ela:

– Eu quero trabalhar não é por vaidade, não, eu tenho dois filhos, meu marido morreu, tô viúva há tanto tempo com dois filhos.

Ela na mesma hora ela chamou o contínuo:

– Vem cá, Celino.

Era ele que tinha me deixado entrar.

– Vem cá, olha os documentos dela todinhos, você manda bater tudo, passa pra ela o dia para ela fazer exame.

Botou para eu fazer exame médico, marcou tudo, aí as portas se abriram. Foi Deus. Que felicidade, menina! E entrei ganhando gratificação, nem todo mundo ganha lá. Todo mundo, o pessoal:

– Balbina, você trabalha no gabinete do Secretário de Saúde?

E eu:

– Ah, foi Deus, minha filha. Fiz concurso e não me chamavam, e os outros entrando, pedi a Deus, Nossa Senhora Aparecida, Ele me ajudou.

Fui trabalhar na maior Secretaria! Departamento financeiro da SUSEME, Superintendência de Serviços Médicos, lá na Presidente Vargas, como é aquela rua do Castelo? Sem ser a Presidente Vargas, no Castelo, aquela do Piranhão. Rua Afonso Cavalcanti… Eu inaugurei aquilo! Eu trabalhava no Andorinha, o prédio que pegou fogo, na Rua Graça Aranha com a Almirante Barroso. Ali era a zona, era baixo meretrício. Aí quando construíram o prédio da Prefeitura, nós botamos o apelido de Piranhão! Nós fomos para lá:

– Vou trabalhar no Piranhão!

E é conhecido até hoje como Piranhão. O prédio de trás, do PREVI-RIO, é Cafetão. Eu levava os processos para lá, arrumava tudo, trabalhando no Piranhão, 914.

E outra coisa que as pessoas não sabem: eu sou do tempo da Ditadura, da Revolução! Quando eu saí da fábrica, da Companhia Fiação do Rio de Janeiro, enquanto eu não arrumava emprego, fui trabalhando em Ipanema, Leblon… Eu trabalhava nos melhores lugares da Zona Sul. Em certos lugares eu não gostava de trabalhar, mas eu ia, trabalhava pela agência de emprego. Eu ia lá, eles me conheciam, tinham meus documentos todos, faziam o levantamento, para ver quem é a pessoa. Eu só trabalhava em casas assim. Trabalhei na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, no prédio do lado do palacetezinho de Humberto Castello Branco, antes de ele ser presidente. Ele muito calmo… Eu passava, muito mocinha, bonitinha – estava viúva, mas bonitinha, que eu fiquei viúva com 25 anos – ele debruçado assim, eu descia do prédio onde eu trabalhava, no apartamento do Dr. Ivan, um grande advogado, na Nascimento Silva com a Garcia D’Ávila. Eu passava muito levada, ele brincava comigo:

– Já vai, escurinha? Vai pra onde?

E eu:

– Ah, vou lá pra a Praia do Pinto, cantar pagode!

A Praia do Pinto, na Lagoa, ali. Por isso que eles tiraram a Praia do Pinto de lá, era na Lagoa Rodrigo de Freitas. Cortava a Garcia D’Ávila e a Nascimento Silva. Eu ia pro pagode na Praia do Pinto, Cruzada São Sebastião. Dom Helder Câmara foi quem lutou para fazer e botou o nome de Cruzada São Sebastião, que as pessoas não queriam que a CEHAB (Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro) e o BNH (Banco Nacional da Habitação) fizessem os apartamentos… Eu sempre fui assim, eu fui criada em colégio de freira, eu queria aprender tudo, queria saber tudo. Aí ele lutou, porque os riquinhos não queriam a Cruzada São Sebastião, não, porque era pobre que vinha da favela, ali da CEHAB. Dom Helder Câmara era Arcebispo da Cidade do Rio de Janeiro, ele lutou muito, aquele homem, para o pessoal da Praia do Pinto. Esse pessoal que depois veio aqui para a Avenida Brasil, cidade alta, era tudo da Zona Sul. Aí o homem fez os apartamentos e disseram que tinham que vir pra cá, para cima. Era ali.

Dia 31 de março foi a Revolução de 1964, não esqueço nunca. Ficou a Ditadura, o povo saía para a rua, aquele caminhão do Exército, no Castelo, eles vinham assim, o povo pelas galerias, por baixo dos prédios, o povo vinha gritando, eles jogavam o povo para correr, o povo jogava troço no caminhão do Exército, era lá, a gente lá de cima olhando isso. Assistia tudo. Daqui a pouco o Exército está pela outra galeria, na Cinelândia. E o pessoal gritando para acabar a Ditadura. O Exército tomava tudo. Aí a gente ficava lá de cima olhando:

– Ih, o caminhão do Exército!

A gente vendo, daqui a pouco vinham os estudantes da faculdade, tudo. Eu ficava lá de cima vendo, e quando a gente descia:

– O trem parou!

O trem parava:

– Ai meu Deus, como é que a gente vai para casa?

Era! O trem parava, a Central do Brasil, o povo quebrava, o Exército na rua. E estava a polícia do Exército, que vinha nas casas para apanhar as pessoas… Para ser preso. E o pessoal brigando, saindo na rua, no Castelo, Cinelândia… Lá, porque tinha muita faculdade… Ih, fábrica parava! Eu acompanhei tudo isso, que eu trabalhava no meio… A Ditadura terminou… Não podia falar nada não. Governo militar, Castello Branco foi levado para assumir Brasília.

Naquele dia eu não dormi, que a gente morava do lado, a gente no quarto dos empregados, a gente via na calçada dele a polícia do Exército, ninguém passava na calçada dele, tinha que ir por baixo. Eu:

– Ih, o cabeção tá todo policiado!

A minha colega, Romana, que era empregada do Castello Branco, ela foi lá me abraçar, falar com a minha patroa, Dona Maria José, que ela foi junto para Brasília… Ela era do Norte, uma escura, não tinha família aqui, não. Veio e…

– Balbina, o vôo da gente já está marcado para ir para Brasília.

Daqui a pouquinho vinha o pessoal da Cruzada São Sebastião, fazendo festa. Eu vi tudo! Aquela que hoje é igreja era o cinema na Praça Nossa Senhora da Paz. Quando ele foi embora, no carro, acenou para a gente. Aí eu digo:

– Romana agora está bem…

Mas morreu, não é? Como é que ele morreu, foi no avião? Na Serra das Araras, não foi? Todo mundo morre ali. Roberto da Silveira, Governador, não sei se o avião caiu ou se foi o carro. E o Castello Branco também foi avião. Eu fico: Hmm, Getúlio Vargas deu tiro – mentira! Deram tiro nele. O que é que há? O Repórter Esso, a gente escutando, aquele debate no rádio, não tinha televisão, não. Aquele rádio lá em casa de tio João, que foi o primeiro presidente do Império Serrano, João Gradim, estivador do Sindicato, genro de Seu Elói. A gente escutando, Carlos Lacerda atacando muito, atacou muito! Ele era muito guerreiro, mas a gente não esquece. A gente escutando, naquela noite, ele:

– Quando Getúlio sair, tem que lavar o Palácio com aguarrás!

Foi por isso que ele nunca ganhou eleição. Eu era novinha, mas eu era envolvida, porque eu fui do colégio interno, tinha que ver tudo. O Cais do Porto inteiro era Getúlio Vargas, foi ele que resolveu tudo do Cais, para melhorar a situação… Todo mundo escutou. Outro também, que brigava com Getúlio, era Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando era eleição a gente saía pro Getúlio, Eduardo Gomes nunca foi eleito. Ele era racista, de pobre e de negro. Negro não votava nele, o pessoal:

– Vota no Brigadeiro!

Mas Getúlio ganhava de lavada, de montão. O Brigadeiro também massacrava o Getúlio, que era um homem humilde. Mas aquele suicídio do Getúlio eu não engoli nunca!

A gente estava trabalhando, na fábrica, na Borborema… Ele foi o homem que nos deu maior direito, ao trabalhador. A fábrica de tecidos é barulhenta, ela tem várias máquinas, com vários movimentos. E os barulhos são diferentes. Eu trabalhei na fiação, dobração e maçaroca. No SENAI, eu aprendia todas as máquinas, qualquer máquina que faltava alguém eu cobria, porque eu sabia trabalhar em tudo, eu era profissional. Eu me lembro, eu novinha, a gente trabalhando, escutando aqueles negócios de política, aquele Gregório, segurança do Getúlio, e a gente trabalhando triste por causa dessa coisa… Daqui a pouco o rádio tocando:

Tararará-tará

Tarárarará-tarárarará-tarárarará-rará

Tá-tá-tá-tá-tááá

– É com tristeza que nós levamos ao Brasil a triste notícia: acaba de suicidar-se, no Palácio do Catete, o Presidente Getúlio Dornelles Vargas.

Ahh! A fabrica parou. O barulho foi assim, estalou. O pessoal chorava, a gente desesperada na fábrica. Getúlio foi o pai dos pobres, o resto foi conversa fiada! Passei por eles todos, Getúlio, Dutra, Café Filho, quem mais? Passei por mais. Eu digo de votação, depois vieram esses homens que os militares botaram, mas que nós botamos foram esses. Juscelino Kubitschek, também morreu de desastre. Não é estranho? Eles morreram de desastre, de tiro, se matou, matou nada! E ninguém investigou…

Agora uma coisa, que eu estou me lamentando, é que o povo brasileiro está muito, como é que a gente fala? Aceitando tudo, agora. Não pode ser assim, não, tem coisa que a gente tem que botar o dedinho da gente, porque depois que a gente quiser botar o negócio está formado e firme. Você vê aí, Cuba! Que país horrível! A gente vê um programa aqui, no canal 13, que programa bom. Eu não fico só vendo besteira não, passa coisas do mundo inteiro. Gente que coisa horrível, isso é bom para o pessoal não ficar falando que comunismo… Que tristeza, meu Deus, para comer tem fila. E outras coisas piores! Eu digo para as pessoas verem canal de instrução, não ficar vendo só bunda. Gente, mas Cuba dá pavor, e eles ficam com Fidel Castro, adorando… Como é que é, Jussara? Com caderninho para comer! Menina, eu fiquei assim! Agora ficar vendo dança da bundinha… A Ditadura não foi tanto, Ditadura é aquilo lá! Tudo racionado. Nem água quente, luz, um frio… Meu Cristo Redentor, e depois ficam dizendo que é bom. Tem que ver esse canal, canal 13, mostra África… Eu trabalhei bem durante a Ditadura, entrei em 1967, minha filha está bem, minha neta… Ela também te ensina. Viver, você tem que ser assim, você tem que dar o teu exemplo, se eles não quiserem, aí o problema é deles.

Ah, mas a vida é assim, minha filha, o Império foi isso. O Império Serrano era muito bonito, e a gente cantava muito. Tinha harmonia! O diretor de harmonia exigia e a gente cantava onde a gente chegava, e o Império foi crescendo mais ainda, vindo gente de fora pra sair no Império por causa do capricho e da moral. Antigamente era a Tia Eulália que botava ordem… Ih, mas por causa de namorado tem sempre briga de mocinha, não é? Uma quer bater na outra, quando a gente é mocinha… Ela botava a gente de castigo, a gente era suspensa. Teve um ano que eu briguei lá dentro, briguei assim. Ela disse que eu não ia poder ir, que àquele ensaio eu não ia… Eu digo:

– Não vou não, é? Não vou não?

Saí um ano na Portela! Fui para a Portela, que era inimiga. Que eu tenho meus amigos, lá, também. A Portelinha era umas duas ruas depois da fábrica de tecido, Borborema, ali. Minhas amigas, que trabalhavam comigo, umas eram Portela, e a gente ia aos pagodes na Portelinha. O Portelão, que veio depois, era a garagem do ônibus Madureira – Tiradentes, linha 355. Ih, eu não saía lá da Portela. Eu estava sozinha, namorava o Dinho, da bateria da Portela. Mas foi isso, e o Império foi isso, era moral. Tia Eulália não gostava. Mulher que ficava xingando palavrão, bebendo demais, Fuleiro chamava atenção:

– Menina, Dona Moça!

Dona Moça, ele chamava.

– Dona Moça!

Quando a gente estava fazendo qualquer coisa errada. Foi isso, o Império. Seu Elói Antero Dias era genro do tio João, pai da minha tia, que casou com tio João, ele foi um dos fundadores do Sindicato do Cais do Porto, dos estivadores, presidente do Sindicato, ele também era Império. Morava perto da Portela, criando os filhos, mas ele era Império. Ele foi um, também, que ajudou muito a fundar o Império Serrano, ele adorava meu tio, genro dele. Foi Seu Elói Antero Dias, João de Oliveira, Mestre Fuleiro, Molequinho, Seu Zacarias… Seu Zacarias morava aqui, nesta rua. Lembro bem. Manolo, era avô daquele menino que era diretor de bateria do Império que este ano não saiu. O Átila! Todo mundo, eu conheci tudo através do Império, porque a minha família fundou, onde eu nasci, saiu lá de cima, porque vai melhorando e a quadra caiu, nesses temporais que vai dando nos barrancos do morro, caiu a quadra.

Aí o Império ficou ensaiando no Madureira Tênis Clube, ali ao lado do Distrito de Madureira, antigamente tinha, agora não tem mais. Depois foi que fizeram o Mercado de Madureira. Só o Império ensaiava nesse lugar, porque o Tênis Clube era metido, não entrava preto, nem gente pobre, a maioria de brancos, e brancos de situação. Só o Império Serrano ensaiava lá, a gente bem arrumado, aquilo bonito, sabe? Só o Império Serrano. Moacir Cabeça Branca, que morreu do coração, foi quem botou o Império dentro do Tênis Clube, para ensaiar, ele foi também presidente… Eu digo: lembraram do Império e esqueceram o Moacir, que também lutou muito para o Império ficar lá naquela quadra, era o Mercadão de Madureira, aquilo sujo. O Império conseguiu, estava sem quadra, o administrador de Madureira, não lembro o nome dele – antigamente tinha prefeitinho, administrador. Moacir, como a família dele foi uma das primeiras do Mercadão de Madureira, também ajudou, senão o Império não teria lugar para ficar. Na Ministro Edgard Romero, no Hotel Omaha, ali era uma casa velha, o Império ensaiou naquele quintal, ficou sem quadra, aí depois que fez o Mercadão.

E outra coisa, aquele viaduto ali, Negrão de Lima, não ia ser Negrão de Lima, quando começou a fazer. Ia ser Salomão Filho. Diz que Madureira era aquela Madureira ruinzinha, ainda é, mas não era como agora. Antigamente tinha muito gringo, o nome desse era Salomão. Vendia ouro, naqueles tempos que vendiam ouro na porta, batendo a palma assim, e com aquele sotaque:

– Madame! Quer comprrare?

E o pessoal em Madureira com aquele ouro, aqueles cordãozão, eram os gringos, Abdala, o pessoal botava apelido naqueles gringos, e eles vendiam fazenda:

– Vai comprare? Pagare quatro vezes…

Em algumas famílias as mulheres não pagavam, coitados. Vendia aquele ouro, e elas não pagavam: quando ele chegava na porta para cobrar, mandavam as crianças dizerem que não estavam, que estavam doentes, que estavam no hospital, no hospício, se fantasiavam de malucas, eles corriam! Era, Madureira tinha isso, elas com o cabelo em pé e eles corriam, coitados. Olha, os gringos sofreram muito, hein? Sofreram muito naquela fase em Madureira, elas diziam que estavam malucas e botavam os gringos para correr. Compravam ouro, roupa de cama, não tinha cartão, não tinha prestação, aí as mulheres compravam dos homens até ouro, aquele ouro bonito… Coitados dos gringos.

Aquelas lojinhas todas, ali, eram de gringo, depois do Mercado. Ali na Rua Conselheiro Galvão, ali na esquina, eu me lembro bem, a família Duba era dona de quase todos aqueles armarinhos de Madureira. José Duba. Eu digo, eh, Madureira? Ninguém me engana não, José Duba foi presidente do Madureira Atlético Clube… Aquilo tudo é da família Duba, até lá embaixo, passando o Mercado na Rua Conselheiro Galvão, onde é o Madureira Atlético. José Duba era dono de fazenda, tudo de gringalhada. O pessoal chamava o viaduto de Salomão Filho. Eles que lutaram, essa gente, para Madureira melhorar, não tinha viaduto! Os ônibus iam lá pela Rua Oliva Maia, lá por dentro. Para ir para Jacarepaguá e Cascadura, tinha que ir pra lá para poder pegar do outro lado de Madureira, ou então lá para Bento Ribeiro, onde tinha cancela.

Carnaval não era esse luxo, era aquela vontade, gosto. Agora é para aparecer na televisão, é mulher botar a bunda com fio dental, rebola, aquela mulher que está rebolando é que eles pegam bem, não é como antigamente. Parece até que a gente está indo para o matadouro dos bois. Não vejo nada naquilo, um lugar horroroso, tudo bem que eles fizeram para ganhar dinheiro, né? Eu não acho graça naquilo. Eu vou porque eu sou Império e a minha voz faz falta. A escola de samba, não pensa que é só roupa bonita e bunda, não. É harmonia, a pessoa cantar. Porque se você passar e não cantar, de quê que adianta? Então eu vou, eu digo, eu vou, mas esse ano eu também já não estou muito, por causa da artrose, eu tenho que operar e está doendo muito. Eu já estou cansada, também. Depois de 73 anos, eu já fiz tudo. Tudo que Ele me deu foi muito bom para mim. Mas a minha força de vontade, Ele me deu força! Fiquei viúva com 25 anos, tive dois filhos…

Ah, a mulher que tem muito filho, eu não sei por que, que essas mulheres são malucas! Já tinha isso tudo, tratamento, tinha remédio para você não ter mais, não sei por que encher a casa. Minha mãe teve 11! Eu fiquei traumatizada. E morreu novinha. Mas a pobreza, de antigamente… Eu digo pro pessoal que nós agora não somos pobres! O pobre agora tem tudo, aquela época não tinha nada, gente! A minha mãe com 11 filhos e não tinha tratamento para não ter mais! Eu jurei que eu não ia ter, eu não ia ser igual à minha mãe. Eu tenho revolta até hoje, não gosto quando eu vejo mulher cheia de filho. Cruz-credo… Gente, agora tem coisa para você não encher a casa.

Agora o pobre tem mais posse. Tem escola pública, tem médico, antigamente não tinha! Pobre era pobre de marré deci, com diz aquela música. Tinha casa que não tinha rádio na minha época. Casa, agora, é telha de alumínio; antigamente era telha de zinco. O pobre, se ele souber levar a vida, nós que trabalhamos, nós que temos emprego, direitinho, se você souber levar a sua vida, prestar atenção na hora de trabalhar com o dinheiro, você não fica mal, não. Eu nunca ganhei rios de dinheiro, não. Eu sempre procurei trabalhar bem com meu dinheiro, não gastar meu dinheiro em besteira, eu sempre falei isso, ainda digo um palavrão: eu não vou trabalhar para comer e cagar, não. É assim que eu digo. Aí trabalha, compra comida… E na minha casa não faltou comida, mas você tem que saber tudo direitinho, como fazer.

Eu fui para o conjunto Votorantim, ali perto da Serra do Mendanha, subindo depois da Vila Kennedy, na Avenida Brasil, na CEHAB. No meu conjunto só tinha polícia, funcionário público, dos Correios, não tinha bagunça, não. Eu vendi por causa do meu filho, ele dá muito trabalho, eu não podia ficar lá sozinha, e tudo da gente é no Irajá, os dois nasceram aqui… Eu fui para a CEHAB. Aí quando aconteceu o acidente com ele, ainda fiquei uns tempos lá. Ele tinha 25 anos, agora está com 51. Eu, aí, vim-me embora. Mas nunca deixei de pagar a CEHAB. Para você ver aí, como o dinheiro, para quem tem juízo, cresce. Depois que aconteceu isso aí com ele, foi que eles me transferiram para eu ficar mais perto de casa. Fui trabalhar no posto de saúde lá do Mendanha. Perto da minha casa, e tinha redução de carga horária.

Eu trabalhava dia sim, dia não. E eu nunca ganhei muito, mas sempre tive. Meu apelido era arquiteta na CEHAB.

– Chegou a arquiteta!

E eu:

– Não, não quero assim, não! Minha casa eu quero assim.

Eu gosto de casa modelada, tudo sou eu. Agora, tem gente que já não gosta de pagar, é por isso que vive sempre enrolado. É o que eu digo: gente, o banco manda até coisa aí, para a gente apanhar empréstimo, se quiser… Mas é isso, a gente tem que ter aquela moral; mas não, quer ficar na bagunça bebendo, eu digo, eu posso beber, eu bebo minha cerveja, eu não gosto de dever a ninguém. Tudo direitinho, minha casa. Fui passear, passeei, minhas tias têm casa em Sepetiba, eu ia para lá… Sabe o que é que eu fiz? Fui passear, aí estou vendo o pessoal loteando um terreno, levando o povo para ver. Eu lá, vou ver um terreno aí. He-he. Fui lá na casa da minha prima, do meu colega, que morava lá e faleceu também, um grande amigo meu. Falei assim para o vendedor:

– Gostei desse terreno, vou comprar esse terreno.

E ele:

– A senhora vai comprar?

– Eu vou vir aqui amanhã, comprar esse terreno.

Comprei, em Sepetiba. E fiz minha casinha, também em Sepetiba. E a de Campo Grande eu vendi. Gente, é bom andar limpo, andar direita. Se você for mau pagador numa coisa, você vai ser sempre, você não vai ter responsabilidade com nada. Eu pagava colégio dos meus filhos, ganhando pouco, meu marido deixou um salário mínimo. Nunca fiquei devendo a ninguém, é a primeira coisa que a gente fala aqui em casa: pagar as dívidas, primeiro. Essa casa quando eu quiser eu vou, digo que é a minha lama, porque em Sepetiba está tudo poluído, a praia, mas eles estão botando os esgotos, trabalhando, sabe? Mas eu sento, que tem seresta lá, os vizinhos são amigos, é bom… Aí, depois que eu vim para cá, tornei a vir, fiz o espaço do meu filho ali, e minha filha aqui. Eu?! Por isso que a minha pressão é 12 por 8. Ah, vou sim, vou para Sepetiba. Fiz meu barraquinho lá, mas aqui vendi o de Campo Grande, porque são dois andares e terraço. Ih! Que eu digo: gente, presta atenção, hein? Pouco dinheiro, se você souber, você segura. E nunca andei molambenta. Tenho tudo que eu quero. Eu sou Balbina, eu digo: não, eu hein?

Quando eu era criança, minha filha… Os médicos, psicólogos, com quem eu trabalhava na administração, eles falam que a gente em criança, quando escuta coisas, sente, traumatiza. Uns não, uns pegam aquela ofensa pro bem, não é? Você aí aprende: “eu vou mostrar que eu não sou aquilo”. Eu sou assim, bato meu pé, assim. Eu quando era criancinha, minha mãe me deixou com 12 anos, meu pai com 5. Depois a gente vai para ficar com tios, ou alguém… Eu escutei muita coisa, eu tive humilhação represada. Tio não é mãe, nem pai. São poucos tios que amam aquele sobrinho que é órfão de pai e mãe, que se faz pai, que se faz mãe pra eles. Sempre tem uma coisa que eles soltam.

As crianças todas gostam de mim. Eu digo, deixa meus melequinhos! Ah, mas eu gosto deles. Nunca se diz uma coisa que vai machucar uma criança, pelo amor de Deus, mas eu tive isso. Aí eu jurei, meus filhos não vão ouvir isso! Deus vai me ajudar. Quando eu fazia, assim alguma coisa errada, ouvia… Minha tia Neném, madrinha da minha filha, me ensinou muita coisa boa, quando me chamava a atenção, que eu fazia alguma coisa errada que eu não sabia, eu era inocente. No colégio você é inocente, no meio de meninas, de freiras, a gente não sabe nada daqui de fora… Mas a outra, não sei se por ignorância, casada com meu tio, morava na frente, e vinha, que elas se davam. Quando minha tia estava brigando comigo, meu Deus, Jesus – eu converso com Deus –, o Senhor sabe a dor que a pessoa sente. Eu com 14, 15 anos, trabalhando. Cheguei, o emprego estava me esperando na Rua Borborema, Companhia Fiação do Rio de Janeiro. Eu trabalhando, eu não ganhava mal, não, que eu estudava no SENAI, estava como profissional, tinha as que não eram, que iam limpar chão.

– Ah, isso é gente que não tem onde cair morta.

Que a gente não tinha pai, não tinha mãe. Minha mãe não deixou, tinha a casa lá em cima, que era do meu pai, mas ninguém queria ficar lá em cima, que era alto do morro. Só as mais, que precisavam mesmo, ficavam lá em cima. Eu ouvi muito isso:

– Vocês não têm aonde cair morta.

Eu jurei que ia me casar, mas se eu tivesse filhos, eles não iam ouvir isso! Eu tinha um ódio, fiquei traumatizada. Eu recebia por quinzena: uma quinzena era minha, uma quinzena era da casa. Lógico que eu estava comendo, vivendo, e a tia Neném me ensinou logo no primeiro pagamento. Eu nem sabia o que é que era Caixa Econômica Federal, não conhecia, e na Caixa Econômica de Madureira ela me ensinou a abrir caderneta:

– Quando você tiver o seu dinheirinho, o que sobrar, você bota aqui. Aqui teu dinheiro vai ter juros…

E eu andava com paletó de visom. Paletó de visom é aquele de pele, francês, só gente que tinha dinheiro, madame, é que usava. Eu andava bem vestida, eu era uma das mocinhas mais bem vestidas do Império e lá de Madureira, Serrinha. Eu via modelo, aquela loura, Marilyn Monroe, sei lá. Aquele paletó de pele… O pessoal do Sindicato do Cais do Porto, os estivadores, ganhavam bem. Naquela época, todo mundo queria namorar os homens do Cais do Porto, em Madureira. A minha tia tinha, o marido dela, elas iam para a festa, na estiva, no Sindicato, elas botavam aquele paletózão de francesa, e eu botava meu bolerinho. Ha-ha, bonitinha! Aprendi a poupar. Foi minha tia, Neném, mulher do Tio Molequinho, que me ensinou a poupar. Nunca mais eu deixei de ter uma cadernetinha, tive todas. Ha-ha! Já saí da Caixa Econômica Federal, já tive BANERJ, Unibanco, aquele Banco Nacional, tudo!

Quando eu trabalhava na Graça Aranha, no 10º andar, no financeiro da SUSEME, eu dizia:

– Olha, meu serviço tá todo prontinho, eu vou lá em baixo, vou resolver um problema lá embaixo.

Aí eles ficavam todos lá, na janela, quando eu descia do prédio:

– A portuguesa preta já vai!

Eu caía de rir. Meu chefe me chamava de Bibi, falava assim:

– Onde cê vai, hein? Eu acho que você não é Bibi, você tá com a portuguesa preta!

Sabe o que é que eu fazia? Eu ia lá no BANERJ aquele central, eu conhecia gerente, todo mundo, que eu trabalhava há muito tempo, recebia lá também. Eu chamava o gerente, naquela inflação que engolia o nosso dinheiro.

– Vem cá!

– Senta aqui, Bibi!

– Vem cá, se eu botar tanto na caderneta, este mês, vai dar no mês que vem quanto, hein?

Aí eles calculavam lá, na máquina, que não tinha computador, e eu lá, aí eles diziam… Eles me conheciam porque eu era da saúde, era Estado naquela época, a Prefeitura veio depois da fusão do Estado do Rio de Janeiro, que passou a ser Estado e Prefeitura, antigamente era só Estado. Eu trabalhava no departamento financeiro e depois fui para licitação, que é onde se compravam as coisas para hospitais, tudo. Ele vinha, eu ganhava gratificação:

– Minha gratificação eu vou aplicar.

E ele:

– Aplica, Bibi, que vai dar tanto em cima dela!

Ah, eu botava meu dinheiro lá, o dinheiro que sobrava… E eu dizia para eles, eu tenho sangue de português mesmo, eu tenho, da África portuguesa, meu avô era filho de angolano! Angolano gosta de dinheiro. Olha, o pessoal ria.

– Bibi, quanto foi a inflação?

– Ele disse que a inflação desse mês subiu não sei quanto, meu dinheiro rendeu não sei quanto!

Fazia, ainda faço, ainda fico assim com a Jussara. Décimo terceiro agora, a gente vai receber em agosto, metade. Eu já estou assim para ela: bota lá, a metade. Foi assim que eu nunca mais pedi dinheiro emprestado a ninguém. Hmm, aprende a viver com pouco dinheiro, gente! Eu aprendi. Ainda comprei meu terreno em Mauá, Magé. Comprei outro terreno lá. O pessoal:

– Olha lá, a portuguesa preta!

Eu ria muito com eles. Agora todo mundo se aposentou, até o meu chefe. Nem Oswaldina, que era da OAB, eram as secretárias da OAB. A gente tem que fazer isso, minha filha, aprender a lidar com pouco dinheiro. Eu vejo gente aí, que recebe um dinheirinho, troca o móvel! Eu não vou trocar móvel nenhum, eu compro móvel bom… A minha estante ali, a minha neta Ana Paula não tinha nem nascido. Eu morava na Vila da Penha. Está aí, bonita, aquela estante.

Eu sou espírita e sou católica. Sou católica por causa do colégio interno. E ajudo as minhas criancinhas, ajudo no que eu posso, na Rua César Zama, no asilo das velhinhas, lá no Lins, a gente levava tudo… Eu dôo pro Instituto Nacional do Câncer, para os cegos, aqueles meninos de Olaria, os meninos vêm aqui buscar todo mês, por quê? Porque Deus me ajudou, me deu força. E Deus me deu força, quando aconteceu isso com meu filho, foi uma coisa terrível… Foi acidente de carro. Uma coisa terrível. Eu não desmaiei, não gritei, eu fiquei assim, mas Deus me dando aquela força:

– Vai, Balbina, vai!

Porque tem mulher que desmaia, não vai nem ver, né, coitadas. Deus me deu. Isso que agradeço muito a Ele, eu não vou a igreja nenhuma não. Eu digo: Deus está no coração da gente, não é em igreja. Muita gente está lá dentro, não dá uma coisinha para um pobre caído, e ainda debocha. Eu não. Eu aprendi, eu acredito em Deus, Ele sabe, Ele me deu muita força para tudo. Às vezes eu xingo, não sei quê, e eu digo:

– Ai, o Senhor me desculpa, eu estava nervosa, sabe?

A gente cantava com as freiras. Cantávamos os hinos da igreja. Minha família, principalmente minha mãe, minhas irmãs, nós temos esse tipo de voz. A gente sempre gostava de cantar, assim, eu Marina e Gina, as outras irmãs eu não sei, do segundo casamento, que minha mãe teve 11 filhos. Mas a gente, do primeiro, a gente gosta de cantar. Foi isso, mas sempre cantei no Império, no Asilo, aí estou na Velha Guarda, me convidaram, eu acho que foi Neide que mandou me chamar. Porque eu sou fundadora do Império, tinha gente na Velha Guarda que não tinha nada a ver com o Império e botaram na Velha Guarda, e as pessoas que são Império mesmo, desde pequenas, não estão. A falecida Neide, ela sempre gostou da gente. Um dia ela chegou perto da minha prima:

– Eliana, diz à Balbina para vir aqui, que eu quero falar com ela.

Ela gostava também muito da minha filha, que costurava muito com ela. Minha filha ficava lá no ateliê e eu gostava muito dela, era uma mulher de fibra igual a mim, eu gosto de gente assim. Ela mandou chamar minha prima Eliana, neta da Tia Eulália, que queria falar comigo. Aí eu fui, quando eu cheguei lá, ela falou:

– Balbina, você agora vai para a Velha Guarda show.

E, antes disso, o samba do Silas eu que jogava na quadra… Eu fui sair com 14 anos, já tive ala no Império, minha ala era o nome mais bonito, mais certo que eu achei, e a gente saía bem vestido: Mistura de Raças, cada um comprava sua roupa, não tinha nada de levar vantagem, de comprar, dizer que foi um preço… A maioria eram todas amigas. A Leila Diniz saiu na frente da minha ala em 1972, no Alô Alô, Taí, Carmem Miranda, saiu na capa da revista. O pessoal foi para a França e eu não quis ir…

Uma pequena notável

Cantou muito samba

É motivo de carnaval

O Império ganhou primeiro lugar

Pandeiro, camisa listrada tornou a baiana….

Meu marido participou de uma das primeiras alas fundadas do Império, Milionário. Ele saía muito bem vestido, meu marido. Outra que aparece nas fotos antigas, Simplícia, essa foi com 96 anos que ela faleceu. O nome dela, a minha avó parece que adivinhou, ela era uma simplicidade. Naquela época, o negro, que morava na Serrinha, a maioria era no morro. Essa minha tia, ela já tinha a casinha dela na Rua Itaúba, agora Mano Décio. Ela já tinha a casinha dela, porque o marido dela já era da Light, mas ela era uma simplicidade, não era como pessoas que têm as coisas e querem se exibir. Ela não. E eu pensava: “Vovó botou o nome certo”. Ela tinha a roupa comum, a casa dela limpinha, ela não diminuía ninguém… A única que já tinha casa ali – quem tinha casa ali embaixo, já diziam que era rico – era igual carro. Antigamente pobre não tinha carro, hoje em dia pobre compra carro, troca carro. Lá em Madureira aquele que tinha carro as pessoas já sentiam que era rico. Era! Eu sabia o nome de todo mundo que tinha carro. Seu Adamastor, não esqueço nunca, ele que fazia a passeata para o Império, porque antigamente o grito da escola era passeata de carro, com todo mundo vestido, as alas iguais para ver qual era a ala que estava mais bonita, vestidinho, e o carro, cantando as músicas pelo bairro… Era, no bairro, era o grito de carnaval da escola. Agora…

Isso já vinha mudando. Ali foi tudo junto, já vinha mudando. Mudou mais quando veio o negócio de escola de samba de bicheiro. Bicheiro não, bicheiro é quem trabalha para eles. Banqueiros. Foram eles, eles tiraram todo o brilho das escolas de samba. Eu digo, foram eles! E foi na Ditadura, ainda digo isso.

Eu acho que a velha guarda é uma coisa boa para as pessoas relembrarem, as pessoas de idade, mas as velhas guardas agora não têm quase nada que relembra coisas antigas das escolas de samba… Tem a Velha Guarda show, não é? Mas para mim é uma coisa comum. Não estou vendo nada, é uma coisa comum. É um grupinho que canta, que leva o nome da escola, mas não vejo muito não. Na Velha Guarda show, uma faleceu até agora, a irmã da Nina, que estava doente há um tempão, e eu não escuto falar em botar ninguém. Se uma fica doente, partir, como a outra, tem que colocar outra pessoa, não é isso? Mas pessoas da velha guarda da escola, não pessoas de outra escola, por questão de coleguismo! Isso é que foi o errado, em certas Velhas Guardas. Tinha que entrar pessoas que eram antigas da escola; por questão de amizade, de sei lá eu de quê, eles pegam e botam pessoas que não tinham nada a ver com a velha guarda da escola. Tinha muita gente na escola, que podia estar na Velha Guarda show, e canta! Porque é uma Velha Guarda show, para fazer show. Se as pessoas não dançam e não cantam, por que estão lá? Vai para a velha guarda comum. Tem a velha guarda, que são as senhoras que saem no carnaval, não é isso? Eu não, que eu sempre fui assim, não ia para a velha guarda comum, que eu gosto de cantar, sambar, pinto, bordo.

Mas aqui a gente tem que gravar, você tem que ter boa voz, você tem que ter uma voz que agüenta um agudo, tem que ver isso também! E estava na escola há muitos anos. Não vi isso na Velha Guarda show do Império, houve esse erro! Eles não botaram pessoas antigas que cantam, que dançam, que têm história na escola desde criança. Velha guarda é aquele que tem história, tem um histórico no meio, porque se não você não pode estar numa Velha Guarda show da escola. Que história você vai contar? Você quando nasce não tem um histórico? Não tem que ter? Para conhecer, de onde você veio, como é que foi criado, no quê que tu era danado, ali, saiu, foi estudar, não tem que ter?

Então, uma velha guarda, até a comum, tem que saber se aquela pessoa desde moça estava na escola, é uma história. Vem gente estranha, que não tem nada a ver com a escola, nunca foi da escola e entra para a Velha Guarda. Isso não está certo! Quantas que são criadas ali, que cantam… Política, polêmica. Isso não pode acontecer. Tem muita que eu digo: ué! Essa daqui nunca foi da escola, vem aqui com pose, não pode! O Império tem tantas… Quando foi para o Mercado de Madureira, não tinha telhado, o Império estava sem quadra, depois o trem entrou… Mocinhas, mulheres, na hora do ensaio, quando chovia, para poder ensaiar, ficavam com vassoura tirando água, para a gente poder ensaiar. São essas que lutam pela escola! Pessoas que chegam, sem mais nem menos, ainda querem chutar a pessoa antiga! Quer ser mais na escola que a pessoa antiga, não pode.

Todas as escolas têm isso. Quando vê, elas entraram ontem, querem mandar mais que aquela que sofreu com a escola. Não pode! Eu não aceito. Eu sou ariana. Já digo mesmo, ariana é danada. Eu não aceito nem no quintal da minha casa, ninguém fala mais alto de que o tom primeiro, que é meu. Tem que ir a pessoa mais velha, ela conta a história, ela sabe. Outra vez que foi um sofrimento, que o trem saiu do trilho e entrou na quadra, as meninas, aquelas senhoras trabalhando com o bombeiro, o trem dentro do Império, aquela tristeza… O Império sempre passou essas coisas. E pessoas que chegam aqui, no bem bom, querendo ter mais posição… Eu digo, eu não aceito. Eu, negativo! Agora, nas escolas de samba existe isso. O mal é esse. E você que é antiga na escola, que sabe, lutou pela escola, nós que sofremos com os deboches da Portela… A Portela debochava do Império à beça, a gente menina! Não podia brigar, não é? Que a família do Império nunca gostou da briga de rua, não. As mães, os pais, apanhavam as mocinhas:

– Vamos embora!

A gente sofreu feito não sei o quê.

Ah, eu já falei para eles: eu não vou vir mais não! Eu não vou dançar na avenida para maluco bater palma!

Para mim, o melhor são as lembranças. A escola de samba não está com mais nada, gente. Antigamente tinha o Teatro Municipal, não tinha? Tinha aquele show, no Teatro Municipal, desfile de Miss, enchia, para entrar era ruim! Agora, está tudo jogado. Nem Miss mais, desfila no Municipal. Tudo vai se acabando, não é? E escola de samba também vai se acabando. Aquela história boa, não tem mais não.

Hoje em dia as pessoas são muito ambiciosas por dinheiro, né? O povo mata, arruma confusão, fofoca, por dinheiro. Não está valendo mais não! A escola de samba, agora, é o dinheiro, é isso. Dinheiro e a posição, de aparecer. A pessoa não está na escola porque gosta da escola, não, quer aparecer! Eu não, gosto da minha escola, foi lá na minha casa que eles fundaram, eu não quero aparecer! Se vem uma câmera de televisão, eu saio correndo! E eu digo, meu Deus, o que é isso? Nada, agora… É tudo vaidade. Não é mais aquilo de dentro da gente. Não, um empurra o outro, e eu: cruz-credo! Escola de samba, minha filha, não tem mais aquilo que tinha.

É igual ao Teatro Municipal, não tem mais nada! E todo mundo botava aqueles vestidos, n’era? Quem não podia entrar ficava lá fora, esperando chegar, as Miss saltarem, para ver, que gente pobre, que não tinha dinheiro, não podia entrar. Hmm, agora as baratas voam lá! Vai acontecer com escola de samba. Escuta o que eu estou te dizendo. Aquela passarela lá, aquele Sambódromo, vai chegar um tempo – já não está muito cheio, como era, naquele tempo era cheio – Hm! Você vai ver, aqueles gatos pingados, o pessoal pedindo pelo amor de Deus para eles entrarem. O povo está enjoado também, e essa chatice, é um disse-me-disse… Escola de samba é lucro. Que se danem os outros! Eu não, que o meu dinheiro eu não dou.

Agora, com esse negócio de internet, como é que é? Que eu estou velha, não quero nem saber. Vende a fantasia pela internet, não é? Depois as pessoas pagaram, chegam e não encontram! Já teve. Escola de samba não está com nada não, enganando os outros, quando a pessoa chega na avenida, cadê? Cai fora! Eu digo, ah, antigamente não era isso, era uma beleza, era a beleza, mesmo.

O pessoal não ensaia, estraga a harmonia, bota ala que não tem nada a ver com a escola. Vende, para a Zona Sul, como é? Comunidade Zona Sul. O que é que escola de samba daqui vai ter comunidade Zona Sul? Ah, eu num agüento isso, é dinheiro… Eu? Digo, ih… Estou porque é o meu Império e eu gosto de cantar, e para sair de casa um bocadinho, mas não está com nada. É uma vaidade terrível. Que você está vendo que aquilo não vai dar certo, mas a vaidade… He-he! Digo, eu não, quando estou na Velha Guarda eu canto, jogo a minha voz. Que eu gosto de cantar. Eu gosto é disso, nunca quis ser profissional mesmo, nunca quis. Mas canto, comum.

Ó, comprei um cavaquinho! Vou aprender. Minha neta, falei para ela: vamos arrumar um conjunto. Eu toco, ela aprende cavaquinho, eu toco teclado, que eu gosto de piano também, que é da época do colégio interno. Eu ia entrar para a aula, quando eu vim-me embora, que me tiraram de lá. Eu sei as primeiras notas: dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó. Volta: dó-si-lá-sol-fá-mi-ré-dó. Eu digo: vamos fazer aqui uma… Tá aí o cavaquinho, agora vou comprar o teclado, o teclado é meu.

O enredo da Portela quando eu desfilei foi aquele, quer ver? Foi.. Ai, peraí.

Dom João VI magistral
Ao passar pela estrada da Bahia…

Não. Tenho que lembrar!

Com destino ao Rio de Janeiro
Quando aqui desembarcou
Com toda a família real…

Não foi esse não, foi… Foi de dança, que eu saí na Portela.

No dia do seu casamento
A Ordem da Rosa ele criou
A Corte estava engalanada
Era um lindo cenário
De raro esplendor…

Eu cantava e o pessoal gritava, assim, no Império:

– Balbina, tá cantando! É Império!

Aí que eu cantava mais:

As ilustres personagens
Prestavam homenagem
Ao par imperial
Desde o ato religioso
Das alianças e do bolo
A valsa nupcial
A orquestra animava a festa
No salão da Corte imperial

Lararárará, lararárará
Lararárará, lararárará
Lararárará, lararárará
Lárarará-larará-rará

Era o samba da Portela. A Portela ganhou, aí o pessoal cantava assim pro Império:

Como é bom ganhar
Como é bom ganhar
Não adianta você chorar[4]

O Império já teve época que tinha ala com 4 pessoas, minha tia botava, essa ala da comunidade foi Tia Eulália que armou a primeira. Nós ganhamos Estandarte de Ouro…

A gente cantava bastante, fazia evolução. Na avenida, o Império com pouquinha gente, a gente ali brincando. Eu digo, essas aí não brigaram nada pelo Império não. A gente ali cantando, bonitinha, todas novinhas, da Serrinha, Congonha, da Grota… Todas as comunidades de Madureira, Cajubira, tudo! Então a ala ficou enorme. Encheu a avenida, a ala da Comunidade, da gente. Eu era a diretora, vinha organizando, fazendo evolução, nessa época, ajudando né? Vim com a roupa de diretora de ala. E elas cantavam, evoluíam, era bom. Aí, primeira coisa: Estandarte de Ouro, ala da Serrinha. Olha, tem história. Samba tem história. Agora, eu gosto muito de muitos sambas, das escolas de sambas. Tem cada samba lindo, não é? Cada uma tem sempre aquele mais bonito, que fica na história. Não sei eu posso falar…

O da Mangueira. Na época que eu estudava no SENAI, quase em frente à Mangueira, na São Francisco Xavier, eu subia aquela galeria e já estava na quadra da Mangueira. De vez em quando eu ia para lá. Dona Zica, Dona Neuma, as filhas da Dona Zica, também, as garotas, tinha umas que estudavam comigo também no SENAI. Eu gostava de um samba da Mangueira, ainda gosto, vou te mostrar. Olha que samba lindo, da Mangueira, que eu guardei. Está na voz do Jamelão. Eu ia para lá… Não tinha aquela quadra, era pobrezinha aquela ruazinha da Mangueira, e a quadra era aquela quadrinha antiga, agora é que tem a quadra. Mas eram os mangueirenses de coração, minhas colegas, meus colegas, tudo Mangueira, que estudavam lá também… Esse samba da Mangueira, até hoje eu gosto, Primavera (Cântico à natureza). Gente, que samba bonito! Eu escutava cantar, eu cantava também! Muito bonito.

Antigamente, os sambas ficavam na história. Agora você não sabe o samba-enredo do ano passado. Antigamente não, e não tinha nem esse grandão, esse discão. Mas era cada samba bonito! Salgueiro, Portela, Mangueira, Império… Aquele samba bonito! Agora as escolas fazem samba mixuruca, horrível. Olha que sambas bonitos, antigos! Ah, que é isso! Agora não tem porcaria nenhuma! Olha que coisa linda, Casa Grande e Senzala… na seresta eles estavam cantando, domingo, eles vieram me buscar. Lá no Irajá, aqui nesse conjunto.

Macunaíma, tempo em que eu ia para a Portelinha, passava pela linha do trem, atravessava… É esse agora, Primavera, muito bonito! Olha aí, o primeiro passo – artrose.

Brilha no céu o astro rei com fulguração

Muito bonito, eu saía do SENAI, ficava. É o primeiro passo… Cadê minha muleta? Eu largo ela em qualquer lugar… Mas eu sou firme.

…garoa
Molhando a terra…

Bengala, muleta, tudo a mesma coisa. Será que está lá na cozinha? Olha que coisa bonita:

…magistral
A primavera…

Menina, eu tenho que voltar ao médico. Terça-feira, eu tenho. Agora eu vou, dia 23, para eles verem, que a prótese chegou… Ele gosta de internar domingo. De manhã a pessoa opera, se não fica lá, fica ruim, você ficar lá. Aí:

…inspiradora de amores
Oh! primavera idolatrada
Sublime estação das flores

Eu sambava na Mangueira!

Oh! primavera adorada
Inspiradora de amores
oh! primavera idolatrada
Sublime estação das flores


[1] Optou-se ao validar esta transcriação, por corrigir as letras dos sambas citados por Balbina, já que eram pontuais. Nos casos em que ela não cantava o samba inteiro, foram reproduzidos apenas os versos cantados.

[2] Sérgio Cabral transcreveu a letra completa: “Não foi Portela / que anulou / não foi Mangueira / também não foi, não senhor / Essa escola / Pra vocês é um mistério / Não digo o nome / Deixo isso a seu critério / Mais uma chance eu vou lhe dar / Essa escola fica perto de Madureira / saiu representando em cinqüenta e dois / Ana Néri, a corajosa enfermeira”. (1974, p. 124).

[3] Valença & Valença (1981, p. 20) informam que o nome da mulher de Silas era Elane dos Santos.

[4] Valença & Valença (1981, p. 66) contam que Mano Décio da Viola também se desentendera com a diretoria do Império depois do carnaval de 1963, indo para a Portela. A ele atribuem a autoria e a divulgação do deboche Como é bom ganhar, que teria circulado pelas ruas de Madureira em 1964.

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