Do “talco no salão” ao “passa álcool na mão”: a cacofonia sexual como questão política da sociedade brasileira.

(Seção “Prosa de Batuques e Cachaças”)

(por Léo Pereira)

Sim, meu caro leitor, meu título pomposo daria uma tese das mais horrendas que só a universidade poderia nos apresentar. Apenas quero chafurdar, entre cus e álcool, a beletrice de nossa língua.

“Me dá uma mão”, “meu coração por ti gela”, “a fé de nosso povo é forte”, “só negam os pobres”, “vou-me já”, “desculpa então”, “alma minha”- de Camões-, “eu nunca vi umbu ser tão azedo”, “Cubalança”, entre muitas outras, formam o compêndio de cacofonias tão corriqueiras na vida do brasileiro. Muitas delas com sentido sexualizado. Mas não quero fumar o charuto do Freud. Apenas dar importância à característica de esculhambação da língua brasileira que vai contra a moral e os bons costumes em diversos tempos históricos.

”Cacofonia” vem do grego e significa som desagradável. De um lado, alguns especialistas da língua portuguesa (DUBOIS et al., 1978; CHERUBIM, 1989; SOUZA, 2010) a definem genericamente como “cadeia sonora desarmônica” e consideram que colisão, hiato, eco, (má) aliteração e cacófato são cacofonias. Por outro lado, temos estudiosos (BECHARA, 2006; CEGALLA, 1994; PIGLER, 2009) que igualam cacofonia ao cacófato, isto é, à formação de uma terceira palavra pelo encontro de outras duas.

Nossa destreza linguística-sexual é tão grande que lambemos a língua dos outros para expor o que há de mais voluptuoso pelos acentos sonoros. “Thank you”; “Kuwait or black?”; “met cool”; “cocou!” – saudação do francês…e assim vai.

Como você, como todos os brasileiros, a sonoridade nos importa. Ela perpassa o corpo e vai de humor à xaveco furado. E que se lixem as definições. As cacofonias são a tiração de sarro mais simples, mas não simplória, que pode passar pelo ouvido mais desatento, como também ser o deleite para o mais atento usar nas diversas situações. Mas quem cacofoneia demais, cacofoneado será. Em demasia, perde o fogoso do embaraço linguístico. Quem enuncia pode dar o tom da tiração ou pode escapar da boca como um perdigoto linguístico incontrolável.

Fato é que a cacofonia também é recurso linguístico que se usa em poesias e canções. Do velho Camões, como já mostrado acima, passando pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, à Clemilda, a cacofonia é um deleite inesgotável.

Clemilda, em 1987, lançou “Forró Cheiroso (Talco no Salão)”. A música foi um sucesso na época e, certamente, a cena emaranhada no refrão era de uma pornochanchada tupiniquim. E  mais certamente ainda a motivação central era o cu. A estrela de mil pontas que é o tabu – e, por isso, o desejo explícito – tem lá suas controvérsias em nossa sociedade. Tem palavrão com cu, tem música com cu, tem poema com cu. A vida é um cu. Pobre cu, tão lascado e tão desejado…

Mas, assim como diz a Polka do Cu, música do filme “Tatuagem”: “a única coisa que nos salva, a única coisa que nos une, a única utopia possível é a utopia do cu!”. Talvez até esta utopia esteja nos escombros das cagadas permanentes em que vivemos como sociedade.

A palavra de duas letras mais acintosa de nossa língua passa pela boca de todos os brasileiros. Quem não tem cu, que mostre!

Talvez todo brasileiro quisesse fazer a cena do salão nos seus mais recônditos desejos.

Se o cu feder, lasca talco, e o rebolado não é perdido. Pelo contrário, ganha vigor. Tal é a empáfia dessa suruba dançante que o refrão gruda como aquele indesejado pedaço após o momento sagrado nº 2. Aqui a cacofonia serve como forma de extravasar proposidamente aquilo que é reprimido tanto quanto é desejado.

Nesta pandemia sórdida em que cu já nem tem mais graça, porque sai da boca do presidente tão sórdido quanto a pandemia, surgiu, logo em março ou abril de 2020, o “passa álcool na mão” em ritmo, ao violão, de música de igreja católica.

A senhora, uma professora, entoava ingenuamente a canção dando o conselho mais importante deste momento histórico aos seus alunos. “Em tempos de corona, preste atenção”…ela chama o ouvinte para o grande recado. Inicialmente “passa álcool aqui”, que leva o enlace entre o cantador e o ouvinte. O cu é a chave da sátira e do enlace entre as duas partes. E logo a seguir, “passa álcool na mão”. O refrão pede o congraçamento do cu para consigo mesmo.

Mas, como toda cacofonia devemos levar em conta os dois sentidos: passa álcool na mão; passa o cu na mão. A repetição nos leva a acentuar cada vez mais a sílaba fraca para torná-la o mote. Ao final, não dá pra saber se a senhora queria ou não que passássemos o cu na mão, mas a questão não é a intenção dela. No limite, todos estamos com o cu na mão, mesmo que você não queira acentuar. E não há máscara que reverta o medo. Mesmo os desmascarados, eles fingem não estar com medo. Só fingem. Mas eles também tem o cu na mão e dinheiro no rabo, muitas vezes. Embora a amostragem de cus empíricos seja grande, o grande cu simbólico é o que importa. Tudo dele sai, fede, mas todo mundo quer entrar, mesmo aqueles que resguardam demais – quem tem portinha de ouro, guarda a chave.

A cena da chanchada do salão do final da década de 80, aos toques da redemocratização e de um cheiro de neoliberalismo, era a exposição do cu como o paradigma individual, embora exposto no coletivo. Era o privado dando o acento pro público, com o perdão do trocadilho. Logo mais estaremos no nível da cacufonia em que a graça perde para apenas exaltar o próprio, como um deus idolatrado que não sai da boca dos afoitos.

Agora, é cada um por si e que cada um aguente suas cagadas. Como já dizia Bocage, quem tem cu tem medo…e treme!

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