Especial crônicas de Carnaval e não carnaval: Carlos Drummond de Andrade (1)

(Foto de capa: Revista Manchete de 1957)

(Seção “Prosas de batuques e cachaças”)

16/02/2021

Um de nossos maiores poetas também foi um de nossos maiores cronistas, e talvez o de carreira mais longeva, em torno de 40 anos escrevendo para jornais. Mestre também na contação de causos, vale ler cada linha desse observador do cotidiano, mordaz, irônico, melancólico ou tudo ao mesmo tempo.
E o assunto “carnaval” foi algo recorrente para o cronista ver nele a potência da sociedade brasileira em suas contradições.

Três crônicas foram selecionadas. Aqui, temos as duas primeiras, de contextos históricos bastante diferentes, a primeira no auge da política de JK; a segunda, no fim da ditadura militar em lento processo de redemocratização.

(por Léo Pereira)

Diante do Carnaval


(Carlos Drummond de Andrade. Fala, Amendoeira, 1957)

Ora pois, chegou o momento de cessar o trabalho e entoar o cântico e desmanchar o corpo em sacolejos convulsos. Teus amigos se dividiram em duas hostes: a que se retraiu para montes e praias, e a que, vestindo os disfarces mais leves, saiu por aí saracoteando e gritando. Entre as duas formas de viver o carnaval, ficaste sozinho e desarmado: no centro do acontecimento, sem participar dele.

            Velhos carnavais afloram a tua memória. Por tê-los brincando, conquistaste o direito de eximir-te aos novos. Foste moço e ainda não és velho. Recusas-te a aderir; recusas-te a fugir. Elegeste para estes quatro dias o pijama, o livro, o jardinzinho, o cigarro, a música, o sono, a paz. E todas essas riquezas, vais desfrutá-las a dois passos do clube de onde desce e se espraia um rumor rouco de água rolando, coral frenético onde se misturam imagens e interesses da vida cotidiana, penas de amor, invocações a uma alegria que é apenas prazer, a um prazer que busca subjugar o tempo e dissolver o importuno senso de realidade, mais duro e agressivo que a realidade mesma. Tua situação é quase a de um sábio recolhido ao hospício, ou a do puma no jardim zoológico, entre siriemas e quatis. Essas coisas não te dizem respeito, e passas ileso entre elas. Mas evita o orgulho; se há uma razão pessoal para não ceder ao calendário, sobram mil outras para obedecer-lhe. Tua razão individual é uma vitória sobre os ritos, que ainda não amadureceu para outros, e talvez jamais amadureça. Repara nos velhos foliões que se esbaldam junto a brotinhos. Se são autênticos, não podes condená-los, embora também não os invejes. A criança, e não o sátiro, continua neles a desenvolver um jogo pueril, e, mortos, amanhã sorrirá na lembrança desses velhos um pouco do que dançaram.

            O carnaval não mudou senão nas formas aparentes, e não tens direito de suspirar que naquele tempo, sim, era melhor, e hoje tudo é porcaria, da decoração aos sambas. O carnaval cresce e se agita dentro de cada um, seja ou não patrocinado pela prefeitura, e dinamiza músculos e cordas vocais, restituindo ao homem um pouco de animalidade comprometida menos pela civilização que pelo seu uso mecânico. O poeta imaginou compor um carnaval, como o de Schumann, “todo subjetivo”. São todos subjetivos, quando vividos intensa e profundamente na zona sensível de cada um, que transforma e valoriza a circunstância exterior. Não te rebaixes a falar mal do carnaval que já não te procura.

Foliões fantasiados na Avenida Rio Branco, no Centro, em março de 1957 | Foto de arquivo/Agência O GLOBO)

            Estás só. É bom estar só, quando companhias sutis nos embalam, como sejam o livro muito folheado, o navio de Segall na parede, um gato austero. Outros estão sós, como tu, mas presos a uma inibição ou a uma disciplina. Para os doentes no hospital, o dia é mais longo, para as enfermeiras é mais árido. Motorneiros e condutores, nossos irmãos admiráveis, estão sós no infinito barulho e promiscuidade, na ilha de trabalho a que se condenaram. E o faroleiro no seu farol, o aviador na sua máquina, e esse homem ou essa mulher sem rosto, que velam por um gerador ou mexem uma panela na chapa de ferro, e que ajudam a vida a continuar, em sua humildade sem prêmio.

            Entre o prazer e a abstenção, encontraste no carnaval este secreto encanto: é uma festa que a uns permite a extroversão, a outros dá ensejo de fugas marítimas ou campestres, e a ti oferece o exercício da arte difícil e nobre de estar só.

Bloco do Eu Sozinho, inaugurado em 1919, pós pandemia de 1918. Foto de 1960. Arquivo: O Globo

Fugir do Carnaval

(Carlos Drummond de Andrade. Contos Plausíveis, 1981)

No Carnaval, ou se brinca ou se foge para onde ninguém fala em Carnaval.
Este lugar existe? Minimiano achava que sim, e procurou-o em praia longínqua, onde deparou com o banhista fantasiado de pote. Rumou para a mata na montanha, e lá viu uma cenoura sambando, com jeito indubitável de mulher.
Minimiano fretou um helicóptero para passar o maior tempo possível afastado da folia. No alto, o piloto pediu-lhe licença para mascarar-se de sagui-caratinga. “Só a máscara, o resto do corpo não. O senhor não vai se incomodar, né?”
Minimiano ia dizer que sim, que se incomodava e muito, mas a cara do piloto era tão suplicante que ele respondeu: – Claro que não. Você não tem aí outra máscara para mim?

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