Especial crônicas de Carnaval e não carnaval: Machado de Assis

(Seção Prosa de batuques e cachaças) – 16/02/2021

Antes de irmos à crônica, um comentário:

Na época em que Machado de Assis escreveu a crônica, o Carnaval, como conhecemos, não havia ainda se estabelecido. Entrudos, feito principalmente por negros desde tempos da escravidão, desfiles venezianos da alta classe carioca, papagaia dos costumes europeus, e os bailes de salão eram os principais eventos carnavalescos.
Mas curiosamente um ano antes dessa crônica de Machado de Assis, Hilário Jovino Ferreira, cria o rancho “Reis de Ouro”, o primeiro a desfilar no carnaval, com inspirações das festas afro-baianas. Naquela época, a perseguição do Estado era grande sobre os entrudos e ranchos de negros que desfilavam, com ou sem autorização da polícia. E para ser aceito pela alta sociedade Jovino inseriu flautas, violões e cavaquinhos somados à percussão, uma vez que esta era considerada instrumento de negro, primitivo etc. Os instrumentos melódicos e harmônicos foram a negociata possível para que o rancho se apresentasse pelas ruas da capital federal. Além disso, a apresentação estética com panos vistosos e estandarte também contaria como fator novo e de permissibilidade pela alta sociedade branca.
Naquele mesmo ano, Jovino inseriu o elemento do mestre-sala e da porta-bandeira. E ele é o 1º mestre-sala do carnaval, com a alcunha de “Lalu de Ouro”. Sem dúvida, o desenvolvimento do carnaval naquele momento não diz respeito apenas a Hilário Jovino Ferreira, mas a outras figuras, como Tia Ciata e outras tias baianas e aos sambistas frequentadores da Festa da Penha, que contribuíram para a festa tornar-se negra e popular.

Foto de Hilário Jovino e família.

A partir daquele ano houve uma febre de ranchos carnavalescos e Jovino foi o criador de pelo menos mais oito outros, inclusive o lendário “Ameno Resedá”. Mas aí já é outra história…vamos à crônica.

(por Léo Pereira)

Crônica de 12 de fevereiro de 1894 – Jornal A Semana.

(por Machado de Assis)

Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de l’homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

Não veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as ri roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda foi pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras ver e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.

Não admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as mesmas coisas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há de vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria simples, nada mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pedir com graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miçangas! Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos dois ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!

Como se disfarçarão os homens pelo carnaval quando voltar idade da miçanga? Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Notícias escreverá por esse tempo um artigo, em que dirá:

“Pelas figuras que têm aparecido nas ruas, terão visto os nossos leitores até onde foi, séculos atrás, já não diremos o mau gosto, que é evidente, mas violação da natureza, no modo de vestir dos homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que são a própria epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas vestiduras perversas falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa aperfeiçoar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o lenço; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestável, desde que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar uma ideia viva da diferença das duas civilizações, publicam um desenho comparativo, dois homens, um moderno, outro dos fins do século XIX; é obra de um jovem pintor, que diz ser descendente de Belmiro; foi descoberto por um dos redatores desta folha, o nosso excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.”

Que não possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compará-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civilização mudará outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrópolis, capital da vida eterna. Lá ao menos há fresco, não se morre de insolação, nome que já entrou no nosso obituário, segundo me disseram esta semana. Não se pode imaginar a minha desilusão. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, não morreríamos nunca de semelhante coisa. Há anos deram-se aqui alguns casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser isso; mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provai nada, é que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão ainda outros. A chuva destes dias não fez mais que açular a canícula.

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