Especial crônicas de Carnaval e não carnaval: Carlos Drummond de Andrade (2)

(Foto de capa: Folião em 1958. Foto de arquivo/agência: O GLOBO)

(Seção Prosas de batuques e cachaças)

17/02/2021

Quantas canções de carnaval te marcaram? Drummond faz uma compilação, nada aleatória, e a delícia é ler e ouvir cada melodia entoada.
Ao final temos uma leitura maravilhosa de Paulo Autran. Leia e ouça!

Canção de Todos os Carnavais

(Carlos Drummond de Andrade. Os dias lindos. Editora Companhia das Letras, 2013 – crônica publicada no Jornal do Brasil onde Drummond escreveu de 1960 a 1984, quando tinha 81 anos. Infelizmente não sei o ano desta crônica)

Ó raio, ó sol, suspende a lua! E abre alas que eu quero passar. Bravos pro velho que alarga a rua! Mas quem foi que inventou a mulata? Vem cá, mulata. Não vou lá não, sou democrata de coração. Ah é? Então me deixa subir nessa ladeira, eu sou do bloco do pega-na-chaleira…

            Dengo, dengo, ó maninha! Ô, Filomena! Se eu fosse como tu, vestia uma camisa listrada e saía por aí. Mas, prefiro mandar fazer um terno de jaquetão para ver Carletto e Rocca na Detenção. O azar é que meu boi morreu, que será de mim? Mando buscar outro lá no Piauí?

            Sabe que o Chefe da Polícia pelo telefone mandou me avisar que na Carioca tem uma roleta para se jogar? Acontece que o galo da noite cantou, a baratinha bateu asas e voou, e a rolinha, sinhô, sinhô, se embaraçou, ela que nunca sambou. Justo nessa hora a camélia inventa de cair do galho, dar dois suspiros e depois morrer!

            Mamãe, eu levei bomba, mamãe, eu quero mamar! O rato roeu meu baú. Quero chorar, não tenho lágrimas. A estrela d’alva no céu desponta com tamanho esplendor, e eu aqui, que já peguei um touro à unha lá na Catalunha, eu moro na filosofia: Pra que rimar amor e dor? Sei que vão acabar com esta Praça Onze tão querida, do carnaval a própria vida, mas a malandragem eu não posso deixar. Vou sambar até cair no chão, e se ninguém se animar, quebro o meu tamborim!

            Conheço o pedreiro Valdemar, o que era casado com Amélia, a mulher de verdade. Estava sempre apelando: “Patrão, o trem atrasou”. Eu, não: implorar, só a Deus, e mesmo assim, às vezes, não sou atendido.

            Olhe, se você for sambar em Madureira, eu também vou. A cuíca tá roncando, e eu quero ser o teu Adão, desde que você deixe essa mania do inglês e me leve um braço de cera pra Santa Padroeira, que eu prometi.

            Abre, abre a janela, formosa mulher, e vem dizer dizer adeus a quem te adora! Sei que é covardia um homem chorar por quem não lhe quer, mas você, garota, é uma gostosura proibida pela censura. Ah, me segura, meu amor: ou você joga a chave, por favor, ou eu vou ter um troço!

            Me diga uma coisa: qual é o pente que te penteia? Desta vez vamos – mas pra onde, morena? Você já viu barrigudo dançar? Não? Ele é gaúcho falsificado, cabra farrista? É dos carecas que elas gostam mais? Com que roupa, com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?

            Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim…e hoje a minha grande mágoa é lá em casa não ter água – e só na hora da sede é que procuras por mim. Enquanto isso, lá vai Maria, lata d’água na cabeça – que agonia! É isso aí: quem não tem seu sassarico, sassarica mesmo só. A Maria Candelária, que é alta funcionária já reclassificada, deixou cair a máscara da face. Se a radiopatrulha chegasse aí, heim? Chegou foi a turma do funil, e todo mundo bebe, mas o papai aqui vai pra Marancagalha, de uniforme branco. Se Anália não quiser ir comigo, paciência: fabrico o meu pandeiro de lata de goiaba ou de creolina, e levo meu violão de estimação.

            Diz-que tem bububu no bobobó, mas ninguém balançou, ninguém mandou jenipapo maduro cair do galho. Por acaso precisei tirar diploma pra fazer meu samba? Esta mulata há muito tempo me provoca, e seu cabelo não nega. Só dando com uma pedra nela! Também, se a lua contasse tudo que vê, heim? Que buraco!

            Pior é que o orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu, e depois botam a culpa na pobre da serpente. Peguei no fubá, o fubá caiu; tornei a pegar, o fubá fugiu. Rezei com muita fé no espiritismo (acredito em Frei André). Isso de confete, pedacinho colorido de saudade, é como tererê: não resolve. Daí, que me importa que a mula manque, se o que eu quero é rosetar?

            Onde é que estão os tamborins, ó nega? Viver somente de cartaz não chega. Guerreei na juventude, e no fim desse labor surge outro compositor com o mesmo sangue na veia. Mas se ele te bate é porque gosta de ti; bater em quem não gosta, eu nunca vi.

            Estou prevenindo: quando eu morrer, não quero choro nem vela; quero uma fita amarela gravada com o nome dela. Peso é peso, braço é braço. Pega no ganzê, pega no ganzá! E abre alas, que eu quero passar. Não canto nada de novo? Onde há novo pra cantar?

Leitura de Paulo Autran extraída do programa da Rádio MEC de 11/05/2018

Para ouvir o programa completo: https://radios.ebc.com.br/memoria-radio-mec/2018/05/carlos-drummond-de-andrade-e-radio-mec-conheca-essa-historia-de

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