“GENOCIDA! GENOCIDA! GE-NO-CI-DA!” (por Nei)

(Seção Saideira)

A porta do nosso fatídico bar estava semi-fechada, com cadeiras barrando a passagem. Depois de alguns velhos companheiros de bar perderem pro vírus, os beberrões desistiram, o dono do bar, o novo dono, um empreendedor de 32 anos, com ideias de sucesso, insistia em sua equipe trabalhando. Dizia que era pra manter o ritmo, senão desacostuma a trabalhar. Vagabundo pega no tranco, dizia o jovem empreendedor.
Mas, nada como a prece de Nei como última tentativa de conseguir sua garrafa de estimação, sua canela de pedreiro. Sua memória de tantos anos naquele cafofo em vias de uma gourmetização que come memória com farofa vegana.

– GENOCIDA! GENOCIDA! GE-NO-CI-DA! – Nei chegou à porta de seu templo sem pedir licença. – Eu não vou pro genuflexório! Vírus, incêndio na Amazônia, viagens pra Marte, risco de extinção, o Brasil sendo tomado pela milícia e pelos milicos e cada um correndo atrás do seu próprio rabo. COLAPSO! Porra, Beto, tá difícil! Traz uma cerveja, preciso da guela gelada. Já tomei a primeira dose, eu não vou morrer, meu amigo! Nem que você passe minha cervejinha por debaixo da porta, nem quero entrar. Pelo amor de Oxalá! Tá foda! Nem mais reunião do Partidão Comunista do Samba tá rolando!

A mão de Deus logo apareceu por debaixo da cadeira entregando a bênção. A voz grave de Beto ecoa no salão do bar:

– Já tá bêbado, Nei? Não me fode!

– Beto, coloca a orelha agora. Ela é um bem precioso!

Nei, moribundo, se sentou na guia da calçada. Cabeça baixa, primeiro copo cheio.

– Não adianta, Beto, tá todo mundo surdo…lá lááá lá lá lááá lá, já dizia o Robertão. Meu time só dá desgosto e o campeonato parou. Estagnou no desgosto, parece esse país desde 2016 pra mim. E nem me venha com esse papo de resignação! O povo vive resignado e ainda pedem resiliência. Levanta, perde, levanta, perde…uma hora o corpo cai. Tão implementando o darwinismo social! Darwin não viu que os idiotas podem ser fortes, Darwin só queria ver pinguim, pato e lagartixa. A gente tá vivo e a gente pensa, até a segunda ordem! Querem deixar a gente como cachorros vadios e o osso roído é esse tal de Big Brother, fingindo que a carne se faz daquele jeito! E se faz, porque, no fim, todo mundo vai ser eliminado. – parou por alguns segundos, como se Beto estivesse ao seu lado – Ó, se liga, Beto, se liga naquele tiozão branquelo sem máscara!

Uma voz divina ecoou no silêncio do bar: – Nei, você também tá sem máscara agora…

– Porra, Beto, até tô achando sua voz linda… – responde Nei com um riso curto de desespero – Mas o papo é o seguinte: ele não tá saindo porque tá com fome e precisa sobreviver. Ele tá saindo fingindo que não tem nada…e finge que não tem nada há muito tempo, tenho certeza disso! É essa canalhada que tá no poder. Dizem que o inimigo é invisível, é o cacete! O inimigo tá aí solto no poder em Brasília e nos esgostos dessa elite. O bagulho é guerra sem bomba!

– Nei, você não tá passando fome. Eu é que tenho que sair pra trabalhar, senão o patrãozinho me demite! Venho pra fazer quase nada, além de organizar marmitas e limpar o botequim.

– Manda seu patrão tomar no cu! Ele e todos os outros! Eu me aposentei com quase nada, eu só queria viver de boa o resto dessa vida miserável. Poucas alegrias eu tive nesse país. Agora eu vejo o governador do Rio Grande do Sul falando que as pessoas têm que se matar pelos empresários, o governador do Espírito Santo determinando que as escolas devem fazer velório se algum aluno ou professor morrer, o presidente é genocida igual ou pior que Hitler e Mussolini! Estão matando a gente sem a gente saber, estão enfiando no rabo de todo mundo com areia e cimento e pedem pra gente gozar e cagar bonito! Enquanto isso o tal do Centrão tá pedindo cargo. Eles têm cargo e cagam na gente! – o último gole da cerveja.

Nei se encaminhou até a meia porta do bar e deixou a garrafa e o copo. A mão rapidamente recolheu a garrafa.

– Não vou mais te encher, meu camarada…Beba uma por mim, você não merece esse miserê. Só desejo boa sorte. Coloca na conta, se eu não morrer antes, eu pago…
– GENOCIDA! GENOCIDA! GE-NO-CI-DA! Eu não vou pro genuflexório! – continuou bradando o moribundo como um lema de guerra.

Ao fundo surge uma voz esgarniçada ecoando mais que a voz divina de Beto:

– Para de conversar com bêbado, porra! Vai trabalhar, Beto! Limpa logo o banheiro, acabei de cagar…

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