Conto

(Foto de Capa: Cândido Portinari (1903-1962) Meninos Soltando Pipas, 1941. Óleo sobre Tela 60 X 73 cm – Candido Portinari (1903-1962) Dropping boys Pipas, 1941. Oil on Canvas 60 X 73 cm)

(Seção Prosa de Batuques e cachaças / por Yuri Moura )

Vai, Alê, anda, muleque, vai porra!
Vai Alê, na mão, na mão, vai!
Vai voar, vai voar, aí, toma, caralhooooo!


Em um mundo normal, sem heróis ou monstros, sem a fada da indiferença e a magia das
coisas mais importantes, Alexandre, Fernando e Lucas cortaram, na mão, sem a magia
chilena, uma pipa. Na verdade, quem cortou foi Alexandre, mas como os três
revezavam a pipa, a pipa vitimada, solta no ar, era direito dos três.


A busca era dever. Para cumprir com o dever e gozar do direito, os três se puseram à
caça da pipa à deriva, devidamente uniformizados para essa missão: descalços, sem
camisa, vestidos apenas de sorriso. E a pipa voou. Eles desceram da laje num pulo e a
perseguiram, montaram cavalos, cruzando largos descampados e movimentadas
avenidas e, quando se cansaram e a pipa rumou para o oceano, pegaram ponga no dorso
de uma baleia azul que já era conhecida por ajudar crianças no cumprimento de seus
deveres. 


Em um mundo normal, por dias e noites viajaram agarrados ao animal com mais de mil
séculos. Durante a viagem, eles se revezavam para ver quem ficava mais tempo
suspenso nas alturas, se equilibrando com as costas sobre os jatos de água que saíam do
chafariz da baleia. Tudo isso sem perder de vista a pipa, que ora parecia que ia cair na
água, e aí seria viagem perdida, ora parecia que ia sumir, de tão alto que voava. As
cegonhas que os trouxeram à vida se revezavam com gaivotas e outros pássaros para
levar pequenos mariscos e frutas para os meninos. 


Dessa forma atravessaram oceanos e, quando quase chegavam à costa da Índia, onde
dezenas de outras crianças já aguardavam a chegada da pipa gritando “É minha, é
minha!”, Fernando gritou “É nada!”, deu um pulo certeiro e agarrou a pipa, caindo logo
depois na água com a mão levantada para não molhar o pássaro de seda com as cores do
Flamengo. A baleia deu meia volta, ordenou que Alexandre e Lucas prendessem a
respiração, mergulhou e voltou à superfície bem onde Fernando estava boiando com a
mão que trazia o troféu erguida. 


A pipa estava a salvo. Os três se abraçaram e comemoraram. Centenas de pássaros no ar
faziam um barulho ensurdecedor e, eufóricos, cagavam sobre as crianças e a baleia, que
tentava molhá-los com os jatos de água. A pipa pô, a pipa caralho, vai cagar na pipa, vai
estragar a pipa aí, ó! Gritou Lucas e fez com que os pássaros parassem. As crianças na
beira da costa ficaram maravilhadas com o espetáculo e nem se lamentaram pela pipa
capturada. Percebendo o risco de molhar a pipa, a cegonha se ofereceu para auxiliar
fazendo o frete do objeto durante a viagem de volta. 


Os meninos aceitaram, deixaram a pipa com ela e a viagem de volta foi só festa e jato
d’água. Será que vamo apanhar? Sei não, mas acho que se a gente chegar com a pipa,
não, que aí vão ver que nossa história é verdade.


Depois de quatro meses nessa aventura, as crianças voltaram e foram anunciadas pela
algazarra dos pássaros, que dessa vez chegaram aos milhares, cada um levando uma
pipa para cada criança de Belford Roxo.

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