Adoniran, Nelson Cavaquinho e Cartola, os três primeiros e inesquecíveis golaços de Pelão.

Pelão se foi nesta quarta-feira, 01/09/2021, mas seu legado para a música brasileira está registrado no mais alto escalão. Replicamos aqui parte do capítulo “Cartola, aos 65 anos” do livro Discos Marcus Pereira: uma história musical do Brasil, de André Picolotto, lançado pela editora Flor Amorosa em 2019.

Segue:

“A gente faz isso tudo rápido, correndo e ganhando pouco. Ou quase nada. Mas aí não vem ao caso. Me interessa que o que fiz ficou pro povo”

Se Cartola acumulava, em 1974, carreira musical de quase cinco décadas, João Carlos Botezelli, o Pelão, não completara nem um ano como produtor de discos. Mas seus dois LPs até então – de Nelson Cavaquinho e Adoniran Barbosa, ambos para a Odeon – renderam prêmios, imprensa, reconhecimento. E, da mesma forma que Cartola, Nelson e Adoniran eram artistas de longa história e reconhecimento tardio na música popular brasileira.

Nascido em São José do Rio Preto, descendente de italianos, Pelão começou a frequentar, em meados dos anos 60, os bastidores do show Opinião, onde fez amizade com vários compositores da velha guarda do samba carioca. Morava em São Paulo, mas ia ao Rio de Janeiro, com o pouco dinheiro que tinha, só para ver as apresentações. “Depois saía com o Nelson Cavaquinho pra beber. E o Nelson é três dias e três noites, direto. Sem dormir”, conta, em entrevista no seu apartamento no bairro Perdizes, em São Paulo. Ali eu conheci muita coisa. E você conhecendo uma pessoa que é bom caráter, que é sério, nesses lugares, você contrói tudo, rapidinho”.

Numa visita a conhecidos na Odeon, em 1973, pediu que fosse apresentado ao diretor artístico da gravadora, Milton Miranda, que o recebeu perguntando qual disco gostaria de produzir. “Nelson Cavaquinho”, respondeu. Miranda aprovou a ideia na hora. E Pelão decide gravar, no estúdio, o amigo do jeito como ele era – a voz rouca, o estilo único de tocar violão, com apenas dois dedos, acompanhado de músicos e arranjos a valorizar essas características -, numa primeira marca de sensibilidade que repetiria em toda a carreira. Estreia, assim, com um clássico.

A repercussão positiva lhe rendeu a chance de produzir, logo em seguida, o primeiro LP de Adoniran Barbosa. Mas não tinha, com Cartola, a mesma sorte. Por alguma razão, as grandes gravadoras negaram o sambista da Mangueira. “Eu passei em todas. RCA, Polygram. Todas. Chegaram a falar pra mim que ali não era asilo de velhos. E eu falei: ‘Tá bom'”.

Nessa época, recebeu o convite do amigo Théo de Barros para trabalhar como produtor na Discos Marcus Pereira, pequena gravadora paulista inaugurada meses antes. Théo, também produtor no selo, fora violonista do Quarteto Novo e coautor, com Geraldo Vandré, de “Disparada”, canção vencedora do Festival de 1966 da TV Record, na voz de Jair Rodrigues.

Pelão foi conversar com Aluízio Falcão, diretor artístico e sócio da Discos Marcus Pereira. A gravadora, fundada por ele e pelo publicitário Marcus Pereira, queria editar música brasileira ignorada no mercado fonográfico da época. Seu primeiro grande trabalho, lançado comercialmente em 1973, era uma coleção de música folclórica da região Nordeste. E iriam continuar com a documentação de estilos tradicionais da região Centro-Oeste e Sudeste. Aceitou o convite. Aluízio o colocou numa mesa em frente da sua. “A gente batia muito papo, e resolvia tudo”.

Cedo começou a propor o nome de Cartola. Mas até ali encontrava resistência, notadamente, segundo ele, pelo dono gravadora, Marcus Pereira. Até que uma noite, quando percorria seu roteiro habitual de bares, Pelão, “do jeito que o diabo gosta”, chegou no Jogral, na Rua Maceió, perto da Consolação. Lá encontrou Aluízio Falcão. O diretor artístico “não aguentava ficar em pé”.

“Lula” – assim o chamava; Pelão narra as histórias da época na forma de diálogos -, “pelo amor de Deus, eu quero produzir o Cartola.”

Ajoelhou, fez um drama.

“Amanhã de manhã a gente conversa.”

Às onze horas, na sede da gravadora, os dois sóbrios:

“E aí, Lula?”

“Vai pro Rio e faz o Cartola.”

Chegando à capital carioca, Pelão apenas deixou suas coisas no hotel em que costumava ficar – o Bragança, na Lapa – e ali mesmo pegou um táxi para a casa de Cartola, na Mangueira.

“Dona Zica, tudo bem? O Cartola tá aí?”

“Tá sim, Pelão.”

1978: Dona Zica (Eusebia Silva do Nascimento) e seu marido Cartola (Agenor de Oliveira). (Foto: Folhapress)

Cartola dormia atravessado, num canto. Acordou. Disse sentado:

“E aí, como é que tá São Paulo, Pelão?”

“Tá tudo bem, Cartola. E você, tá bem?”

“Tô indo.”

“Vamos gravar o disco?”

“Você tá brincando.”

“Vamos”

“Quando?”

“A semana que vem.”

Cartola deu um pulo, ficou esperto.

“A gente vai gravar que músicas, como?”

“Só você. Você do jeito que você é. Com Canhoto, Dino e Meira. Marçal, Luna e Eliseu.”

“E as músicas?”

“Eu escolho. Tá ok?”

“Tá ok.”

“Beijo.”

“Beijo. Vamos tomar uma cerveja?”

“Não, deixa pra depois.”

Resolvida a questão, Pelão saiu da Mangueira direto até a sede da RCA Victor, em Copacabana, e reservou um estúdio da multinacional para a semana seguinte: a Marcus Pereira não tinha estúdio de gravação próprio. De novo em São Paulo, avisou a direção que Cartola aceitara o convite e que ele, Pelão, voltaria ao Rio nos próximos dias para produzir o LP.

Na primeira sessão de gravação, em 20 de fevereiro de 1974, Cartola estava acompanhado por alguns dos melhores músicos populares. do país. Dino 7 Cordas e Meira nos violões, Canhoto no cavaquinho; Raul de Barros no trombone, Copinha na flauta; no ritmo, Marçal, Luna, Gilberto e Jorginho. “Só era bambambã”, recorda Pelão. E, para cantar melhor, o produtor sugeriu a Cartola que tirasse a dentadura. Deu certo. Sem arranjos pré-estabelecidos, bastaram quatro sessões para o disco ficar pronto: doze canções, todas do compositor ou em parceria; de “Disfarça e Chora” a “Alegria”, passando por “Corra e olha o céu”, “Acontece”, “O Sol Nascerá” e “Alvorada”- 28 minutos históricos para música brasileira.

Quando volta a São Paulo com a fita, vem a surpresa: Marcus Pereira não gosta do que ouve. Implica, particularmente, com o que julga ser um cachorro latindo na gravação. “O cachorro era o Marçal, a cuíca do Marçal. Era de madeira, de barrica, ainda a primeira, foi o pai dele que deu pra ele, o velho Marçal, da dupla Bide e Marçal”, conta o produtor. “Aí fiquei puto”.

O lançamento adiado, Pelão vai ao Jornal da Tarde enviar, por malote, uma cópia da fita a Alberto Helena Júnior, que cobria a Seleção Brasileira antes da Copa do Mundo da Alemanha e “era um fã de Cartola, conhecia o Cartola”. Na redação topou com Maurício Kubrusly, crítico de música do jornal.

“Ô, Pelão, tudo bem?”

“Tudo.”

“O que você tá fazendo?”

“Eu já não tô fazendo mais, já fiz.”

“O que que você fez?”

“Gravei o Cartola.”

“PORRA, mas como?!”

“O Cartola. Com Canhoto, Dino e Meira. Jorginho do Pandeira, Luna, Marçal. E mais umas coisinhas, pouquinhas, e tá pronto o disco.”

Dias depois, num sábado de manhã, Pelão vai à padaria, compra o Jornal da Tarde e encontra, no Carderno 2, uma nota com a manchete: “Está gravado o melhor disco do ano”. Era o que faltava para o LP ser aprovado.

A Discos Marcus Pereira lança Cartola em junho de 1974. (…) A autoria da imagem, na verdade, é dele [Pelão].

“A gente faz isso tudo rápido, correndo e ganhando pouco. Ou quase nada. Mas aí não vem ao caso. Me interessa que o que fiz ficou pro povo”, diz o produtor, cigarro sempre entre os dedos, um gole da café, tosse, a voz rasgada, áspera, tosse – como Nelson Cavaquinho. Então aos 74 anos, Pelão caminhou devagar até seu escritório, abarrotado de discos, livros, molduras. Mostrou o que ganhara ao longo dos anos: a famigerada cuíca de Marçal, um abajur e uma bicicletinha confeccionados por Adoniran Barbosa, quadros autografados por Nelson, Cartola, Dona Zica, Carlos Cachaça. Presente de amigos.

“O meu objetivo na vida sempre foi política. Minha formação é escola agrícola. Desde novo eu já fui estudar em escola agrícola. Eu fiz projetos de reforma agrária, fiz tudo. Meu negócio era política. Mas chegou uma hora, me encheu o saco a política, eu falei: ‘Tenho que achar outro jeito pra fazer uma revolução’. Que que eu faço? Vou dar voz pro povo. Eles cantando as coisas deles. Eles que falam o que sentem, o que tá certo, o que tá errado. Veja o Adoniran, veja o próprio Nelson. E o Cartola…não se fala do Cartola”.

(…)

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