A Oitava Cor

(por Cassio Guerreiro, Seção Saideira / ilustração de capa: Ilustração de Elifas Andreato para a peça “A morte do caixeiro viajante”, de Arthur Miller, que acabou indo parar na cozinha do dramaturgo)

Não só a pandemia de coronavírus e suas varietes mas também o próprio tempo vêm promovendo substanciais baixas irreparáveis entre os bons, retirados de cena pelo tempo orgânico, natural, aquele invencível que levou e vem levando tantos da imbatível geração da década de quarenta. Para além do tempo orgânico, o tempo sombrio, momento presente em que vivemos, com requintes de crueldade, traz a sensação de que apenas os nossos se vão, apenas os insubstituíveis, somente cabra bão! Bidu, a regra se fez presente semana passada. Morreu Elifas Andreato, um dos maiores artistas gráficos do país e, a meu ver, o maior capista da história da música brasileira.

Nascido em 1946 em Rolândia-PR, “até a adolescência ele era analfabeto. Foi operário, militante político e professor de artes na Universidade de São Paulo”, segundo Guilherme Bryan no perfil “Mestre dos traços” (2013) no site da Rede Brasil Atual. O artista gráfico compôs mais de 460 capas para os maiores nomes da história musical do país, Clementina de Jesus, Caetano Veloso, Clara Nunes, Paulinho da Viola entre tantos. Digo compôs, pois sempre vi as artes de Elifas totalmente integradas com o conteúdo sonoro dos álbuns a que pertenciam, eram mais uma canção, uma canção visual, em muitos casos a melhor do disco. Elifas era compositor de traços, cores e vida.

A primeira capa de disco foi em 1971 para Paulinho da Viola, com quem o artista teve uma longa e representativa parceria; foi, porém, em 1973, no disco “Nervos de Aço”, do próprio Paulinho, que Elifas revolucionou de vez o conceito de capa de disco no Brasil, conceituando o conteúdo musical e artístico, pela estética apresentada como, é o caso de “Caipira” de Rolando Boldrin e do próprio “Nervos de Aço”.

Em 1979, Elifas criou a emblemática capa de “Ópera do Malandro” de Chico Buarque. Na ocasião, um profissional de vendas da gravadora havia vetado a capa com o argumento de que o disco não iria vender pois o nome do cantor estava muito pequeno e não havia fotos do artista, Chico não vacilou e mandou o rebote: “Quem vende discos é você, eu sei fazer discos e o Elifas sabe fazer capas”. Um bom demonstrativo num pequeno causo, da personalidade de Chico Buarque, de como pensam as gravadoras e da confiança e admiração dos grandes nomes da nossa música no trabalho de Elifas.

Comecei a ouvir Martinho da Vila por conta das capas, que eu via quando ia almoçar na minha avó, na Santa Cecília. Me chamava muito a atenção aquela arte e eu logo aplicava na vitrola um “Maravilha de Cenário”, “Canta, canta minha gente” ou “Batuqueiro” que eram os discos que ela tinha do “da Vila”. Logo comecei a sacar a simbiose entre áudio e imagem contida naqueles trabalhos e me atentar primeiro ao Elifas e posteriormente ao Martinho. Tenho as minhas prediletas, que são tantas, quase todas, mas destaco “Rosa do Povo”, Martinho da Vila – 1976,  “Deixa Clarear”, Zeca Pagodinho – 1996, “Pelas Terras do Pau Brasil”, João Nogueira- 1984 e… deixa pra lá… Percebi que isso é uma missão impossível e deliciosa, um passeio pela obra de Elifas Andreato, em especial pelas capas de disco. É sempre um grande barato além de, involuntariamente, uma experiência musical inestimável. Elifas Andreato nunca trabalhou com bobo, foi a oitava nota musical dos discos com os quais colaborou.

Este Zumbido de Bamba já prestou sua reverência a ele, já que a imagem utilizada na capa de nossas redes sociais é a arte da capa do disco “Terreiro, sala e salão” de Martinho da Vila, lançado em 1979.

Saio da fantasia real das capas de Elifas Andreato e caio na real das ruas modernosas da Vila Leopoldina, região que recusa o vulgo genérico de outrora, simplesmente “Ceasa”. Como diz o José que ganhou um qualquer fazendo vídeo no youtóba de como aplicar o dinheiro que você não tem: “Se fui pobre, nem me lembro, tô bem”! Me chama a atenção os nomes dos novos empreendimentos de portarias “hi tech”, Sky Bourbon, Sky House,  Sky City, Skylab, o Skyambau! O que há com essa gente? Não sabe falar português? Alô, Carlos Wizard, Think outside of the box!, B2B malandragem, o filão, a barbada, vamos montar escolinhas de idioma português para brasileiros! É melhor deixar pra lá, é bem capaz de piorar! O craque, meu amigo Apolinho da Portela já está ocupado e jamais trabalharia pra você! O que houve com os edifícios São Luiz, São Gonçalo, Santo Agostinho? Os Cosmes, Damiões, Agnaldos e Geraldos já dançaram nas guaritas faz tempo, agora quem dançam são os Santos!

Rompemos mais uma placenta semanal com fibra e osso! Vamos com tudo que hoje é dia de Dobradinha no bar do Tião, na Região do CEASA e de cerveja gelada e roda de samba na Santa Cecília com direito à participação da caçulinha do carnaval paulistano, nossa querida Filhos da Santa vai subir para a praça, para a roda e voltar pro útero!

Um puta Abraço!

(revisão: Leo Pereira / imagens extraídas do site: www.emporioelifasandreato.com.br)

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