Especial Aldir: Bebêramos Aldir Blanc (por Cassio Guerreiro)

Hoje não bebo um pouquinho nem para ter argumento, após jogar a vida fora em mais uma bebedeira na noite anterior, estou  pedindo socorro ao Rio Maracanã e seu soro poluído de pilha e folha morta, de caco de garrafa, prego enferrujado, lata de sardinha, pneu de bicicleta e, sobretudo, versos do poeta que passou a vida naquele vale, na ourela da floresta da Tijuca, empunhando uma caneta correspondente a um cajado mágico na mão de um bruxo antes de despejar num caldeirão, letras para sua próxima poção, no castelo da Muda. Mofando entre o torresmo e a moela, bebi em tributo à passagem do grande Aldir Blanc. Foi a homenagem possível e, creio, a mais honrosa.

O bruxo da Tijuca se encantou. Aldir Blanc faleceu ontem aos 73 anos vítima da “gripezinha” que assola o mundo e de uma série de descasos oriundos de um país controverso que, se por um lado tem uma das maiores e melhores produções culturais do mundo, por outro, tem o povo que menos consome o que se produz. Aldir Blanc, o maior compositor do século XX morreu pelejando vaga no CTI. Logo ele que sempre denunciou as mazelas da saúde pública, em especial no Rio, como o Hospital do Andaraí onde “tu entra coco e sai caqui”, Aldir saiu orixá para o infinito e suas senhas ficam aqui na terrinha, no que depender de nós, para a eternidade.

Seja como letrista ou como escritor, Aldir Blanc foi um cronista do cotidiano, seu universo era o carioca; porém, um Rio de Janeiro tão rico em detalhes que ali, daquele quadrilátero entre Vila Isabel, Maracanã, Estácio e Tijuca, falou sobre o Brasil inteiro. Um voyeur da vida e do comportamento humano, dos pequenos detalhes aos quais Aldir dava proporções gigantescas como em “Tempos do Onça e da Fera” em que faz um paralelo entre a Vila Isabel da vida adulta, desregrada, dos prédios e trilhos e a idealizada infância, na casa dos avós, dos netos que brincavam no quintal, do quarador, do espanador, aos grandes ardis que , simplificava com seu humor sagaz como em “Querelas do Brasil” uma crítica ao Brasil com “Z” (Um Brasil de Miami, da flórida) que mata, não conhece e não merece o Brasil com “s”, o Brasil brasileiro. Uma desconstrução inteligente da ufanista Aquarela do Brasil, assim como em Nação, em que Aldir diminui o tom pacheco de Ary Barroso, e traz a beleza do país através da sua cultura popular e da sua história, além de seus distúrbios; novamente um Brasil com “S” justamente evidenciado . 

Ateu, Aldir Blanc falou de doutrinas como ninguém, talvez por ver beleza justamente na teoria, no saber e não no fanatismo da fé sem senso crítico. Por influência de sua avó Noêmia, que frequentava todas as religiões, Aldir abordava o tema com  propriedade. O candomblé sempre esteve presente na sua obra, da mesma forma como criou um hino do Kardecismo em “a Viagem” – aliás, hinos é com ele mesmo, assim como “O bêbado e a equilibrista” é o hino da anistia, “Ciranda do Povo” é o hino da consolidação da democracia (que por sinal, aguenta por um fio presa nas asas da pomba com mel e dendê).  Aldir jogou em todas, fez músicas para novelas, fez o tema do futebol da Rede  Globo, fez bolero, ijexá, forró, marchas, maracatus, cocos, choros e sambas. Adoraria discorrer aqui com detalhes  sobre a obra desse gênio, mas a missão é absolutamente impossível e qualquer tentativa por amostragem seria incompleta e injusta não só pela complexidade,  intangível e indescritibilidade, mas também pela quantidade imensa. A produção de Aldir não é coisa simples, concreta, direta e de fácil compreensão, mas garanto, o esforço do garimpo vale a pena. Tenho uma teoria que todos os brasileiros escutam no mínimo uma música do Aldir todos os dias sem conhecê-lo, ninguém passa impune ao bruxo da Muda. Eu sempre conheci Aldir Blanc, mas em determinada época mergulhei de cabeça durante três ou quatro anos na pesquisa de sua obra, não por obrigação mas sim por um vício irremediável e crescente de desvendar letras e admirar cada verso. E fui seduzido por esse universo rico cheio de senhas e sanhas, histórias, denúncias, delicadezas e personagens.  A literatura de Aldir é uma extensão de suas letras. Uma vida sem conhecer os personagens reais e fictícios como o Avô Aguiar, Vó Noemia, Formosa Helena, Simpatia é quase amor, Penteado um tremendo gozador, Isolda, Lindauro entre outros é sem dúvida uma vida incompleta.  Sugiro que busquem por essa produção  maravilhosa por meio da obra de seus parceiros mais substanciais como João Bosco, Moacyr Luz e  Guinga. Os intérpretes que o gravaram aos montes são praticamente todos da segunda metade do século até hoje. Suas crônicas publicadas n’O Pasquim, O Globo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e O Dia estão muitas delas reunidas em livros como “Rua dos artistas e arredores” e “Porta de Tinturaria”, fora a bibliografia completa. Busquem Aldir Blanc porque o Brasil com “Z” não vai jogar no colo de vocês, morram de amor por essa produção para que o maior compositor do século XX  possa reviver.

Aldir Blanc, nascido no Estácio, passou os melhores momentos de sua vida, a infância, no bairro de Vila Isabel na casa do avô Aguiar e da Avó Noêmia, onde certamente mora todo o sentimento de sua produção criativa. Na adolescência, Aldir, para sua infelicidade, voltou para o Estácio onde, por um lado, ele classificou como “a sucursal do inferno” devido aos frequentes bullyngs  e violências físicas sofridas no antro da malandragem carioca; por outro, foi ali, a duras penas que adquiriu toda a malícia e desenvoltura que, agregadas ao garoto inspirado e habilidoso com as palavras, formaram o perfil de um dos maiores gênios nascidos por essas bandas do mundo. Através de um primo  tornou-se salgueirense, frequentando os ensaios na antiga quadra da calça larga, no morro do Salgueiro; tornou-se também exímio jogador de sinuca no largo da segunda-feira e notável biriteiro. Na vida adulta, Aldir se refugiou na Muda, sub-bairro  da Tijuca e ali, por opção própria, tornou-se recluso no apartamento da Rua Garibaldi até o fim da vida. Toda a geografia da vida de Aldir é concentrada nesse entorno da Avenida Maracanã e da amada Vila Isabel onde faleceu ontem, curiosamente na mesma data de falecimento do personagem mais ilustre da Vila, Noel Rosa, em 1937. Como choraram por Noel, choramos por essa perda proporcional. Não sei se o Brasil atual não merecia Aldir Blanc ou Aldir Blanc não merecia viver no Brasil atual, sei que sua resistência na luta pelos direitos autorais, pela retomada da democracia, sua opção pelo caminho mais difícil nem sempre o mais conveniente,  tem que ser exemplo de alguma forma para gerações que virão. Aldir é insubstituível, assim como Noel, o maior compositor de seu tempo e um dos maiores da história.  Ontem, apesar de termos tido que resistir até os botequins mais vagabundos devido à pandemia que vitimou Aldir, relembramos sua obra – pra variar sempre acho algo genial que não conhecia nela- , cantamos, choramos e bebemos, seu gurufim foi feito, meu mestre! Hoje nosso beijo fede conhaque em legítima ofensa!

Em tempo, a eterna namoradinha (não pode ser esposa pra não perder a tetona do exército) do Brasil,  Regina SemArte foi canalha novamente. Com medo de desagradar o “patrão” (medo, sim! Pois aposto tudo que eu não tenho que o inquilino do planalto não deve  fazer a menor ideia de quem seja Aldir Blanc) emitiu uma nota de pesar em nome da secretaria de cultura na surdina, igual uma rata, exclusivamente para a família do compositor e não publicamente visando o interesse comum, sendo que como representante dessa secretaria, ex-ministério, ela teria a OBRIGAÇÃO de engolir sua ideologia, se é que tem condições intelectuais de ter alguma, e a sua subserviência humilhante e emitir publicamente a porcaria da nota de pesar pela morte de Aldir Blanc. Não cumpriu com sua OBRIGAÇÃO. Se bem que esse caso me faz lembrar a lógica do Chico Buarque em relação ao premio Camões. A maior homenagem que Aldir Blanc poderia receber desse desgoverno é o seu silêncio. Como o castigo vem a galope, ou melhor nesse desgoverno vem via “zapzap”, o Ministro Chefe da casa civil, Braga Netto, nomeou para presidir a FUNART, o maestro Dante Henrique Mantovani, aquele presidente do fã-clube de Richard Wagner, chegadinho num nazismo, num Hitlerzinho que havia sido demitido pela SemArte há dois meses. Tem por onde a namoradinha do Brasil ser mais avacalhada nesse desgoverno?  Regina como péssima atriz que é, que só sabe fazer berrar como uma hiena com amidalite, deveria acordar todos os dias olhar no espelho e aos berros agradecer ao pai onde chegou com tão pouco talento e preparo, “Obrigado meu pai por terem me colocado em trabalhos que fizeram sucesso! Obrigado meu pai pela peitarra do exercito que eu mamo até hoje! Obrigado meu pai!”. Mas nunca é demais para Maria do Carmo. Ela teve que terminar a carreira de forma calhorda e covarde lambendo bota de um soldado raso, rastejando-se igual a uma lagarta, envergonhando os colegas, a classe artística e os brasileiros. A tendência é que seja exonerada desse cargo, a Cretina SemArte vai ficar sem secretaria também! Vai olhar no espelho e citar Blanc: Cabô, meu pai! Cabô!

Um puta abraço!

Cassio Guerreiro

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